Ciência & Tecnologia

Um genocídio silencioso

Piauí Hoje

Teresinha

01 de maio de 2008 às 04:05


(*) Por Brunna Rosa A Colômbia agoniza em um longo conflito entre os paramilitares, as guerrilhas, o narcotráfico e a postura beligerante do governo de Álvaro Uribe. Com os bilhões de dólares do Plano Colômbia, as pessoas tiveram a sensação de aumento de segurança em relação à guerrilha das Farc, mas ao mesmo tempo houve um avanço do narcotráfico e da repressão contra movimentos sociais. Assim, o país tem a maior taxa do mundo de mortes de sindicalistas, a maioria assassinados por paramilitares, segundo a organização não-governamental Human Rights Watch. Foram 400 militantes mortos desde que o presidente Álvaro Uribe assumiu o governo. Segundo denúncias do Movimento Nacional de Vítimas de Crimes do Estado (Movice), cerca de 200 mil colombianos foram enterrados em valas clandestinas nas duas últimas décadas. Dentre eles, 2.550 sindicalistas, 1.700 indígenas e os 5 mil membros do movimento político União Patriótica (UP). O massacre de membros da UP é único no mundo e o partido teve diversos líderes mortos por paramilitares. Jaime Pardo Leal, que se lançou candidato à presidência, em 1986, obteve o maior número de votos alcançado até então por um partido fora dos tradicionais Liberal e Conservador. Foi assassinado em 1987. Em 9 de agosto de 1994, a UP perde seu último membro do parlamento, o senador Manuel Cepeda Vargas surpreendido na avenida Américas, do bairro Mandalay em Bogotá, por homens armados que atiraram contra ele. Hoje, o filho do senador Iván Cepeda Vargas é um dos líderes do movimento que denuncia os crimes do Estado, dos paramilitares e a violação sistemática dos direitos humanos que a população colombiana está sofrendo. Ele é advogado, diretor da Fundação Manuel Cepeda Vargas e membro do Movice. Junto a outros defensores dos direitos humanos, Cepeda elaborou um documento com aproximadamente 40 mil casos de sérias violações cometidas na Colômbia desde 1996. Nesta entrevista à Fórum, Iván avalia as manifestações de 6 de março contra a política belicista de Uribe e denuncia as ameaças que sofrem hoje os militantes de movimentos sociais. FÓRUM - Álvaro Uribe foi eleito em 2002 e reeleito em 2006, basicamente com a promessa de trazer a paz à Colômbia. Após várias ações, na "luta contra o terror", cuja repercussão foi a condenação internacional, qual o impacto sobre a popularidade do presidente? IVÁN CEPEDA - O presidente Álvaro Uribe tem uma alta popularidade, segundo a última pesquisa oficial, possui 84% de aprovação. No entanto, esses índices são mantidos com posturas populistas, como os conselhos comunitários, que por meio de concessões a alguns melhoram a imagem do presidente. Estes conselhos são os responsáveis pelas "bancas de oportunidades", que são auxílios mínimos a camponeses ou pessoas dos setores mais pobres da sociedade. Também é certo que o governo é popular devido a suas ações militares. Chamam essas atitudes de Política de Segurança Democrática. Entretanto, os êxitos obtidos são à custa de uma série de violações dos direitos humanos e também estão dentro do contexto da doutrina de luta antiterrorista. Na luta antiterrorista vale tudo, inclusive o sacrifício dos direitos humanos. Permite-se a violação da soberania de outros países, como aconteceu no Equador, implica apoiar grupos paramilitares no país, apesar de não se admitir oficialmente isso, e também manter tropas estrangeiras no próprio território. A guerra, com estas condições, é popular para um certo setor da classe média. Não importa a que custo. A questão é que a renúncia aos princípios da legalidade e dos direitos fundamentais tem custos políticos e econômicos que, invariavelmente, quem acaba pagando são os camponeses e os setores mais pobres da sociedade. FÓRUM - Como você avalia a importância das manifestações no dia 6 de março? CEPEDA - A passeata de 6 de março foi uma manifestação extremamente importante, a mais importante manifestação pública que já houve na Colômbia contra a violência de origem paramilitar e de Estado. Realizaram-se, nesta data, mais de 100 atos pelo mundo em homenagem às vítimas do paramilitarismo, da parapolítica, dos agentes do Estado e pelo acordo humanitário. Ao todo, foram 78 cidades no mundo e 24 na Colômbia, com passeatas, vigílias, concentrações e marchas de pessoas carregando fotos das vítimas. A mensagem de todas essas mobilizações é: "Na Colômbia existem múltiplas violências e a sociedade colombiana não é conivente com a postura belicista do governo que permite que agentes estatais agridam os direitos humanos". (*) Brunna Rosa é jornalista e trabalha para a INTERPRENSA.BRASIL - Imprensa democrática a serviço dos Movimentos Sociais

Fonte: Piauí Hoje



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