Duas revoluções em julho

A Revolução Americana, com efeito, foi tão importante quanto a Revolução Francesa.

Boa parte das pessoas, o que se pode ler como a maioria absoluta, não se deu conta de que na semana passada os Estados Unidos celebraram os 250 anos não somente da independência política ante à Inglaterra (4 de julho de 1776), mas, sobretudo, de dois séculos e meio de uma das mais importantes revoluções da História, a Revolução Americana, quase sempre ofuscada por outro movimento revolucionário com maior repercussão, a Revolução Francesa.

A Revolução Americana de 1776, consolidada em 1781, certamente é ofuscada pela congênere francesa pela razão simples de que, no momento histórico em que triunfaram, a França era centro do mundo e o as 13 Colônias Inglesas na América, parte de um Novo Mundo que estava mais para periferia de uma Europa que se ilustrava com as ideias do liberalismo político e econômico já em experimentação tanto na Grã-Bretanha do escocês Adam Smith quanto na França de Montesquieu.

Porém, foi longe daquele Europa que era “centro do mundo”, que tanto as ideias de Smith quanto de Montesquieu iriam triunfar e, como uma semente boa em terra fértil, germinar para se transformar em árvore frondosa, com força e sombra o bastante para em pouco mais de um século depois obscurecer tanto a França de Montesquieu e sua revolução quanto a Grã-Bretanha de Smith, com sua revolução industrial que se espalhou de modo imperial pelo mundo.

A Revolução Americana, com efeito, foi tão importante quanto a Revolução Francesa. Não tratou somente de uma ideia de liberdade, igualdade e fraternidade para a constituição de um sistema político em que as pessoas pudessem operar com liberdade para enriquecer, com igualdade limitada a uns poucos e fraternidade para assentar a ideia de nação. Na Revolução Americana, a ideia de felicidade como possibilidade de enriquecer sem importunação foi essencial.

Os fundadores da nação norte-americana se desligaram de um reino opressor, a Inglaterra, trocando a condição de súditos fiéis (e obedientes) pela postura de cidadãos que podiam agir com liberdade para, conforme prescreve, de modo claro, obter a felicidade como bem-estar material comum: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão Vida, Liberdade e a busca da Felicidade.”

Os franceses, mesmo ainda sob o absolutismo de Luís XV, ajudaram a incipiente nação norte-americana a vencer seus inimigos ingleses. Não por compartilhar as mesmas ideias, mas sim o mesmo inimigo. Anos depois, os ideais iluministas triunfaram também do outro lado do Atlântico, de onde viria para a América um privilegiado observador da construção da “Democracia na América”, Alexis de Tocqueville, que em seu livro destaca a importância da opinião pública como motor de um processo democrático que não se poderia paralisar e no centro disso, a imprensa e o júri popular como mecanismo de controle e exercício de poder pelas pessoas comuns.

Assim, separadas por 13 anos, mas ocorridas ambas em um mês de julho, no último quartel do século XVIII, as Revoluções Americana e Francesa são lembranças permanentes de que transformações políticas e econômicas não podem ser contidas, mas há que se ter sempre, na participação das pessoas, o freio para excessos e os mecanismos para garantir a organização social, garantia essencial à liberdade, à igualdade e à segurança material para todos.