Ciência & Tecnologia

A história julgará Wellington

Piauí Hoje

Teresinha

21 de março de 2010 às 04:03


(*)Por Abel Paes Landim"Essa é a qualidade psicológica fundamental do político: sua habilidade para permitir que os fatos ajam sobre si, mantendo a calma interior do espírito, sabendo manter o sentido de distância ante os homens e as coisas. (...) A política é feita com a cabeça e não com as demais partes do corpo ou da alma. Entretanto, para evitar que se transforme num frívolo jogo intelectual e para que se torne uma autêntica atividade humana, a devoção política só pode nascer e alimentar-se da paixão (por uma causa). (...) A força de uma personalidade política pressupõe, em primeiro lugar, a paixão, a responsabilidade e o sentido de proporção". Paixão, responsabilidade e sentido de proporção. Com essas palavras Max Weber vaticina as principais virtudes de um político em seu "A política como vocação"(UnB: 2003). O governador Wellington Dias surpreendeu ao anunciar sua permanência no cargo até o fim de seu mandato, abdicando de uma candidatura ao Senado com grandes perspectivas de sagrar-se vitoriosa. O natural seria que Wellington renunciasse no dia 2 de abril próximo e fosse candidato. Uns poucos ainda relutam em acreditar na decisão do governador. Sua decisão causa surpresa e incredulidade exatamente por que imbuída de um altruísmo num meio em que prevalece o egoísmo. De um desprendimento, num meio em que avilta a vaidade. Com seu gesto, o governador demonstra, ainda, coerência e prudência. Wellington foi coerente com seu próprio discurso, quando afirmara que permaneceria no governo caso não houvesse unidade entre os partidos que compõem a atual base aliada. Segundo ele, tal unidade visa, sobretudo, a dar prosseguimento a uma política de desenvolvimento iniciada em sua gestão, a que não quer que sofra solução de continuidade. Ao sacrificar-se, Wellington mostra-se um devoto apaixonado por essa causa, mostrando-se um voraz defensor antes de um projeto de governo do que de um projeto de poder. A prudência demonstrada pelo Governador tem algo de modesto e instrumental; ela se põe a serviço de fins e só se ocupa com a escolha dos meios. Virtude temporal, sempre, e temporizadora, às vezes. É que a prudência leva em conta o futuro. Virtude presente, mas previsora ou antecipadora. Prudentia, observava Cícero, vem de providere, que significa tanto "prever" como "prover". Como protagonista da mudança política ocorrida desde sua primeira eleição, e no uso das prerrogativas que seu cargo lhe assegura e impõe, Wellington sabe da responsabilidade de conduzir o processo sucessório, e age como um timoneiro que sente o vendaval e não abandona o leme. Embora já tivesse manifestado seu desejo legítimo de ocupar uma cadeira no Senado Federal - com o qual comungavam o Presidente Lula, as principais lideranças nacionais do seu partido e o próprio povo, como demonstram as pesquisas - Wellington preferiu não ignorar os fatos que conduziam a uma prenunciada cisão da base aliada, caso deixasse o Governo e consequentemente a gerência das negociações em torno de sua sucessão. Reconhece-se no ato do Governador um gesto de grandeza, que só os desprovidos de vaidade poderiam tomar. Vaidade, como adverte Weber, que é "inimiga mortal de qualquer devoção a uma causa". Alguns argumentam que Wellington pode estar deixando esvair a oportunidade, que se afigura como luz à sua frente, de ser Senador. O juízo dos contemporâneos, entretanto, haverá sempre de ser precário, e o que conta, na verdade, é o julgamento da historia. A este, os personagens não assistem.(*) Abel Paes Landim é professor

Fonte: Piauí Hoje



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