Economia

Nordeste faz parte da rota do tráfico de drogas no país

Piauí Hoje

Teresinha

30 de março de 2009 às 04:03


Dados da Polícia Federal mostram um aumento das apreensões de crack que passaram de 145 quilos em 2006 para mais de 578 quilos em 2007. Mas, segundo o secretário nacional Antidrogas (Senad), general Paulo Uchôa, existem poucas informações sobre o tema e nenhuma política pública específica para o controle do crack está nos planos do órgão."Não vamos ter plano voltado exclusivamente para o crack. Mas estamos nos preparando para fazer uma pesquisa mais voltada para essa droga. Nas estatísticas, ainda aparece muito como se fosse cocaína e seus derivados, apenas em alguns momentos vemos o crack em separado", explica. A Senad considera que somente uma pesquisa, de âmbito nacional, poderá dar a real dimensão do problema. "Qualquer que seja a droga, as políticas devem estar baseadas em pesquisas epidemiológicas que nos garantam o rigor científico do dado. Temos internações, algumas informações, a imprensa tem divulgado, a apreensão também tem aumentado. Mas a gente não pode confundir aumento da apreensão com aumento do consumo", justifica. Especialistas como a socióloga Sílvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, entretanto, alertam que o problema é grave e exige maior sensibilidade das autoridades. "O crack é um tragédia que desperta pouco interesse. Mas não é possível que o Estado tenha uma postura de desistência. Tem que treinar pessoal, profissionais das áreas de assistência social, médicos, enfermeiros, mobilizar a sociedade civil e o setor de segurança", ressalta.As críticas também partem de quem trabalha diretamente com as vítimas da dependência. César Ricardo Rodrigues da Cunha já foi viciado em cocaína e, há 23 anos, coordena um grupo de recuperação de dependentes. "Um governo que é conivente com a divulgação de álcool, que mata milhões e milhões de pessoas no mundo, não vai fazer trabalho de prevenção contra o crack", afirma. Na área de assistência social, as ações voltadas para os moradores de rua - população mais vulnerável e mais atingida pelo avanço da droga - são as mais próximas do problema. "Transferimos dinheiro para 93 municípios com mais de 250 mil habitantes para que eles ofereçam serviços de abrigo e acolhimento para a população de rua", explicou a diretora da Secretaria Nacional de Assistência Social, Valéria Gonelli. "As pessoas ficam internadas e retornam, mas nem sempre elas têm um serviço de casa-apoio ou albergue. Precisamos trabalhar a qualidade deste acolhimento." A Senad diz que investe em capacitação de educadores, lideranças comunitárias e até líderes religiosos para tratar do problema. Aqueles que se sentirem com "uma certa agonia", segundo o secretário, podem também ligar para o serviço 0800 510 0015. "É um serviço gratuito. Quando você liga para lá, de forma anônima, você relata o seu problema e alguém do último ano de graduação da área médica vai dar orientação."A Senad é ligada ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e tem papel articulador. A secretaria não possui orçamento para executar diretamente os projetos. Por isso, as políticas são propostas e tocadas com outros ministérios e com os governos estaduais e municipais.A Secretaria de Assistência Social garante que o atendimento e o tratamento sobre o uso de substâncias psicoativas estarão previstos no Plano Nacional de Assistência Social. Os dois órgãos, contudo, ressaltam a importância de que os prefeitos tomem a iniciativa. "Cada município precisa criar o seu conselho antidrogas. Capacitamos gratuitamente os conselheiros", afirma Uchôa. A rota do tráficoA percepção de que as rotas do tráfico de drogas se direcionam cada vez mais para o interior do país tem feito a Polícia Federal inaugurar novas delegacias em cidades menores e mais afastadas dos grandes centros. Segundo o delegado Marcello Diniz Cordeiro, chefe da divisão de operações e repressão a entorpecentes da PF, a tendência vem sendo observada há alguns anos. "É algo que se vê em grandes operações e apreensões", afirma. As rotas incluem principalmente tráfico de cocaína em pó e de pasta base de cocaína, usada para fabricar o crack e a merla. Os dados da PF demonstram que só as apreensões de pasta base aumentaram de 320 quilos em 2006 para 1,1 tonelada em 2007. Nesse mesmo período, as apreensões de crack passaram de 145 quilos para mais de 578 quilos.Entretanto, para o delegado Victor César Santos, titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da PF do Rio de Janeiro, as apreensões de crack no país são subestimadas por uma questão técnica, pois em muitos casos os policiais, na hora do registro, classificam a droga apenas como cocaína, que é a substância ativa."O policial não apreende como crack, que na verdade é o nome de mercado da droga. Então tem que se levar em conta que cerca de 40% da cocaína apreendida no Brasil na realidade é crack", afirma o delegado, lembrando que, em 2007, a PF registrou a apreensão de 16,5 mil quilos de cocaína. A pasta base utilizada para produção do crack vem da Bolívia, entra por cidades de Mato Grosso (Cáceres), Rondônia (Guajará-Mirim), Mato Grosso do Sul (Corumbá) e Acre - às vezes pelo chamado tráfico-formiga, quando os traficantes usam a população pobre para atravessar a fronteira com pequenas quantidades de droga. De lá, segue para cidades populosas do Nordeste, Sul e Sudeste. "O crack vai ser feito mais nos locais de consumo. E a repressão