PROA & PROSA
Teresinha
28 de julho de 2021 às 16:00
Crescente a percepção da política devastadora da extrema-direita no organismo social brasileiro.
Há sinais de protesto contra o golpismo no qual surfam forças anticivilizatórias – entrelaçadas de neonazi e neoliberalismo. Um certo despertar das ruas, para o que concorre uma aparente briga interna entre os poderosos.
O Brasil periclita, a violência e a insegurança em geral ganham força, qual política de Estado, desejosa da confrontação armada entre classes e grupos sociais. Desembestam a violência do desemprego e da fome; a violência do fechamento das escolas dos filhos dos pobres... Já antes da Covid. Violência pelo fim dos direitos sociais dos fragilizados; violência do grande roubo de terras na Amazônia como política de governo... Devastação criminosa que toca fogo em flora e fauna.
Grandes cronistas, tal Ruy Castro, na Folha, também vêm a público dizer do que estão vendo nessa hecatombe política que faz o reponto das abjeções da treva brasileira com suas taras ímpias e ferrões escravistas, ditatoriais, inimigos da democracia, da solidariedade e da paz.
Oportuna, e dita de forma inigualável, a palavra castroana, referindo-se à ação do governo que chefia a República, não a “dos sonhos”, mas a “república” miliciana que se embrenha e oprime.
Entre as táticas do nazismo ele faz alusão à Siltzkrieg, citando Lourival Fontes, tido e estudado como homem forte da era varguista. Lembra a Blitzkrieg.
Fala Ruy, da Siltzkieg, guerra de posições...: “É a guerra moral, psicológica, das expectativas fatigantes, dos cansaços nervosos. É a desmoralização, a destruição das energias internas, o estímulo das discórdias interiores e da desagregação nacional. É também a infiltração e penetração dos agentes do terror, do pânico e da dúvida, de modo a provocar a divisão do adversário e a vulnerabilidade da sua resistência psíquica. É a guerra não declarada, a guerra em estado de paz. A ela segue-se, claro, a Blitzkrieg, a guerra-relâmpago, que pega a vítima alquebrada e a subjuga”.
Fala Ruy, da aplicação dessa receita no corpo brasílico profanado pelo casagrandismo senzaleiro, reino de verdugos cívicos insaciáveis...: “Transfira isso agora para os ataques, agressões, ofensas, desrespeitos, afrontas, aviltamentos, humilhações e perdas que há dois anos e meio nos são infligidos por Jair Bolsonaro e seus musculosos sub-führers. Acrescente à receita a degradação da educação, da cultura, do meio ambiente e dos outros valores nacionais, as provocações machistas, racistas e homofóbicas, os disparos em massa de fake news pelas milícias digitais e a constante ameaça de ruptura das instituições. Quem aguenta isso por muito tempo?”
Fala Ruy, do morticínio nesse espectro, da guerra “civil”, violência mais que simbólica...: “Quebrada a nossa capacidade de resistência por essa barragem de palavras, gestos e atos, seria um delírio imaginar uma Blitzkrieg formada pelas SS bolsonaristas —as falanges com porte de arma—, os milicianos, os soldados, cabos e sargentos da PM e a parte do Exército que tem uma leitura própria da Constituição?”
Não seria um delírio. É o real, a realidade. O chão rugoso das misérias pátrias é encharcado do sangue de pródigos lutadores, esperançosos, spartaquistas verdadeiros que não desistiram da liberdade. Insistentes titãs do direito radical humano de resistir à opressão. O ataque extremista que se faz pelo mecanismo das guerras ditas híbridas, narrativas, cancelamentos e apagamentos é, já, fato em curso. Essas falanges do bolsorismo, no caldo do morimperialismo, devem ser combatidas com vigor.
O que mais parece com delírio nesta conjuntura é a apatia de milhões de brasileiros não indicando o menor sinal de preocupação com o sistemático ataque destrutivo às instituições indispensáveis à democracia. Destruição como política de governo.
Não é delírio... É grave a inatividade em defesa da democracia, de câmaras municipais, assembleias estaduais, Congresso e organismos judiciários. A esfera empresarial e a mídia grande são promotores do Golpe, desde ontem.
O conteúdo democrático, na armadura da experiência de 1988, foi capturado, e traído, pela danação corporativa de coturnos e togas, no interior do Estado, incensada sua vocação antipopular, useira e vezeira do golpismo.
FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.