ENTREVISTA
Por Luiz Brandão
10 de junho de 2026 às 20:16 ▪ Atualizado há 7 horas
O renomado poeta maranhense Salgado Maranhão, uma das maiores vozes da literatura brasileira contemporânea e imortal da Academia Maranhense de Letras, esteve no portal Piauí Hoje nesta terça-feira (09/06). Ele concedeu entrevista ao podcast Simbora, apresentado pelo professor e ativista cultural Wellington Soares, mas antes conversou com o jornalista Luiz Brandão, diretor do portal.
Durante o bate-papo, Salgado Maranhão, que é doutor honoris causa por universidades do Piauí, e amigo declarado do estado, fez uma análise contundente sobre a psicologia social piauiense. Para o poeta, o sentimento de inferioridade enraizado na população não é natural, mas sim uma construção histórica imposta.
"Fizeram os piauienses acreditar que eram menores, que eram pobres e isso pegou", afirmou Salgado. Ele rebateu o negativismo ao exaltar as belezas locais: "O estado do Piauí é extremamente bonito e rico. As pessoas precisam descobrir, admirar e se orgulhar disso."
Uma luta contra o "pensamento negativo"
A fala do poeta ecoa a declaração recente do governador Rafael Fonteles, que identificou na "elite" local um dos grandes propulsores do pessimismo sobre o futuro do estado. No entanto, Salgado Maranhão amplia a crítica.
"Não é só da elite, porque a elite do Piauí nem vive muito aqui, está fora passeando, investindo em outros lugares. É o povo, a classe média. Eu diria que é de cima para baixo", detalhou o escritor, observando que a falta de autoestima afeta todos os estratos sociais.
Em contrapartida, Salgado destaca a resiliência da cultura local. Comparando Teresina a São Luís, seu elogio à culinária piauiense foi enfático: "O Piauí preservou a culinária local muito mais que o Maranhão. Qualquer padaria aqui você tem caldo de ovo ou de carne por oito, dez reais. Em São Luís cobram R$ 26 pelo mesmo caldo."
Literatura como ferramenta de resgate
Admirador do Piauí, Salgado transformou a crítica em ação. Preocupado com a baixa autoestima das crianças em relação à terra natal, ele desenvolveu um projeto literário específico para a rede de ensino local.
"Escrevi três livros com temas eminentemente piauienses para falar desses símbolos do Piauí e mostrar para essas crianças que elas vivem um tesouro", revelou o poeta.

"O Museu do Homem é mal vendido"
Apesar da riqueza natural e histórica, Salgado Maranhão critica a forma como o patrimônio piauiense é tratado. Para ele, a falta de divulgação agrava o problema da autoestima.
"O Piauí tem a Serra da Capivara e a origem do homem americano ali, e tem o Museu do Homem extremamente mal vendido. Ninguém sabe. Ninguém vende direito", desabafou o poeta, referindo-se ao potencial turístico e científico do Parque Nacional, que poderia ser uma fonte de orgulho muito maior para a população local.
Quem é Salgado Maranhão?
Nascido José Salgado Santos em Caxias (MA), em 1953, o poeta foi alfabetizado tardiamente, aos 15 anos, mas tornou-se um mestre da linguagem. A alfabetização não o impediu de se tornar uma referência literária. Ele é um dos poetas mais premiados do Brasil. Venceu o Prêmio Jabuti (1999) com o livro Mural de Ventos e o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras (2011) com A cor da palavra.
Salgado Maranhão tem carreira internacional. Seus poemas foram traduzidos para mais de 10 idiomas. Ele realizou turnês pelos Estados Unidos, apresentando seu trabalho em mais de 100 universidades americanas.
Maranhão também é da música. É parceiro de gigantes da MPB como Paulinho da Viola, Ivan Lins, Elba Ramalho e Ney Matogrosso, tendo suas letras gravadas por grandes nomes da música brasileira.
Por seu trabalho, Salgado Maranhão recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e foi eleito imortal da Academia Maranhense de Letras, onde ocupa a cadeira nº 7.
A conversa
Veja a seguir o vídeo com parte da conversa do poeta Salgado Maranhão com o jornalista Luiz Brandão no estúdio do portal Piauí Hoje.
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