QUEBRADEIRAS DE COCO
Teresinha Ferreira
19 de julho de 2026 às 09:01 ▪ Atualizado há 10 horas
É no Meio-Norte do Piauí, principalmente no Território dos Cocais, que se encontra a maior presença de babaçuais e de comunidades de quebradeiras de coco do estado. Municípios como Esperantina, São João do Arraial, Morro do Chapéu do Piauí, Campo Largo do Piauí, Luzilândia, Matias Olímpio, Miguel Alves, Barras e Porto concentram comunidades que mantêm viva uma atividade transmitida entre gerações.
Não existe, entretanto, um censo estadual recente capaz de apontar com precisão quantas quebradeiras trabalham atualmente em cada município. Uma pesquisa divulgada em 2021 pela Associação de Quebradeiras de Coco do Piauí estimou que aproximadamente 50 mil famílias dependiam do manejo do babaçu no Território dos Cocais.
Apesar da falta de estatísticas atualizadas, estudos acadêmicos e levantamentos de organizações sociais confirmam que os babaçuais piauienses estão concentrados principalmente no Território dos Cocais. A região reúne condições naturais favoráveis à palmeira e comunidades que há décadas retiram dela alimento, renda e matéria-prima.
Esperantina é referência da organização
Esperantina tornou-se uma das principais referências da organização das quebradeiras no Piauí. O município abriga comunidades tradicionais, associações produtivas e parte importante da articulação regional do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB).
Na comunidade Santa Rosa, famílias conseguiram a titulação coletiva do território tradicionalmente ocupado. A regularização representou uma conquista histórica para mulheres que lutavam pelo direito de permanecer na área e utilizar os babaçuais. O título coletivo oferece maior segurança jurídica e dificulta a venda individual ou a apropriação das terras por terceiros. Também pode facilitar o acesso das famílias a políticas públicas, projetos produtivos e programas de assistência técnica.
A conquista de Santa Rosa, porém, não representa a realidade de todas as comunidades. Em diferentes pontos do Território dos Cocais, quebradeiras ainda enfrentam conflitos relacionados à propriedade da terra, cercamento de áreas e restrições à coleta do coco.
Do babaçu sai quase tudo
O aproveitamento da palmeira vai muito além da retirada da amêndoa. As quebradeiras utilizam diferentes partes do babaçu para produzir alimentos, combustível, utensílios e produtos comercializáveis. Da amêndoa são feitos azeite, óleo, leite, sabão e cosméticos. A casca pode ser transformada em carvão. O mesocarpo é utilizado na produção de farinha, bolos, biscoitos e outros alimentos. As folhas servem para cobertura de casas, cestos, esteiras e artesanato.
Durante muitos anos, as mulheres vendiam principalmente a amêndoa sem beneficiamento. Essa forma de comercialização gerava pouco rendimento e aumentava a dependência de atravessadores, que compravam o produto diretamente nas comunidades. A criação de associações, cooperativas e unidades de beneficiamento começou a mudar essa realidade. Atualmente, alguns grupos comercializam azeite, sabonetes, farinha, biscoitos, peças artesanais e outros derivados com maior valor agregado.
Investimento de R$ 250 mil em Palmeiras
Entre as iniciativas recentes está um projeto do Instituto Babaçu, localizado no município de Palmeiras, no Piauí. O grupo, formado por mulheres que atuam no extrativismo e na agricultura familiar, foi contemplado com R$ 250 mil. A confirmação da aprovação ocorreu em 2025, após a participação do grupo em um edital lançado em 2023. A iniciativa foi divulgada pela Secretaria da Agricultura Familiar do Piauí em 23 de fevereiro de 2026.
Os recursos são destinados à aquisição de prensa, moinho, embalagens e outros equipamentos necessários ao beneficiamento do coco. A estrutura permite aumentar a produção e melhorar a qualidade dos produtos comercializados. A mecanização de algumas etapas não elimina o saber tradicional das quebradeiras. Ela reduz parte do esforço físico, aumenta o aproveitamento da matéria-prima e possibilita que os grupos cheguem ao mercado com produtos mais elaborados.