local vai ser feita pelas polícias Civil e Militar. Atendemos mais a questão do macro, daquilo que vai servir para a transformação do crack, que é a pasta base", esclarece. As regiões Nordeste, Sul e Sudeste também têm se alternado como principais destinos da droga que é transportada já como pedra. São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Fortaleza e Recife são os principais focos. O secretário nacional Antidrogas (Senad), general Paulo Uchôa, disse acreditar que o aumento da repressão aos produtos químicos utilizados no refino da cocaína tem aumentado a oferta de crack. "Só interessa à Europa a cocaína pura. Como estamos controlando as substâncias precursoras, eles não conseguem fazer a quantidade que gostariam para exportar e fazem com outras mais facilmente encontradas e transformam no crack, que não interessa aos compradores. O crack fica no Brasil mais barato para vender", diz. A estratégia da PF tem sido buscar a cooperação dos países produtores da pasta base para frear a produção de crack dentro do país. "No Brasil podemos controlar o nosso território. Agora, fora daqui, depende da logística, acordos com os outros países. Isso tem sido feito, inclusive as tratativas com a Bolívia têm melhorado muito", garante o delegado da PF.Rua é a porta de entradaEmbora o crack esteja disseminado entre todas as classes sociais, para crianças e adolescentes o consumo nem sempre é uma opção, mas um meio de sobrevivência. Para resgatar a juventude desses meninos e meninas, organizações não-governamentais (ONG) investem na educação e ressocialização dos menores."A droga faz parte de quem está na cultura da rua. A gente percebe que, na rua, a maior parte das crianças e adolescentes não é dependente, eles fazem uso mais circunstancial", afirma Cecília Motta, coordenadora do Projeto Quixote, que atua há 13 anos na Estação da Luz, zona central da cidade de São Paulo, conhecida também como Cracolândia.Muitas crianças e adolescentes deixam os bairros de origem e vão em direção ao centro da cidade em busca de aventura. Para a coordenadora, esses "refugiados urbanos" querem se distanciar de situações insuportáveis, como a violência doméstica.Em Brasília, a situação não é diferente. Grande parte das crianças e adolescentes de rua da capital está concentrada na rodoviária, no centro da cidade.Em Curitiba, o consumo de crack também tem crescido entre crianças e jovens. "A região mais crítica é a central. São crianças de muito pouca idade que viraram soldados-zumbis do tráfico. Elas ficam na esquina dia e noite comercializando as pedras para sustentar seu próprio consumo", afirma o secretário municipal Antidrogas, Fernando Destito Francischini.As ONGs que tratam desses jovens apostam no acompanhamento clínico, pedagógico e social.No Projeto Quixote, o tratamento é feito em três etapas: abordagem, abrigamento e ressocialização familiar. "À medida que eles vão se vinculando e vão participando das oficinas lúdicas e pedagógicas, eles abandonam a droga com muita tranquilidade. Não temos dúvida de que criança quer brincar. Criança que empina pipa não pipa pedra", diz Cecília.Na capital federal, em uma casa com amplo espaço verde e ambiente tranquilo no Lago Norte, região residencial de classe alta, crianças com problemas de dependência química participam de atividades da ONG Transforme.Em uma tarde, durante visita da Agência Brasil ao local, Alex, 14 anos, e Luís, 12, faziam origami sob a supervisão de uma moça que demonstrava paciência e calma. "Eu já fumei [crack]". "Eu também, mais de cem vezes", afirmam.Segundo os meninos, praticamente a metade das crianças e adolescentes que vivem na rodoviária - localizada no início da Esplanada dos Ministérios - usam crack. " Dos 25 que vivem lá com até 16 anos, 12 fumam", conta Alex. "Fumei a primeira vez com 11 anos. É fácil conseguir", lembra Luis.Alex, o mais falante da dupla, afirma que ao terminar o tempo de internação na TransForme pretende concluir os estudos até se formar em medicina. "Eu parei de estudar na 3ª série. Pelas minhas contas, faltam uns 15 anos para eu me formar. Mas não estou com pressa, não vou desistir do meu sonho", afirma, enquanto monta um cubo de papel alaranjado.A psicóloga Rosimere Nere, que acompanha a aula de origami, diz que as crianças de rua tendem a demonstrar habilidades que não são percebidas por meio da educação formal, já que estão fora da escola. Uma espécie de criatividade desenvolvida pelo ócio."O traço marcante é a arte, a habilidade. O que precisa é fazer com que eles entendam que essa criatividade pode ser canalizada para coisas importantes e positivas", afirma.Durante a aula de educação física, o professor Douglas Antunes afirma que o mais difícil é impor regras. Por terem vivido a maior parte da vida na rua, as crianças têm dificuldade em se adequar. "Às vezes, reclamam, dizem que vão embora, que não querem ficar e obedecer. Eu digo "Você acha que me emociona? Lá você vai dormir no chão e passar frio. Aqui tem piscina, aula de informática e seis refeições por dia. Pode ir se quiser". A escolha é deles."Crianças e adolescentes das ruas do Brasil começaram a fumar crack no fim da década de 1980, especialmente nos estados da regiões Sul e Sudeste. Pesquisas do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) apontaram aumento no consumo em sondagens realizadas em 1987, 1989, 1993, 1997 e 2004.

Fonte: Agência Brasil



@production @if(request()->routeIs('site.home.index')) @endif @endproduction