Opinião Lupa1
Por Redação
06 de novembro de 2025 às 21:47 ▪ Atualizado há 2 meses
A operação que interditou dezenas de postos de combustíveis no Piauí, Maranhão e Tocantins revelou uma engrenagem que movimentava bilhões de reais e servia como rota de suposta lavagem de dinheiro para o crime organizado, sobretudo para a facção criminosa PCC.
Foram apreensões, bloqueios e interdições em larga escala. As forças de segurança cumpriram seu papel com eficiência.
A dúvida fica no ar. O crime compensa?
Chegaram aos alvos, coletaram provas e desmontaram o funcionamento de uma rede que, à primeira vista, operava dentro da legalidade.
Os números chamam a atenção. Empresas abertas poucos dias antes de assinar contratos milionários, fundos de investimento de fachada e uma sequência de transações que davam aparência de negócio comum a um esquema criminoso. O mecanismo era simples e eficaz: transformar o lucro do tráfico em faturamento de combustível, misturando dinheiro sujo com o fluxo real das vendas. Tudo com notas, contabilidade e estrutura física de uma rede legítima.
A ação foi necessária e bem conduzida.
O problema é o que vem depois.
Nos municípios onde os postos foram fechados, a população comenta com descrença. As pessoas já conhecem o roteiro: a polícia faz a parte dela, os mandados são cumpridos, os bens são bloqueados e as manchetes tomam conta por alguns dias. Depois, o caso muda de fase, entra na esfera judicial e desaparece do noticiário. O ritmo muda, as defesas se estendem, e a punição se perde entre recursos e prazos intermináveis.
É nesse ponto que nasce a sensação de impunidade. A população não duvida da capacidade das forças policiais nem da atuação do Ministério Público. O que desanima é o desfecho. As grandes operações costumam parar no meio do caminho. Quando chegam ao fim, o tempo já apagou o impacto inicial e o sentimento de justiça se dissolve.
Enquanto isso, os responsáveis seguem atuando de outras formas. Mudam o nome das empresas, transferem os ativos e voltam ao mercado. A estrutura financeira do crime é flexível, se adapta rápido e encontra novas brechas para continuar operando. A cada nova investigação, o sistema se mostra mais sofisticado e a punição, mais distante.
A lavagem de dinheiro é um crime técnico, cheio de detalhes e exigências formais. Mas, para quem vive fora dos gabinetes, o que importa é o resultado visível. E esse resultado quase nunca aparece. O que a população quer ver é gente sendo condenada, patrimônio sendo tomado e o dinheiro voltando para os cofres públicos. Enquanto isso não acontece, a impressão que fica é de que o crime compensa sim, e muito.
Essa percepção não é exagero.
Ela se apoia em um histórico que se repete há anos. Operações de impacto, estruturas desfeitas, nomes expostos, mas poucas condenações efetivas. O país gasta tempo e recursos para desmontar esquemas que, pouco tempo depois, ressurgem com outras siglas e os mesmos beneficiários.
A resposta para a pergunta que dá título a esta matéria depende daquilo que vier agora. O Estado já fez a sua parte.
As investigações chegaram ao ponto mais alto possível dentro da estrutura criminal. O próximo passo está com o Judiciário, que precisa transformar o que foi apurado em condenação real. Só assim o ciclo se quebra.
Até lá, a pergunta continua ecoando. O crime compensa? Para parcela significativa da população, que vê a mesma história se repetir, a resposta segue sendo sim. Porque, no Brasil de hoje, o crime raramente perde tudo. E enquanto for assim, a sensação de injustiça continuará vencendo todas as operações.
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