Brasil

Dia-a-dia da judoca será exibido no Esporte Espetacular do próximo dom

Piauí Hoje

Teresinha

22 de janeiro de 2010 às 03:01


Sarah Menezes está cansada. Sozinha, sentada em uma espécie de palco no Sesc de Ilhotas, onde treina, em Teresina, aos poucos ela se entrega ao sono. Põe as mãos sobre o joelho direito, coberto pela calça do quimono e às vezes dolorido devido à lesão sofrida em dezembro, no Japão. Pouco depois, a piauiense de 19 anos encosta a cabeça e cochila por alguns segundos. É acordada pela brincadeira de um colega, mas não dá muita atenção. Em seguida, a melhor atleta brasileira de 2009 volta a dormir.Os dias de Sarah são longos. Este, porém, parece ter pesado ainda mais. Na noite anterior, tinha ido dormir às 2h da manhã, depois de fazer as lições do curso de inglês e de se perder na conversa com a irmã mais velha, Sâmia, que passa as férias na cidade. A judoca acorda sempre às 6h30m. Sonolenta, toma um café rápido e vai de ônibus até a sessão de fisioterapia. Gosta de chegar cedo:- Tem muito idoso que vai para lá cedo. Então é bom chegar o quanto antes. Se não, não dá tempo de fazer todo o resto.Sarah passa por tratamento para leve lesão no joelhoNa clínica, Sarah faz tratamento de microchoques e calor, em sessões que duram pouco mais de uma hora. "Tô pior do que velhinha", costuma dizer. Deitada e sozinha, ela geralmente aproveita o momento para cochilar mais um pouco. Na saída, com a recepção cheia, é alvo de olhares admirados e sussurros tímidos. "É a Sarah Menezes, não é?", pergunta uma senhora.- O pessoal daqui é muito tímido. Geralmente, olham, apontam, mas é difícil alguém chegar e cumprimentar, pedir autógrafo, fotos. As crianças são mais soltas, mas não é sempre. Às vezes, quando eu percebo, até confirmo que sou eu mesmo - diz Sarah, achando graça.Desde que foi a Pequim, em 2008, a judoca virou uma espécie de celebridade local. É capa de jornais e revistas, causa furor por onde passa. Depois do Prêmio Brasil Olímpico, quando foi eleita a melhor atleta do ano no país, muito por conta do bi mundial júnior, os holofotes aumentaram ainda mais. O número de entrevistas - agora para todo o Brasil, ela ressalta - também cresceu. Para Sarah, a premiação trouxe um reconhecimento inédito em todo o país.Mas nem tudo é festa. As declarações de Poliana Okimoto e Cesar Cielo após o prêmio, criticando o formato de votação, soaram esnobes para Sarah. Um desmerecimento a suas conquistas durante o ano. A mágoa é perceptível também nas palavras de seu técnico, Expedito Falcão, mas a judoca prefere não criar polêmica.- Não gosto disso - afirma, abaixando a cabeça.A atleta durante treino em TeresinaO dia da piauiense continua na academia. Lá, cumpre um trabalho específico com o personal trainer Paulo Miranda há quase dois anos. Faz musculação, exercícios aeróbicos e ainda usa o quimono para ajudar em algumas atividades, em uma forma de estreitar a preparação com as competições. No fim, Sarah se arruma e espera pela carona de Expedito. Juntos, os dois seguem para um dos shoppings de Teresina, onde fazem curso de inglês.Técnico e judoca estudam em uma classe separada, sem outros alunos. "Por terem começado agora, eles ficam inibidos", explicou a recepcionista. As aulas, que acontecem diariamente, começaram há menos de um mês. Apesar disso, o professor da dupla, Alfredo Soares, garante que a evolução é nítida. No primeiro dia, ele diz que o nervosismo tomou conta. "Não tinha como pedir para que a Sarah se apresentasse. Todo mundo aqui conhece a Sarah!".A partir deste ano, ela dará palestras para incentivar jovens do PiauíA aula acaba, e a diretora da unidade pede que Sarah tire algumas fotos. A marca é uma das que apoiam a carreira da judoca, que não paga nada pelo curso. Apoios, aliás, não faltam. Sem patrocínio financeiro, a não ser o Bolsa Atleta do governo, são eles que permitem que a atleta tenha uma estrutura por trás dos treinos. No total, ela conta com nove auxílios, inclusive psicóloga, academia e faculdade, onde cursa Educação Física. Por causa de toda essa estrutura voltada só para ela, recusa toda proposta de mudar de estado, onde dividiria as atenções com outros.Sarah posa para fotos ao lado de fãs Andando pelo shopping, mais olhares e alguns acenos. Durante o almoço, ela relê os tópicos da palestra que dará pela primeira vez na Universidade Aberta do Piauí. A ideia é promover uma série de cursos a distância para gente que, assim como ela, não tem como estar em todas as aulas. A apresentação é recheada de histórias e fatos