Deputado federal Francisco Everardo Oliveira Silva (PR-SP), o Tiririca
O eleitor que votou em um candidato a deputado federal que não se elegeu em 2014 pode não saber, mas ajudou a eleger parlamentares que votaram o impeachment na Câmara. E é possível que, em alguns casos, ele só tenha tomado conhecimento da existência desse congressista no último domingo (17). Dos 511 deputados que participaram da votação histórica, apenas 34 (veja a lista abaixo) tiveram votos suficientes para se elegerem sozinhos. Destes, 27 votaram a favor da abertura do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff; os outros sete votaram contra. Além desse grupo, outros dois deputados que não estavam na Câmara no domingo também se elegeram com a própria votação: Clarissa Garotinho (PR-RJ), que está em licença-maternidade, e Felipe Carreras (PSB-PE), que se licenciou do mandato para comandar uma secretaria estadual.
Os outros 477 votantes não tiveram voto suficiente para conquistar o mandato. Valeram-se da soma dos votos recebidos pelo partido ou por outros candidatos de suas legendas ou coligações, eleitos ou não. Esses parlamentares não alcançaram por conta própria o chamado quociente eleitoral, que é a quantidade necessária de votos para a eleição de um deputado em seu estado (ao fim da matéria, a lista por unidade federativa). A maioria deles chegou à Câmara de carona na montanha de votos recebidos por colegas de partido ou chapa. No Distrito Federal e em outras 11 unidades federativas, ninguém foi eleito apenas com a própria votação.
O quociente é definido pela divisão do número de votos válidos pela quantidade de vagas que cabe a cada estado. Vejamos o caso de São Paulo: os 20,99 milhões de votos válidos dados a candidatos à Câmara no estado divididos entre as 70 cadeiras da bancada resultou no quociente eleitoral de 299,9 mil votos. Ou seja, quem alcançou dessa marca em diante conseguiu se eleger sozinho. E, quem teve votos de sobra, ainda levou para Brasília outros parlamentares com votação modesta.
Russomanno e Tiririca
Dono da segunda maior votação da história da Câmara, com 1,5 milhão de votos em 2014, Celso Russomanno (PRB-SP) elegeu outros quatro deputados de seu partido: o cantor sertanejo Sérgio Reis, que recebeu 45.330 votos, o hoje primeiro-secretário da Casa, Beto Mansur, com 31.305, Marcelo Squassoni, com 30.315, e Fausto Pinato, com 22.097 votos. Primeiro relator do processo contra Eduardo Cunha no Conselho de Ética, Pinato trocou recentemente o PRB pelo PP.
Tiririca (PR-SP), o segundo mais votado da atual legislatura, com mais de 1 milhão de votos, garantiu a eleição de mais dois candidatos do PR: Capitão Augusto (PR), com 46.905 votos, e Miguel Lombardi (PR), com 32.080. Capitão Augusto é o único parlamentar que circula pela Câmara fardado e com condecorações militares no peito. No caso de Tiririca e Russomanno, as sobras foram rateadas entre companheiros de partido. Mas nem sempre é assim. Em diversos casos o beneficiado é de outra legenda, que faz parte da mesma coligação. Ou seja, o eleitor pode votar em um candidato de determinada sigla e ajudar a eleger
Partidos e estados
De acordo com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), os estados em que mais candidatos conseguiram alcançar o quociente eleitoral em 2014 foram São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, com cinco cada. Quatro pernambucanos também obtiveram sucesso apenas com os próprios votos. Na Paraíba e no Ceará, foram três. Em Goiás e em Santa Catarina, dois. Amazonas, Bahia, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Sergipe e Roraima tiveram apenas um deputado entre os que atingiram a marca. Nas demais unidades federativas, ninguém alcançou por conta própria o quociente eleitoral.
Na última eleição, ainda segundo o Diap, os partidos que mais tiveram parlamentares eleitos com os próprios votos foram: PSDB (6), PT (5), PMDB e PP (4 cada), DEM (3), PR, PSB e PSD (2), PRB, PSC, Psol, PTB, PTN e SD (1 cada). Em 2010, 36 deputados se elegeram sem a necessidade de contar com os votos da legenda ou coligação; em 2006, foram 32; e em 2002, 33.
Veja quem se elegeu ou reelegeu com os próprios votos (pelo partido em que estava em 2014):
Deputado Partido UF Votação Impeachment Arthur Bisneto PSDB AM 250.896 Sim Lucio Vieira Lima PMDB BA 222.164 Sim Genecias Noronha SD CE 221.567 Sim José Guimarães PT CE 209.032 Não Moroni Torgan DEM CE 277.774 Sim Daniel Vilela PMDB GO 179.214 Sim Delegado Waldir PSDB GO 274.625 Sim Gabriel Guimarães PT MG 200.014 Não Odair Cunha PT MG 201.782 Não Misael Varella DEM MG 258.393 Sim Rodrigo de Castro PSDB MG 292.848 Sim Reginaldo Lopes PT MG 310.226 Não Zeca do PT PT MS 160.556 Não Delegado Eder Mauro PSD PA 265.983 Sim Pedro Cunha Lima PSDB PB 179.886 Sim Veneziano PMDB PB 177.680 Sim Aguinaldo Ribeiro PP PB 161.999 Sim Eduardo da Fonte PP PE 283.567 Sim Pastor Eurico PSB PE 233.762 Sim Jarbas Vasconcelos PMDB PE 227.470 Sim Christiane Yared PTN PR 200.144 Sim Jair Bolsonaro PP RJ 464.572 Sim Eduardo Cunha PMDB RJ 232.708 Sim Chico Alencar PSol RJ 195.964 Não Leonardo Picciani PMDB RJ 180.741 Não Shéridan PSDB RR 35.555 Sim Esperidião Amim PP SC 229.668 Sim João Rodrigues PSD SC 221.409 Sim Adelson Barreto PTB SE 131.236 Sim Celso Russomano PRB SP 1.524.361 Sim Tiririca PR SP 1.016.796 Sim Pastor Marco Feliciano PSC SP 398.087 Sim Bruno Covas PSDB SP 352.708 Sim Rodrigo Garcia DEM SP 336.151 Sim Clarissa Garotinho (PR-RJ) e Felipe Carreras (PSB-PE) também superaram o quociente eleitoral. Os dois estão licenciados do mandato.