Os responsáveis pelas coletas do cordão umbilical dos recém-nascidos, seja de instituições públicas ou privadas, precisam repensar o que deve ser realmente estocado daqui para frente. Pesquisa feita pela equipe da geneticista Mayana Zatz, da USP (Universidade de São Paulo), mostra que descartar o tecido do cordão, e ficar apenas com o sangue dele prática mais comum hoje no mundo todo é desperdiçar um enorme potencial terapêutico. "Nosso estudo mostrou que apenas 10% das amostras de sangue do cordão tinham células-tronco mesenquimais, enquanto no próprio cordão a taxa é de 100%", explica Mariane Secco, primeira autora do estudo científico, já publicado on-line na revista "Stem Cells" Entre os tipos de células-tronco adultas existentes, as mesenquimais são as mais cobiçadas pelos cientistas. Pesquisas já mostraram que elas são as que têm a maior capacidade de se diferenciar em ossos, cartilagens ou músculos, por exemplo. As células-tronco contidas no sangue também são importantes, mas só para o tratamento de doenças sangüíneas, como a leucemia. "Já temos mais de 20 amostras estudadas. E essa proporção [de 10% para 100%] se mantém", explica Secco. O material usado para o trabalho foi coletado durante partos feitos no ano passado na Maternidade Jesus, José e Maria, da cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo. Em todos os casos, para cada paciente, tanto o sangue quanto o tecido do cordão umbilical foram isolados. Lixo precioso "Ninguém ainda havia se interessado em quantificar essas proporções", disse Zatz à Folha. "Esses resultados são importantes e o público precisa ser informado sobre isso. Quem está pagando [para guardar o sangue de cordão umbilical dos seus filhos] precisa saber disso", disse a cientista. De acordo com Zatz, fica claro, a partir de agora, que não existe mais motivo para que o cordão umbilical seja literalmente jogado no lixo. "Ele tem um potencial enorme. Tanto o sangue quanto o cordão precisam ser preservados", defende. As pesquisas apresentadas na quarta-feira (23) em São Paulo também mostram que, do ponto de vista logístico, guardar todo o cordão é até bem fácil. "O congelamento pode ser feito em até 48 horas. Isso significa que uma amostra pode ser enviada de qualquer lugar do Brasil para um banco em São Paulo, por exemplo." Habilidades preservadas Os testes também mostraram que, mesmo depois de congeladas, as células extraídas e cultivadas do próprio cordão preservaram todas as suas características de diferenciação. "O próximo passo é saber se será preciso guardar as células do cordão cultivadas ou só o próprio cordão", explica Zatz, lembrando que a primeira opção é a que já se mostrou viável. As equipes de pesquisa dos bancos privados de cordão umbilical também já tentam responder a essa pergunta científica. A cultura celular feita na USP, segundo Zatz, tem outra aplicação prática. "No caso das doenças genéticas, o cultivo de linhagens de células-tronco é importante, porque poderemos testar até drogas nelas."
Fonte: Folha Online