Os cavalos-marinhos (Hippocampus spp.) possuem características peculiares como a fidelidade ao habitat onde vivem, a baixa mobilidade e fecundidade, além de serem monogâmicos. Aliadas a isso, a captura da espécie para a venda como peixes ornamentais e a degradação do habitat têm tornado os cavalos-marinhos vulneráveis à extinção. O pesquisador Roberto Schwarz Junior é responsável por um projeto de monitoramento, marcação e conservação da espécie no Estuário do Rio Vaza Barris, em Sergipe.
O objetivo da pesquisa é propor medidas de conservação às populações de cavalos-marinhos e aos locais onde vivem, geralmente manguezais. Segundo Schwarz, já foi detectado que a quantidade de indivíduos no estuário não era tão grande quanto se imaginava, por conta da degradação do ecossistema. “São ambientes nos quais existe uma série de conflitos de uso e nosso medo é que as populações de cavalos-marinhos residentes nesses locais venham a sofrer ainda mais, por isso queremos propor medidas de conservação para a espécie”, destaca.
Durante o projeto, que teve início em agosto de 2013 e é apoiado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, já foram capturados cerca de 300 indivíduos, sendo que 62 deles foram marcados por uma injeção de corante que permite o monitoramento pelos pesquisadores. Depois da marcação os animais são soltos. A técnica utilizada é a aplicação de elastômero, um corante biocompatível e que não causa nenhuma lesão ao animal. Ele é aplicado nos tecidos translúcidos da cauda do peixe. A combinação de cores e locais de aplicação gera um código individual para cada peixe observado.
Ana Franco, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Sergipe (UFS), que também participa do projeto, explica que a equipe possui o registro de cada indivíduo na ficha de campo, que além de diversos dados, como sexo, coloração, tamanho, largura, entre outros, tem o código e a coordenada geográfica de onde o animal foi encontrado. “Vamos para campo com uma lista das marcações já feitas, o que facilita quando encontramos um espécime já marcado”, explica. Esse monitoramento é realizado a cada 15 dias, quando os pesquisadores retornam aos mesmos pontos para novas capturas. “A partir disso conseguimos fazer um acompanhamento mais avançado deles e aprender sobre suas relações entre si e com o ambiente natural”, explica Roberto Schwarz.
Em paralelo ao trabalho em campo, dez espécimes estão sendo acompanhados no laboratório de pesquisa do Departamento de Engenharia de Pesca e Aquicultura da UFS. “O objetivo é acompanhar os hábitos alimentares e o comportamento reprodutivo desses exemplares”, ressalta Ana. Os dez indivíduos mantidos em cativeiro foram coletados no estuário Vaza Barris em novembro de 2013 e devem ser acompanhados até 2015, quando o projeto será finalizado. A Sociedade de Estudos Múltiplos, Ecológica e de Artes (Semear) é a instituição responsável pelo projeto.
Sobre a espécie
Pertencentes à família Syngnathidae, os cavalos-marinhos possuem cabeça alongada e podem mudar de cor, como os camaleões. Diferente de outros peixes, eles nadam com o corpo na vertical, movimentando suas nadadeiras intensamente. Medem, em média, 15 centímetros e pesam entre 50 e 100 gramas, sendo que algumas espécies podem ser confundidas com plantas marinhas e corais. Os cavalos-marinhos alimentam-se basicamente de zooplâncton, em especial de pequenos crustáceos, por isso são fundamentais para a manutenção dos sistemas onde vivem. Ao contrário de outros vertebrados, quem engravida é o macho, sendo que a fêmea deposita os ovócitos no interior de uma bolsa incubatória no macho, que os mantém até o momento do nascimento.
Eles se distribuem pelos oceanos Atlântico, Pacífico, Índico e Mediterrâneo. No Brasil, duas espécies estão presentes ao longo de toda a costa: o Hippocampus reidi e o Hippocampus erectus. A primeira espécie consta como ‘deficiente em dados’ pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), o que dificulta ações de conservação e o estabelecimento de políticas públicas para sua proteção. Já a segunda, está na Lista Vermelha de Espécies Ameaças de Extinção da instituição como ‘vulnerável’.
Fonte: fundação boticário