Ponto de Ruptura

Coluna assinada por Thiago Trindade, jornalista e publicitário há 14 anos. Provoca reflexões críticas sobre sociedade, política e negócios no Piauí e Brasil.
Ponto de Ruptura

Acidente

Caso Brenno levanta alerta: colisões com caminhões são o maior risco para ciclistas

Médico sofreu o tipo de acidente mais comum e letal entre ciclistas. Impacto com caminhão é a principal causa de mortes no esporte.

Por Redação

20 de julho de 2025 às 21:15 ▪ Atualizado há 2 meses


Médico Brenno Andrade sofre acidente grave durante pedalada em Teresina - Foto: Reprodução
Médico Brenno Andrade sofre acidente grave durante pedalada em Teresina - Foto: Reprodução

O acidente com o médico Brenno Andrade, internado em estado grave após ser atingido por um caminhão enquanto pedalava na zona leste de Teresina, expõe um tipo de colisão que ciclistas experientes conhecem bem: o impacto com veículos pesados. Essa é a principal causa de mortes no ciclismo urbano e a mais temida por quem treina em alta velocidade.

 

Médico Brenno Andrade sofre acidente grave durante pedalada em Teresina - Foto: Reprodução

A colisão ocorreu por volta das 6h da manhã, na Avenida Professor Arimatea Santos. Brenno usava uma bicicleta do tipo speed, projetada para performance em asfalto, e pedalava na lateral da via quando houve o choque. O resultado foi devastador: traumatismo cranioencefálico com hemorragia subaracnoide, lesão axonal difusa, hemotórax e pneumotórax. As lesões indicam compressão torácica severa, típica de acidentes com caminhões.

Apesar da gravidade, o caso segue um padrão conhecido no meio esportivo. Acidentes como esse, em que o ciclista atinge ou é atingido por um caminhão ou ônibus, representam cerca de um terço das mortes envolvendo bicicletas no Brasil. As vítimas geralmente estão dentro do chamado “ponto cego” do motorista  uma área de baixa visibilidade que, somada à ausência de ciclovias, transforma qualquer avenida em risco potencial.

A bicicleta usada por Brenno, com pneus estreitos e pouca aderência, exige alto nível de controle e atenção.

É uma bike veloz, mas muito instável em ruas com asfalto irregular ou com areia acumulada na borda

explica o corredor profissional Luis Paulo, que acompanha a rotina de atletas locais. 

“Qualquer desequilíbrio, mesmo pequeno, pode resultar em queda  e queda ao lado de um caminhão costuma ser fatal.”

Treino em Teresina

Durante os treinos, ciclistas de elite costumam atingir entre 35 e 60 km/h. Em Teresina, como em boa parte do país, é comum que atletas façam esse tipo de trajeto sozinhos, sem escolta, sem carro de apoio e sem rotas específicas. O próprio local do acidente, a Arimatea Santos, já é conhecido por outros registros de quase-acidentes envolvendo bikes e veículos pesados. Ainda assim, não há sinalização específica ou faixa de proteção.

A escolha do horário, entre 5h30 e 7h da manhã, é uma tentativa de fugir do trânsito pesado. Mas isso também tem seus riscos: menor visibilidade, menos testemunhas, mais vulnerabilidade. Quando há uma colisão grave, como a de Brenno, o tempo de resposta do socorro pode ser crucial.

Amigos do médico relatam que ele seguia todos os cuidados possíveis: equipamento correto, horários estratégicos, boa iluminação. Nada disso foi suficiente para evitar o pior.

Boletim 

Segundo boletim familiar divulgado neste domingo, ele apresentou redução importante no edema cerebral e pode começar a ser acordado nas próximas 48 horas, mas o quadro ainda inspira cautela.

Caso não é isolado

O acidente de Brenno não é um caso isolado. É uma evidência clara do que acontece quando ciclistas de alta performance são obrigados a dividir espaço com veículos de grande porte, em vias sem estrutura, sem segurança e sem prioridade para quem está mais exposto.

O Ponto de Ruptura 

O caso do médico Brenno Andrade levanta uma pergunta que Teresina já deveria ter respondido: o que está sendo feito, de forma concreta, para garantir segurança mínima aos ciclistas da cidade?

Ciclovias? Quase inexistem.  Sinalização? Não há.  Políticas de apoio a atletas de alta performance? Nenhuma.  Presença em plano de mobilidade urbana? Marginal.

O crescimento do ciclismo esportivo, amador e profissional em Teresina é visível. Médicos, servidores públicos, empresários, entregadores, estudantes: todos estão pedalando mais por saúde, economia ou escolha de vida. Mas a gestão pública continua tratando o ciclista como um invasor das ruas, e não como parte legítima do trânsito urbano.

É preciso parar de normalizar tragédias e começar a planejar. Estrutura para treinos. Ciclofaixas bem desenhadas. Sinalização em vias estratégicas. Apoio a grupos de ciclismo. Campanhas de conscientização. E principalmente: escuta ativa das comunidades esportivas.

O que aconteceu com Brenno pode acontecer amanhã com qualquer um que use a bicicleta em Teresina. E, neste momento, quem pedala está à própria sorte.

A cidade que quer se modernizar precisa começar com o básico: proteger quem escolhe viver de forma ativa. A omissão, neste caso, também machuca.