Coluna Opinião Lupa1
Por Redação
21 de novembro de 2025 às 15:56 ▪ Atualizado há 2 meses
No final do vídeo, a prefeita Jôve Oliveira, passa um pano para retirar a tinta preta que estava no rosto. Tenta se limpar. Quanto a pigmentação, água e sabão são o suficiente. Mas a derrapada, essa não vai ser possível apagar. Quem teve a infeliz ideia de fazer o mesmo que a discriminação nos palcos brancos, que faziam atores pintar o rosto de preto para fazer papéis que pessoas com pele preta, que não eram bem-vindas à cena, deve ignorar a história.
Blackface: Prefeita de Piripiri aparece com rosto pintado no Dia da Consciência Negra - Foto: Reprodução Por volta de 1850, nos Estados Unidos, as companhias de Minstrel Show faziam sucesso. Era a expressão perfeita do racismo estrutural norte-americano fincando raízes que desprezavam os seres humanos escravizados. Naquela época já estavam livres. Porém, foi uma liberdade cerceada de respeito e tratamento digno. E nunca receberam nenhum tipo de indenização pelas perversidades sofridas. A dramaturgia, invariavelmente, reforçava a caricatura de pessoas pretas como preguiçosas, ignorantes e falastronas.

Que pessoa preta estava disposta a fazer o papel que só reduzia os afrodescendentes a histórias ridículas? Nenhuma. Era preciso que um branco fizesse o papelão de pintar a cara com carvão de estopa. Quando se pinta a cara, o colorante pode mudar a cor, mas não é capaz de alterar o caráter. A prática nefasta chegou até 1960, no teatro. O cinema também refletiu o que acontecia nas ribaltas racistas. O blackface é uma mancha na história das linguagens cênica e audiovisual, usadas como ferramentas de humilhação, discriminação e achincale.

A prefeita Jôve propagou durante quase 3 minutos uma modalidade de racismo classificado como recreativo. Onde a graça sempre fica do lado do opressor. O jurista brasileiro, Adílson Moreira, cunhou o termo. É mais uma formatação preconceituosa que sustenta o racismo estrutural, que a gestora executiva de uma cidade importante ajuda a perpetuar. O discurso, embora trazendo um conteúdo positivo, foi enxovalhado pela cara preta de tinta.

Vivemos o tempo em que a velocidade da internet exige a mesma agilidade de quem a opera. Apagando o vídeo postado ontem, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, a prefeita assumiu a culpa, mas não vai conseguir apagar a humilhação aos quase 13% de pessoas assumidamente pretas no Piauí, que basta dar uma olhada para o lado e ver que são muito mais. A aferição do IBGE talvez reflita apenas uma parcela. Outra muito maior está entre os que se dizem pardos, que chega a 64% no Piauí.

Era preciso a mesma velocidade para desculpar-se. A única forma de tentar diminuir o impacto do cancelamento, do alvo preferencial dos comentaristas de redes sociais, que não medem palavras quando estão indignados com razão. Nem sem razão. Depois de uma semana em que teve a péssima notícia de cassação de sua chapa de reeleição, às voltas com a Justiça, que lhe tirou os direitos eleitorais por 8 anos, o preconceito racial selou uma péssima fase para gestora piripiriense.
Até agora, Jôve mantém o silêncio. Algum malabarista em retórica deve estar tentando criar algo que justifique. Mas é impossível. Por humildade ou obrigação política, a prefeita deve vir a público pedir perdão. Não apenas às pessoas pretas, descendentes de escravizados, mas a toda a sua ancestralidade, que foi atingida, mais uma vez, cruelmente e sem direito a defesa. E à toda a sociedade. A cada minuto que se passa, é como a tortura que vai minando em açoites contínuos.
Coragem para fazer blackface nas redes sociais pode até ser fácil. Pedir perdão pode não ser tão difícil. Mas será que a prefeita Jôve teria coragem de viver na pele preta a dura realidade de uma mãe solo, que sobrevive de pequenos bicos e com o auxílio social do governo? A proposta hipotética que nunca vai acontecer é para ilustrar que jamais ela vai sentir de verdade o que sente uma pele preta.