Uma rotina de esforço físico
Mesmo com os avanços, a quebra do coco continua sendo uma atividade pesada. Em grande parte das comunidades, as mulheres trabalham com um machado apoiado no chão e um pedaço de madeira utilizado para golpear o fruto. Antes disso, precisam percorrer os babaçuais, recolher os cocos e transportar a produção. A jornada pode causar dores nas costas, braços, pernas e mãos, além do risco de cortes e outros acidentes.
A remuneração nem sempre corresponde ao esforço. Quando não há cooperativa, transporte ou equipamentos para beneficiar o produto, as quebradeiras ficam mais dependentes dos preços oferecidos pelos intermediários. A distância entre as comunidades e os centros consumidores também aumenta os custos. Muitas associações têm dificuldade para adquirir embalagens, cumprir exigências sanitárias, divulgar os produtos e manter uma produção regular.
Babaçu Livre ainda é desafio
Uma das principais reivindicações das quebradeiras piauienses é a implementação efetiva da legislação conhecida como Babaçu Livre. A proposta é garantir a preservação das palmeiras e o acesso das trabalhadoras aos frutos, inclusive em áreas privadas tradicionalmente utilizadas pelas comunidades. O coco é recolhido depois de cair naturalmente, sem a necessidade de derrubar a palmeira.
Na prática, algumas mulheres ainda encontram cercas, cadeados e proibições. A expansão da pecuária, a derrubada dos babaçuais e a transformação das áreas em lavouras também reduzem os locais disponíveis para coleta.
Luta organizada atravessa décadas
A organização das quebradeiras ganhou força na segunda metade da década de 1980, em meio a conflitos pelo acesso às terras e pela preservação das palmeiras. A partir de 1990, mulheres do Piauí, Maranhão, Pará e Tocantins passaram a se reunir de forma interestadual. A mobilização deu origem ao MIQCB, que atualmente representa as quebradeiras em debates sobre território, produção, violência no campo e preservação ambiental.
No Piauí, a articulação transformou trabalhadoras antes invisibilizadas em lideranças comunitárias e interlocutoras do poder público. As mulheres passaram a participar de reuniões com órgãos estaduais e federais, apresentar reivindicações e acompanhar processos de regularização fundiária.
Reconhecimento nacional em 2026
No dia 10 de junho de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 15.431. A norma foi publicada no Diário Oficial da União em 11 de junho e reconheceu o ofício das quebradeiras de coco-babaçu como manifestação da cultura nacional.
A legislação alcança as trabalhadoras do Piauí, Maranhão, Pará e Tocantins. O reconhecimento valoriza os conhecimentos envolvidos na coleta, quebra e beneficiamento do coco, além da contribuição das comunidades para a preservação dos babaçuais.
A lei, entretanto, não assegura automaticamente terra, renda ou acesso às palmeiras. Para as organizações da categoria, o reconhecimento cultural precisa ser acompanhado por regularização fundiária, crédito, assistência técnica, proteção ambiental e condições seguras de trabalho.
Tradição busca espaço entre os jovens
Outro desafio é manter a atividade entre as novas gerações. Muitos jovens deixam as comunidades em busca de estudo e emprego nas cidades. O trabalho pesado e a renda instável reduzem o interesse pela quebra tradicional. Ao mesmo tempo, jovens das próprias comunidades começam a trabalhar com comercialização digital, comunicação, design de embalagens, agroecologia e desenvolvimento de novos produtos.
Essa combinação permite preservar o conhecimento das mulheres mais velhas e, ao mesmo tempo, modernizar a cadeia produtiva. O futuro da atividade dependerá da capacidade de transformar o babaçu em fonte de renda digna, sem afastar as comunidades de seus territórios.
No Piauí, as quebradeiras não preservam apenas uma atividade econômica. Elas protegem uma parte da identidade do Território dos Cocais e uma relação histórica entre as comunidades e a floresta.
Fonte: MIQCB/SAF/ Lei nº 15.431/2026/Estudo sobre as quebradeiras do Piauí.
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