Os medicamentos devem chegar mais caros aos balcões das drogarias a partir do próximo dia 31. Para 2010, segundo representantes do mercado do Distrito Federal, a previsão é de que o índice de reajuste fique em 4,5%, abaixo da inflação acumulada nos últimos 12 meses, que ficou em 4,83%, com base no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O valor poderá ser aplicado aos cerca de 20 mil produtos com preços controlados pelo governo - estão excluídos da lista apenas fitoterápicos e homeopáticos -, mas geralmente os empresários optam por não aplicá-lo de forma linear sobre todo o estoque. Este é o mês em que a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (Cmed), órgão interministerial ligado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), autoriza o reajuste sobre os remédios.O índice máximo anual de reajuste autorizado pela Cmed é calculado com o uso de uma fórmula matemática composta de diversas variáveis, entre elas a inflação entre fevereiro último e março do ano passado, medida pelo IPCA. "O valor autorizado pela Cmed é um teto de reajuste. Não pode ser ultrapassado. Mas cada loja administra esse reajuste da maneira que achar melhor", explica Felipe de Faria, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Produtos Farmacêuticos do Distrito Federal (Sincofarma-DF). De acordo com ele, as drogarias podem optar por concentrar o aumento sobre alguns itens e trabalhar com descontos em outros, por exemplo.ConcorrênciaO sócio-diretor do Grupo Rosário Distrital, Álvaro Silveira Júnior, tem o mesmo entendimento do presidente do Sincofarma. Ele diz que o aumento de 4,5% será uma média. Alguns produtos poderão subir um pouco mais e outros não sofrerão reajuste. Para ele , a alta dos preços deve atingir de 8 mil a 10 mil medicamentos das prateleiras. Na avaliação do executivo do grupo, que tem 75 farmácias no DF, o mercado de medicamentos em Brasília e região já possui margem de manobra para tornar os preços competitivos apesar do reajuste."A concorrência está muito grande, o mercado está muito dinâmico. As maiores redes do país já estão em Brasília. É capaz de, em alguns casos, o reajuste nem ser repassado ao consumidor", comenta Júnior.1 - Composição de preçoAlém do IPCA, a Cmed leva em consideração fatores como custos e produtividade dos laboratórios para determinar o aumento. Este ano, a fórmula para chegar a um índice de reajuste foi publicada na edição de 24 de janeiro sob a forma de resolução do órgão, que é composto por representantes do Ministério da Saúde, da Justiça, da Fazenda e da Casa Civil.Em outubro do ano passado, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), ligado ao Ministério da Justiça, condenou a Rede da Economia do DF - atual Drogaria Família - pela prática criminosa de combinação de preços. A multa aplicada foi equivalente a cerca de R$ 60 mil. O processo começou em 1997, quando o Ministério Público Federal (MPF) provocou o Cade sobre o assunto.O coronel reformado do Exército Nominato José Teixeira, 75 anos, gasta todo mês cerca de R$ 200 com medicamentos para cuidar do diabetes e do glaucoma. Ao saber do aumento, ele se revoltou: "Isso é mafioso. Sabemos que eles sobem os preços ao mesmo tempo, é tudo combinado". Para Teixeira, as farmácias praticam um cartel em Brasília. "O problema é que não temos a quem recorrer", disse.O aumento previsto vai pesar no bolso da aposentada Maria Aparecida Silva, 67 anos. Ela conta que gasta, em média, R$ 300 por mês com remédios para uso próprio e para as doações que faz a instituições. "É um absurdo. Se precisam reajustar, que optem por variações menores", comentou. Para ela, encarecer medicamentos é uma medida delicada. "Tirando os hipocondríacos (aquele que somatiza sintomas por ter mania de doença), ninguém compra remédio porque gosta", disse.O economista da Fundação Getulio Vargas (FGV) André Braz reforça que o aumento anual leva o mercado a investir nas promoções para não afastar tanto os clientes. Ele lembra que alguns medicamentos usados no dia a dia não sofrem controle de preços e, por serem reajustados livremente, não devem ficar mais caros. "O consumidor não deve abrir mão da boa e velha pesquisa. Não é porque o preço é tabelado que ele vai ser igual em todos os lugares", comenta Braz.MonopólioDe acordo com ele, o mercado de farmácias está cada vez mais monopolizado por conta das fusões. Pela tangente, surgem as redes de supermercados, que conseguem oferecer descontos competitivos. "Por menor que venha a ser a concorrência, vale a pena pesquisar", completa.A Anvisa, por meio da assessoria de imprensa, disse que não se pronuncia sobre o assunto até a Cmed bater o martelo sobre o índice de reajuste. O Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos do Estado de São Paulo (Sindusfarma), que representa 120 laboratórios detentores de 80% do mercado brasileiro, também não quis comentar a questão antes do anúncio oficial do órgão regulador.
Fonte: Agências