Brasil

Piauiense tenta chegar na África numa bicicleta

Piauí Hoje

Teresinha

08 de março de 2009 às 04:03


O ex-boia-fria Renato Campinho, 37 anos, é daqueles que não pensa no futuro. Para ele, o presente é o que importa. Com R$ 200 no bolso, uma barra de rapadura e algumas peças de roupas (mais precisamente dois shorts e duas camisetas), ele pretende ir pedalando até a África. Isso mesmo, a África. No primeiro instante é difícil acreditar que alguém sem recursos conclua uma travessia tão grande. Mas quando ele mostra as fotos da viagem que fez sobre uma bicicleta do Piauí, sua terra natal, aos Estados Unidos, em 2007, ninguém duvida mais desse aventureiro. A viagem à terra do Tio Sam demorou um ano e seis meses.Desta vez, ele pretende fazer o percurso também em um ano e seis meses. Campinho sai hoje, às 5h, de algum lugar da capital federal, aonde passou a noite. Algum, porque até o encerramento da entrevista, ele não sabia onde iria dormir, nem tem celular para confirmar o local do seu repouso. "Vou procurar uma pensão em algum lugar. Se não me derem abrigo eu armo uma rede próximo a um posto policial e passo a noite. Isso é o de menos", desdenha o aventureiro.O roteiro já está traçado. Ele sai de Brasília, entra em Goiás, atravessa Palmas (TO), Belém (PA), Macapá e pedala até o Oiapoque, no Amapá. Ufa! Finalmente vence o território brasileiro. Mas a aventura está longe do fim. Do Oiapoque, Campinho atravessa 600 quilômetros de barco até chegar à capital da Guiana Francesa, Caiena. De lá, ele toma um voo para Paris, onde participa do Tour de France, tradicional prova de ciclismo francesa, depois segue por toda a costa europeia, vai para o Marrocos, vence a Costa da África, passa por Serra Leoa, Guiné-Bissau e, finalmente, estaciona sua bike na Cidade do Cabo, em junho de 2010, onde assiste à Copa do Mundo de Ciclismo. "Sempre tive vontade de conhecer o mundo assim, pedalando na natureza, vendo árvores, mar, flores e outras coisas belas", derrete-se.SolidariedadeAgora, o leitor deve estar se perguntando: "Como ele fará para comer, dormir, comprar passagem de avião, trocar peças da bicicleta - que naturalmente sofrerão desgaste durante a viagem -, roupas, tênis e outras coisas essenciais para dar a volta ao mundo em cima de um "camelo"?" Como dito no início da matéria, Renato Campinho não pensa no futuro. Por incrível que pareça, o que ele menos teme é a questão financeira. "Se eu for esperar patrocínio, não vou a lugar algum. Eu vou pedindo ajuda no caminho. Foi assim quando eu fui aos Estados Unidos. Em todos os lugares alguém gostava da minha história e me dava comida, dinheiro, roupa, tênis e até lugar para dormir. Quanto a isso estou muito tranqüilo", comenta. Fora do País, a comunicação é feita por mímica mesmo. "Aponto, gesticulo, mostro reportagens e, principalmente, a bandeira do Brasil", explica.E se a grana é curta, nada de roupa especial de ciclista. Pedalar para ele é um prazer. De calça jeans, bermuda, chinelo ou descalço. Não importa o traje ou calçado, o que ele quer mesmo é desbravar o planeta. Sua segurança, garante, vem dos céus. "Deus me protege. Em tantos anos pedalando nunca sofri um acidente grave".Solteiro, morador de São Raimundo Nonato (PI), sem filhos, Renato Campinho talvez não ligue para as adversidades da viagem porque um desafio maior já foi vencido. Buscando uma vida melhor, mudou-se para São Paulo em 1999. Como não conseguiu emprego no grande centro, começou a cortar cana em Ribeirão Preto (SP). Foi lá, no meio do canavial, que ele ouviu falar a primeira vez de uma tal Corrida de São Silvestre.PromessaNo mesmo ano, acompanhou pela TV de um bar a competição mais charmosa do Brasil. Apaixonou-se. Colocou na cabeça que ia ser corredor, igual aos famosos quenianos que ele tanto admirava. Começou a treinar - mesmo depois de um dia inteiro cortando cana - de bota, a mesma usada no trabalho braçal, pois não tinha tênis.Em 2000, inscreveu-se na Corrida de São Silvestre. Após tanto treino debaixo de sol e chuva, seria impossível perder, pensava ele. A confiança era tanta que fez uma promessa: caso não vencesse a competição voltaria para São Raimundo Nonato correndo. Ele não venceu, chegou bem atrás, mas cumpriu a promessa e correu 3,6 mil quilômetros em três meses e 20 dias. O ex-boia-fria ficou famoso na sua terra natal. Apareceu na imprensa e teve recepção de ídolo ao regressar. "Foi muito bom. Quando cheguei, a cidade toda estava me esperando com faixas. Tinha televisão, jornal e tudo quanto é programa de rádio. A prefeitura prometeu me dar emprego, patrocínio, casa, mas ficou só na conversa mesmo e continuei correndo. Hoje, eu me dedico apenas à bicicleta, mas ainda sou apaixonado por maratona", frisa.O combustível para tanta disposição vem da rapadura. Na pequena bagagem que carrega na garupa, a iguaria é o único alimento que não pode faltar. "Quando eu fui aos Estados Unidos, atravessei a Lan Gran Sabana (região montanhosa da Venezuela) só com água e rapadura. Foram quase dois dias assim", conta.Muitos chamam Campinho de louco. Ele não se importa, e responde assim às ironias: "Louco é quem passa o dia dentro de um escritório, sem tempo para apreciar a natureza, respirar ar puro, praticar esporte. Eu estou conhecendo o mundo, cada pedacinho dele. Não preciso de mais nada", reflete.

Fonte: saoraimundo.com



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