Economia

Adolescentes abusam da pílula do dia seguinte

Piauí Hoje

Teresinha

04 de setembro de 2008 às 03:09


Usar a pílula do dia seguinte ou ter relação sexual com diferentes parceiros ao longo da adolescência são atitudes que já fazem parte do cotidiano do jovem brasileiro entre 13 e 16 anos. Pesquisa realizada com 6.308 alunos de escolas particulares revela que 22% dos 1.383 adolescentes que perderam a virgindade nessa faixa etária usaram a pílula do dia seguinte para evitar a gravidez. Quase 20% desses jovens já tiveram relação sexual com pelo menos cinco parceiros. E 14% já fizeram sexo com alguém que conheceram pela internet.A pesquisa foi realizada no primeiro semestre deste ano com alunos de 272 escolas particulares brasileiras que são conveniadas ao Portal Educacional, entidade responsável pela aplicação dos questionários. Do total de entrevistados, 34% são estudantes do Estado de São Paulo. Andréia Maia Santana, gerente da Central de Projetos do Portal Educacional, explica que os professores dos colégios participantes receberam capacitação e acompanharam os alunos no momento em que responderam o questionário.A maioria dos 6.308 jovens participantes ainda é virgem. Destes, 85% afirmaram já ter "ficado" com alguém. Mas é o comportamento dos 22% que disseram ter perdido a virgindade nessa faixa etária que merece atenção especial.A suspeita de gravidez é alta no universo pesquisado: 42,3% dos que perderam a virgindade já acharam ter engravidado alguém no caso dos meninos ou ter ficado grávida no caso das meninas. Apesar de 86% dos jovens terem relatado usar camisinha, o número de meninas que já tomaram a pílula do dia seguinte é alto, segundo especialistas.É por conta desse contexto apontado na pesquisa que os pais não podem fechar os olhos para o início precoce da vida sexual de seus filhos e devem promover o diálogo. Para o psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Thiago Fidalgo, os resultados desse trabalho nas escolas confirma dados de estudos anteriores, que mostram o início cada vez mais cedo da vida sexual e chama a atenção para a falta de planejamento dos jovens quando o assunto é vida sexual. A orientação dada pelo psiquiatra é que os pais, ao tomarem conhecimento dessa realidade, chamem seus filhos para conversar.RiscosPresente no mercado farmacêutico brasileiro há pouco mais de dois anos, a "pílula do dia seguinte" tem sido usada por muitas mulheres como um método anticoncepcional convencional. Por total falta de informação, ou mesmo por comodidade, as mulheres estão usando o medicamento de forma irregular. O contraceptivo, feito para ser usado em casos de exceção, se consumido de forma indiscriminada pode causar riscos à saúde, devido à grande concentração hormonal.De acordo com o ginecologista Alfredo Mendonça Souza, a "pílula do dia seguinte" é recomendada no combate a uma gravidez indesejada depois de uma relação sexual de risco, como estupro e falha de outros métodos contraceptivos (como rompimento do preservativo).Ele frisa que se trata de uma medicação de emergência, pois o índice de falha e a quantidade de hormônios são grandes. "Em dois comprimidos a quantidade hormonal é quase a mesma de uma cartela de pílulas anticoncepcionais", afirma.Para uma maior eficácia, Souza diz que a pílula deve ser consumida até 24 horas depois da relação sexual de risco. Quanto mais rápido o medicamento for ingerido, maior será seu efeito. "Se a mulher tomar os comprimidos logo após a relação, supostamente fertilizante, a eficácia é de quase 100%. Ou seja, a eficiência é tanto maior quando mais imediata for a ingestão da pílula", adverte. O tratamento é dividido em duas doses com intervalo de 12 horas.O ginecologista explica que a alta dose do hormônio progesterona presente no medicamento causa uma série de interferências no organismo da mulher. A pílula provoca uma menor movimentação das trompas, bloqueia a saída do óvulo do ovário e causa a descamação do endométrio. Se a fecundação ainda não aconteceu, a pílula dificulta o encontro do espermatozóide com o óvulo. Se ela já ocorreu, a pílula provoca a descamação, impedindo a implantação do ovo fecundado. Desta forma, a mulher não chega a ficar grávida.A grande dosagem hormonal contida nos comprimidos pode trazer alterações no ciclo menstrual de algumas mulheres, podendo tanto adiantá-lo quanto atrasá-lo. Também pode causar náuseas, enjôos e dores de cabeça. Por isso, Alfredo Mendonça alerta que é necessário consultar um médico para saber se é necessária ou não a ingestão da pílula. "Existem períodos no ciclo menstrual em que não há possibilidade da mulher engravidar. Então, é preciso fazer uma análise de cada caso para saber se realmente é indicado o uso do medicamento", enfatiza. Já o uso constante acaba gerando problemas hormonais, sangramentos e outros "incômodos" para as mulheres. "Toda medicação é dosada para ser usada com critérios. Se a pessoa não obedecê-los, irá sofrer as conseqüências danosas do mau uso", lembra. Além dos efeitos colaterais, o médico ressalta que o uso freqüente, como duas vezes no mês, por exemplo, faz com que a medicação perca sua eficácia. Assim, o ginecologista ressalva que em hipótese alguma a pílula deve ser ingerida como um contraceptivo convencional, mas só como um método excepcional.

Fonte: JT



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