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Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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MEC lança edital Nêgo Bispo que promove os saberes tradicionais

O filósofo e poeta piauiense é considerado o grande pensador contemporâneo, que mostrou a força que vem da ancestralidade.

02 de outubro de 2025 às 11:31 ▪ Atualizado há 2 meses


MEC lança edital Nêgo Bispo que promove os saberes tradicionais - Foto: Reprodução
MEC lança edital Nêgo Bispo que promove os saberes tradicionais - Foto: Reprodução

Quilombola

Do Quilombo Saco Curtume (São João do Piauí), Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo, referenciou sua trajetória e sua luta. Conectado com a ancestralidade desde a infância, foi escolhido pelos anciãos do seu clã para ser guardião de saberes. Recebeu instrução e propagou uma linhagem sábia. Lavrador, como deixou registrado na descrição profissional no perfil do facebook, revelava bem a primeira grande lição de seus mentores: ter a consciência de saber quem é e o que representa.

Considerado o grande pensador contemporâneo. Foto: Facebook

Pensador

Nascido no interior de Francinópolis, às margens do Rio Berlengas, Bispo foi privilegiado com um cérebro iluminado e livre. Descolonizar o pensamento foi um propósito de vida. Não apenas para si, mas para toda uma geração de brasileiros. Estruturado na visão cosmológica dos povos tradicionais de um mundo includente, partiu dos ensinos complementares em conexão com a terra. Sem frequentar a academia, da oralidade, fundamentou a graduação ancestral liberta de amarras coloniais.

Guardião de saberes escolhido por seus pares. Foto: Facebook

Escritor

O filósofo e poeta deixou apenas três obras. “Quilombos: Modos e Significados” (2007), que serviu de fundamento para a obra seguinte; “Colonização, Quilombos: Modos e Significados” (2015); e “A Terra Dá, a Terra Quer” (2023). No papel, em volumes pequenos, está a densidade e profundidade da descontrução da mentalidade ocidentalizada, forjada pela sistemática do modo europeu. Ler Nêgo Bispo é receber chaves que libertam.

Vendia os livros de mão em mão. Foto: Facebook

Palestrante

Melhor era assistir suas palestras. Além de compartilhar a visão filosófica, inseria seus poemas, que também têm uma linha descolonizadora. A força que veio da oralidade, fazia das rodas de conversas a oportunidade de expandir os pensamentos. Ilustrando com situações do dia a dia da comunidade, desenvolvia o olhar inusitado. Como é diferente a visão de quem conseguiu tirar de si o peso das heranças dominadoras.

Bispo tinha o dom da palavra. Foto: Facebook

Encontro

Melhor mesmo era passar uma tarde/noite papeando e tomando umas com o escritor. Com quem tive o primeiro contato no começo do milênio, antes de publicar. Há 7 anos, no bar Poleiro do Galo, na Praça Pedro II, que pertenceu ao cantor e compositor, Zé Marques, ele apareceu e tivemos um encontro glorioso. A simplicidade de Bispo ia de encontro a fortaleza de suas ideias sempre bem colocadas, que destruíam argumentos em contrário.

O colunista, Bispo, Zé Marques e amigos, em 2018. Foto: acervo Willian Tito

Conexão

Bispo deixou sua família instruída para que ele fosse sepultado na roça, onde viveu a maior parte de sua vida. O filósofo sabia bem o que plantara em sua trajetória. Enterrar a semente é parte do processo para ela se transformar em nova vida. Nascido em 12 de dezembro de 1959, o filósofo partiu faltando poucos dias para completar 63 anos de vida. Ele gostava de citar uma frase, que só agora faz sentido: “Estarei vivo, mesmo enterrado.” 

O primeiro livro. Foto: Facebook

Colheita

Lançado em julho deste ano, o Programa Escola Nacional Nêgo Bispo valoriza a integração dos saberes tradicionais na formação acadêmica de estudantes de licenciatura das instituições públicas de ensino superior e institutos federais de educação, ciência e tecnologia. Além da formação continuada de professores da educação básica, bem como na comunidade local. É o que enuncia a portaria Nº 537, de 24 de julho de 2025, do Ministério da Educação.

Inscrições

O primeiro edital saiu em 17 de setembro e segue aberto até o dia 16 de outubro. Destinado à Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, serão selecionadas até 100 propostas de cursos de extensão. Cada projeto pode receber até R$ 41,6 mil. Ao todo, são R$ 7,5 milhões em investimentos até 2027. O  projeto prevê ainda a distribuição do kit “A Cor da Cultura”, lançamento do “Mapa Censo Quilombola” e a criação do programa “Educação Antirracista em Diálogo.”

Dia da não-Violência

Uma referência a data de nascimento do maior ativista pela não-violência, que nasceu em 2 de outubro de 1869, em Porbandar, Índia. Mohandas Karamchand Ghandi, mais conhecido como Mahatma Ghandi, foi um advogado e líder espiritual que pregou a cultura da não-violência e conduziu o processo de libertação da Inglaterra, país onde se formou em Direito. Dizia: “Acreditar em algo e não viver é desonesto.”

Manas

A cineasta Marianna Brennand, do filme “Manas”, vai acumulando prêmios em sua jornada pelos festivais internacionais de cinema. O mais recente, de número 30, foi na China. O Silk Road Film Festival reconheceu a atriz Jamilli Correa como melhor atriz e a diretora pela sua função. Na plataforma Letterboxd, que reúne a crítica da cinefilia mundial, o longa está na 17ª posição entre os mais bem avaliados do ano. Seguido de “Homem com H”, na 18ª.