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Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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Marco Nanini entra em cena com monólogo “Traidor” no SESC Cajuína

Escrito e dirigido por Gerald Thomas especialmente para o ator, o solo é um intenso fluxo de consciência que atormenta um homem injustiçado.

26 de setembro de 2025 às 09:38 ▪ Atualizado há 2 meses


Marco Nanini entra em cena com monólogo “Traidor” no SESC Cajuína - Foto: Divulgação
Marco Nanini entra em cena com monólogo “Traidor” no SESC Cajuína - Foto: Divulgação

Temporada

Uma das montagens mais badaladas faz sua estreia em Teresina na noite de hoje, 26. “Traidor”, monólogo escrito especialmente por Gerald Thomas para Marco Nanini, circula pelas grandes casas de espetáculos do país desde 2023. A dupla dinâmica se reencontra depois de um longo intervalo de 16 anos. Dois artistas de vulto que agregam aquela inquietação crônica dos que revolvem os caminhos da interpretação. União potente e inspiradora.

Espetáculo estreou em 2023 com grande sucesso. Foto: divulgação

O ator

Com mais de 60 anos de atuação artística, o pernambucano de Recife, Marco Antônio Barroso Nanini tem uma carreira vigorosa não apenas no teatro, mas no audiovisual. Na telona ou na telinha, produzindo ou escrevendo, as muitas habilidades do artista acendem o brilho de uma trajetória admirável. O Brasil reconhece nele os personagens que marcaram nossas vidas. O chefe cangaceiro do “Auto da Compadecida”, Dom João VI ou Seu Lineu da Grande Família? São dezenas.

Marco Nanini, 77 anos, atua desde 1964. Foto: divulgação

O autor/diretor

Gerald Thomas Sievers, 71 anos, nascido na meca cosmopolita, New York, é cidadão do mundo. Sua prolífica carreira internacional mantém atividades no Brasil, EUA, Inglaterra e Alemanha. Foi discípulo e trabalhou com grandes mestres do teatro. Samuel Beckett está bom para você? Thomas dirigiu as grandes atrizes e atores brasileiros. Com Nanini encontrou o sucesso estrondoso. A montagem de “Um Circo de Rins e Fígados” (2005) foi vista por mais de 80 mil espectadores. 

Gerald Thomas, 71 anos, atua internacionalmente. Foto: divulgação

Solo

Preso numa ilha, um condenado inocente paga a injusta pena. Atormentado por memórias do passado, fantasmas, delírios, projeções do futuro, num fluxo contínuo de ideias, ideais e julgamentos de si e das coisas. Um acerto de contas entre a lucidez e a imaginação. Para os neurocientistas, nosso cérebro não diferencia muito a fantasia da realidade. O caldo mentalizante aborda temas diversos da contemporaneidade, com o toque ácido e questionador do autor.

Dilemas

Temas atualíssimos entram em cena, levantando as questões do mundo moderno. Como a crise democrática, o avanço da tecnologia e o fenômeno do cancelamento nas redes sociais. Reconhecido pela capacidade de dar densidade na composição de seus personagens, Nanini revela que a peça também é sobre o trabalho do ator. O que convida, quase obriga, os fazedores de teatro a comparecerem para a aula em cena aberta de dois grandes mestres da arte.

Imperdível

Nanini e Thomas acumulam prêmios relevantes em suas carreiras. Isso por si já seria o suficiente para nos motivar a assistí-los, mas tem um pouco mais de molho nesta magnífica mistura. Estamos diante de um produto de altíssima qualidade. Um bem cultural festejado no próprio meio, por quem tem respaldo para comentar e indicar. “Traidor” é a sensação do final de semana no SESC Cajuína. Hoje e amanhã, às 20h. No domingo, às 19h. Classificação 16 anos. Ingressos: i9 Tickets. Info: 86 99974 1937, Antoniel Ribeiro.   

Gal 80

Se eu estivesse em Salvador, Bahia, a noite seria na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. A soteropolitana Maria da Graça Penna Burgos Costa será festejada pela passagem, in memoriam, de seus 80 anos. A Orquestra Sinfônica da Bahia vai receber as atrizes que interpretam a artista no teatro e no cinema, Walerie Gondim e Sophie Charlotte, e um time de artistas para uma noite inesquecível. Os ingressos estão esgotados, mas haverá transmissão ao vivo pelo YouTube.

Erês

Hoje os terreiros das religiões de matrizes afro estão em festa. Com grande alegria, festeja-se os santos gêmeos, Cosme e Damião, que o sincretismo fechou com a energia dos erês, das crianças. Com a vibração da pureza que carrega a força da verdade e o escudo da inocência, os infantes têm passe livre nos congás. São os únicos que podem comer das comidas dos santos, que tem atrativos como a pipoca. A data também é celebrada amanhã.

Alegria

Independente de qualquer relação religiosa, temos que cuidar de nossa criança primordial. É nossa capacidade de aprender, a alegria em viver e ver a beleza da vida em sua simplicidade. Que tem a ver com a energia da criança que carregamos. Muitas vezes sufocada, oprime a capacidade criativa de dar soluções com o olhar simples e prático que a infância nos proporciona. Um adulto que não está em acordo com a sua criança primordial é uma pessoa mal-humorada. Sorria!

Oferenda de terreiro aos erês. Foto: Internet

Primeiro Mestre Indígena

“A Retomada Ancestral do Povo Tabajara Alongá da Comunidade Oiticica, em Pirirpiri (PI)” foi o título da dissertação de mestrado do Cacique Francisco Sávio Silva Santos, em Antropologia pela UFPI. A pós-graduação carrega o ineditismo da ponte firmada entre a academia e os povos tradicionais. A defesa aconteceu em oca da própria aldeia. O estudo autoetnográfico narra a resistência, a luta e a construção identitária do seu povo. Parabéns a todos!

Cacique Francisco, Mestre em Antropologia pela UFPI, com sua família. Foto: Internet