por Danilo Gandin*O Ministério da Educação está pensando em incluir, nas diretrizes para o ensino fundamental, a sugestão de que as crianças não sejam reprovadas nos três primeiros anos do seu ensino fundamental. Muitas pessoas vão lamentar; os resultados, porém, serão grandes.Esta proposta faz parte dos ventos promissores que estão oxigenando as Escolas por todo o Brasil. Em quase todos os Estados, surgem relatos de novas práticas capazes de serem alavancas transformadoras.Muitas dessas novidades são tecnológicas e não vão, rigorosamente, acrescentar algum bem significativo para os alunos, tanto da rede pública quanto da Escola privada. Devem ser saudadas, pois incorporam processos culturais novos; mas elas não têm força transformadora para o processo Escolar: convivem com o mesmo currículo formal e com outras dificuldades importantes do processo educativo.Muitas outras novidades, porém, embora ainda restritas quanto à prática, abrem perspectivas que precisam ser encaradas com alegria e profundidade por educadores, pelos estudiosos da Escola e pela sociedade em geral. Quase todas tocam nas quatro maiores cadeias atadas ao pulso das Escolas: o conteúdo preestabelecido - formal e limitado; a nota - símbolo de uma avaliação que classifica crianças curiosas e cheias de esperança como se fossem laranjas já colhidas; o professor falando o tempo todo - limitação da criatividade e da autonomia; a seriação e a disciplinaridade - herdadas de um fazer industrial, ele mesmo já em crise. São mudanças como o estudo de temas ligados à natureza e à sociedade, de forma transdisciplinar, em vez de conteúdos de livros didáticos; como implantação de processos de avaliação participativa, autônoma e orientada para o crescimento; como diminuição do valor de séries...A proposta do ministério dá força à avaliação diagnóstica, já realizada em algumas Escolas. É a avaliação que se faz com vistas ao futuro: há um referencial que não é um lugar de chegada, mas um horizonte; ele indica a direção em que queremos ir; a avaliação é centrada no que ainda pode mudar para que se alcance o máximo na caminhada; é necessário, para que ela possa ser realizada na Escola, que professores se aproximem do fazer pedagógico com uma proposta de valores, capacidades e conhecimentos que devam servir de ideal para aquela faixa etária de alunos. Imagine alguém que planta batatas: faz a avaliação de suas roças para verificar se as plantas estão bem, se há promessas de boa produção... Adota medidas para que a produção se aproxime do ideal, mas não tem meios para fazer as plantas serem todas iguais nem quer isto. Imagine o trabalho de um médico: ele não "dá" notas, ele avalia para compreender e para definir sua ação futura.A avaliação classificatória é aquela que se faz sobre o passado; colhidas as batatas, o agricultor as separa em pequenas, médias e grandes; elas já não podem crescer, quer dizer, já não mudam; sua classificação serve para que sejam vendidas de maneira mais inteligente, tirando o maior lucro possível.Crianças são futuro, são esperança! É necessário estar com elas no seu processo de busca de identidade e de instrumentos para participar na sociedade. Ajudá-las no processo de sua avaliação é nosso dever e nossa realização!*professor, escritor e conferencista
Fonte: Piauí Hoje