REPORTAGEM ESPECIAL LUPA1
Por Redação
07 de outubro de 2025 às 15:28 ▪ Atualizado há 2 meses
Os últimos dias foram marcados por uma sequência de episódios que fizeram do governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), alvo de muitas críticas e notícias negativas.
Governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT). Foto: TV Lupa1
Embora de naturezas distintas, esses acontecimentos criam a percepção de uma crise sobre o governo. O relato abaixo reúne fatos documentados sobre cada caso e explica por que a opinião pública passou a questionar a capacidade do governo de reagir a esse conjunto de crises.
No início de julho de 2025, um áudio atribuído ao vereador Raimundo do Lero (PSD), de Dom Inocêncio, viralizou nas redes sociais. Na gravação, o parlamentar relata ter ouvido de um empresário que o governador exigiria R$ 2 milhões para liberar verbas de obras de calçamento.
Vereador Raimundo do Lero (PSD), de Dom Inocêncio
Ele sugere que o pagamento faria parte de um “sistema” de desvio de recursos públicos destinados a obras, com a finalidade de financiar campanhas eleitorais.
A gravação não foi autenticada e o vereador não apresentou documentos que comprovassem a acusação, mas o episódio provocou forte repercussão política e colocou a administração estadual na defensiva, sem uma reunião mais enérgica contra o fato. O governador optou por mostrar total desconhecimento do fato.
No final do último mês de setembro, a Polícia Federal, em parceria com o Tribunal de Contas do Estado e a Controladoria-Geral da União, deflagrou as operações OMNI e Difusão.
As investigações miraram contratos da Secretaria de Saúde suspeitos de fraude em licitações, conluio entre empresas e servidores, superfaturamento e contratação de softwares sem necessidade. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão e determinado o bloqueio de recursos.
Embora o inquérito não tenha atingido diretamente o gabinete do governador, a operação expôs vulnerabilidades nos mecanismos de controle de sua gestão e reforçou a imagem de desorganização interna.
Bruno Santos Leal Campos e Nemesio Martins de Castro Neto, gestores de Organizações Sociais de Saúde (OSSs) presos em operação da Polícia Federal
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No início de outubro de 2025, o governo exonerou Lucile de Souza Moura do cargo de assessora técnica da Secretaria de Governo. A servidora, que havia sido diretora da Empresa de Gestão de Recursos do Piauí (Emgerpi) e era considerada influente nos tempos do ex-governador Wellington Dias, foi dispensada de ofício, sem pedido de demissão formal.
Lucile Moura foi exonerada de cargo técnico da Secretaria de Governo no Piauí após ser alvo de uma operação da Polícia Civil no Estado.
Sua saída ocorreu um mês após ela ser alvo da Operação Vice-Cônsul, da Polícia Civil, que investiga um suposto esquema de produção e uso de denúncias anônimas falsas contra autoridades.
A exoneração foi publicada no Diário Oficial do Estado. O caso levantou questionamentos sobre critérios de nomeação e a proteção que se dá a colaboradores implicados em investigações.
As turbulências atingiram também o Gabinete Militar do Palácio de Karnak. Em dezembro de 2022, uma reportagem revelou que o então nomeado chefe do gabinete, capitão João Ricardo, respondia a processo por agressões física e psicológica contra a ex-esposa. Mesmo assim, ao assumir o governo em 2023, Rafael Fonteles manteve o oficial no cargo, decisão criticada por movimentos de defesa das mulheres.
Capitão João Ricardo, do gabinete militar do Palácio de Karnak, responde a processos por agressão física e psicológica contra a ex-esposa.
Já no início deste mês de outubro, outro escândalo expôs o Gabinete Militar: capitão Carlos Alves, braço direito de João Ricardo e segundo na hierarquia do conhecido Gamil, foi preso em Teresina. Ele dirigia embriagado na contramão quando atropelou três pessoas, deixando-as gravemente feridas.
Ao chegar à Central de Flagrantes, um jornalista que cobria a prisão foi ameaçado por policiais que acompanhavam o militar. O episódio levantou dúvidas sobre a cultura de responsabilidade e a seletividade na disciplina interna da corporação ligada ao governo.
Por fim, supostas ameaças a ex-companheira também deixaram o assessor especial John Wallace, homem de confiança do governador, que se transferiu do PT para o PDT com a missão de disputar uma vaga na Câmara Municipal de Teresina, em maus lençóis.
Circulou nas redes sociais a alegação de que Wallace teria enviado mensagens ameaçadoras à ex-esposa. Os áudios e mensagens atribuídos a ele foram repercutidos por páginas de redes sociais, e portais de notícias. A exposição intensificou o debate sobre a conduta do núcleo político próximo ao governador.
John Wallace, ligado ao governo também teve exposição nas redes sociais e na imprensa.
A sucessão desses episódios, um áudio acusatório sem provas, investigações federais na saúde, a exoneração de uma aliada histórica, acusações contra militares próximos e rumores sobre um assessor, cria um efeito cumulativo que alimenta a sensação de que o governo perdeu o controle da agenda.
Ao se apresentarem em sequência, as crises se reforçam mutuamente e minam o discurso de modernidade e eficiência que marcou a campanha e os primeiros anos do governo de Rafael Fonteles.
O governador e sua equipe precisam responder com transparência às investigações e demonstrar que há rigor na escolha e no acompanhamento de auxiliares. A exoneração de Lucile Moura e a manutenção de um militar envolvido em processo de violência doméstica sinalizam critérios ambíguos.
A permanência de boatos não esclarecidos sobre assessores próximos, mesmo que sem comprovação formal, também gera desgaste.
Sem fazer uma crítica frontal, este panorama serve de alerta: para recuperar o capital político e a confiança social, será essencial fortalecer os mecanismos de integridade, prevenir novos escândalos e agir preventivamente, em vez de apenas reagir quando as crises explodem.
Ao reconhecer e corrigir falhas internas, o governo poderá reverter a narrativa de desmoronamento e demonstrar que enfrenta os desafios com responsabilidade, sem tergiversar ou mesmo subestimar suas consequências.
Para Rafael, jovem e cheio de projetos para o futuro, não é razoável jogar problemas para debaixo do tapete, muito menos achar-se superior a eles.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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