que aconteceram com a judoca nas competições. Tímida no princípio, ela vence a inibição e arranca risadas da plateia, formada em maioria por professores da universidade e jornalistas. Inspirada em livros de autoajuda, como o do técnico de vôlei Bernardinho, Sarah tenta mostrar que é possível vencer, mesmo sem a estrutura de uma grande cidade por trás. O orgulho de ser piauiense é lembrado a todo instante e estampado na bandeira que carrega quase sempre.A judoca é apaixonada pela comida local- Não temos por que ter vergonha do nosso estado. Apesar da distância dos grandes centros, não devemos nada a ninguém. Temos de levantar a cabeça e ir em frente - ensina a judoca, que já foi a mais de 17 países, mas não troca o Piauí por nada.Durante a palestra, no entanto, o traço mais nítido é a sintonia entre Sarah Expedito. Com o respeito que lembra um relacionamento de pai e filha, e um carinho mútuo típico de melhores amigos, os dois mexem um com o outro, se divertem e se corrigem. Falante, Expedito sempre tem algo a dizer. "Mais alguma coisa?", pergunta a atleta, em tom de brincadeira.Sarah fala de Expedito como se fosse um ídolo. Os dois se conheceram quando ela tinha apenas 9 anos e pesava espantosos 22kg (hoje são 48kg, distribuídos em 1,55m). Incentivada por um amigo de escola e cansada de jogar futebol e handebol, foi fazer judô escondida da família. O antigo professor deixou a academia, e Expedito herdou os alunos. Em pouco tempo, a menina passou a frequentar a casa do técnico e a brincar com seus filhos pequenos no tatame que tem no quintal.A judoca diz que a relação com o técnico foi fundamental para que deixasse de ser a menina sapeca que vivia na rua e subia em árvores e muros. Hoje, garante, é disciplinada e mais contida. Juntos no treino, os dois se entendem em poucos gestos. Expedito faz com que Sarah treine em duas classes, uma com judocas mais jovens e outra com gente da sua idade.Expedito brinca com as habilidades de Sarah no volante Mesmo no primeiro horário, ela se perde entre crianças cinco anos mais novas e com a mesma estrutura física. É no respeito que os outros demonstram, porém, que Sarah se impõe. Orgulhosos de participar da preparação daquela que é a sua maior e mais próxima referência no esporte, os jovens trazem para si uma parte dos méritos das conquistas.- Eu melhoro muito. Treino de igual para igual sempre. Se ela é campeã mundial hoje, é por causa da gente também - acredita Rodrigo Lopes, de 14 anos.Sarah diz não gostar muito de sair. Ao contrário das outras meninas de 19 anos, prefere ficar em casa, no bairro onde mora com os pais, Olindina Cabral, a Dina, e José Rogério, e dois irmãos, além de uma amiga que ajuda nas tarefas. No momento, no entanto, está em uma casa alugada, enquanto a sua passa por obras. Foi ela, aliás, quem escolheu os pisos e a pintura, além de ter bancado a reforma, para orgulho do pai. O próximo passo é morar sozinha. Com a ajuda de Expedito, que conseguiu um bom desconto, já comprou uma casa na cidade, em um condomínio em construção.A judoca usa quimono para ajudar na preparaçãoNos momentos livres, gosta de ouvir música (Legião Urbana, Cássia Eller e Vanessa da Mata, entre outros) e ir ao cinema (o último filme que viu foi "Ai, que vida!", comédia feita por universitários do Piauí e que fez sucesso no estado). Nas viagens, prefere ficar no quarto de hotel, dispensando os convites dos outros judocas para sair. Sua melhor companheira nas competições é Danielle Yuri, que não conseguiu índice para a seleção de 2010. Lembra da visita ao parque de diversões em Tóquio. Relembrou seus tempos de criança sapeca e rodou praticamente por todos os brinquedos. Seu preferido foi a montanha russa, onde andou sete vezes.- Por isso tem tanto suicida por lá. Só brinquedo louco! - brinca.A maior paixão, no entanto, é a comida. Carne de sol, carneirinho e arroz de capote estão entre seus pratos preferidos. Adora suco de acerola, jaca e graviola. E doce, muito doce. "Sou magra de ruim", ela diz.Cansada, Sarah desiste do último treino do dia. Expedito não reclama, diz entender a pupila. Na hora de ir embora, porém, ela diz que a fome ainda é maior que o cansaço. Insiste muito e convence o treinador a fechar a noite em sua pizzaria favorita. Pede uma de frango e outra de carne de sol, mas só come um pedaço da primeira. Não aguenta mais. O sono agora venceu. O xodó do Piauí pede licença e vai dormir no carro. No dia seguinte, começaria tudo de novo.

Fonte: Globo.com



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