(*) Por Iane CarolinaAo assistir o Fantástico no último domingo fiquei horrorizada com a mais nova problemática da indústria do tabaco: o trabalho infantil. A reportagem mostrou que no sul do Paraná, onde estão concentrados pequenos produtores de tabaco, crianças de até cinco anos de idade servem à indústria do tabaco com trabalho infantil. O cigarro contém mais de 4 mil substâncias tóxicas. Cerca de 90% dos casos de câncer no mundo são provocados pelo uso do cigarro. O fumo traz prejuízos sem tamanho para a saúde pública: cerca R$350 milhões todo ano são gastos no Sistema Único de Saúde para tratar doenças relacionadas ao tabaco. Agora ele faz mais vítimas: crianças que nem sequer aprenderam a brincar direito. Nas lavouras de tabaco no Paraná, as crianças participam com os pais de todo o processo para a venda do tabaco, desde a colheita até a separação das folhas. Meninos e meninas perdem o tempo livre, que seria destinado às tarefas da escola e às brincadeiras da idade, ajudando os pais com a encomenda das empresas de tabagismo. Devido à fiscalização, as crianças continuam indo à escola e dizem ser um alívio para elas, porque no período de férias, o trabalho na roça se dá em tempo integral. Além dos prejuízos às atividades básicas da infência, o tabaco em sua forma bruta traz enormes prejuízos à saúde. Um estudo feito pelas universidades de Brasília e americana Johns Hopkins demonstra que a saúde das crianças que trabalham no fumo é preocupante. O contato com as folhas ainda verdes, promove a alta absorção de nicotina, percentuais comparados aos de um fumante adulto assíduo. Esta absorção provoca vômitos contínuos em adultos e crianças. Os pais alegam que são obrigados a colocar seus filhos para ajudar nos trabalhos porque os contratos feitos com as empresas têm prazos apertados. Além disso, eles praticam o que a maior parte dos pequenos agricultores fazem quando estão sem dinheiro: vendem antecipadamente a colheita por um preço bem menor que o de mercado para poder suprir necessidades das famílias em épocas que não há movimentação de mercado do tabaco na região. Com isso, eles recebem menos e têm que aumentar a produção, desta forma nasce o trabalho infantil da indústria do tabaco. Sabemos que muitos alegarão que outras atividades, como as lavouras de cana de açúcar, por exemplo, também se beneficiam do trabalho infantil, ou que muitas atividades, como o tráfico de (outras) drogas, envolvem crianças de forma muito mais dramática. Mas o fato é que não podemos fechar os olhos para tudo o que acontecer, simplesmente porque temos prejuízos maiores em outros setores. A nossa meta deve ser evitar que qualquer criança esteja sujeita a realizar atividades que não lhe cabem, seja em qualquer esfera da sociedade. A verdade é que os fumantes tem várias razões para deixarem de fumar, dentre eles, os males à saúde e os da economia, tanto para o próprio usuário como para o estado. Contudo, parece que nenhum destes motivos é forte o bastante para que estas pessoas parem de fumar. Agora, dou mais um motivo para os fumantes e para os que pensarem em começar este vício: se vocês não param por vocês mesmos, parem pelas crianças do trabalho infantil da indústria do tabaco. (*) Iane Carolina é jornalista formada pela UFPI
Fonte: Piauí Hoje