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OPINIÃO DO LEITOR

Thawanna Salmázio: quando o Estado chega tarde demais

Gênero, raça e violência policial expõem desigualdades estruturais nas periferias brasileiras

Por Yasmin Lyra

26 de abril de 2026 às 09:42 ▪ Atualizado há 20 minutos

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  • O caso de Thawanna da Silva Salmázio, morta durante uma abordagem policial, reflete problemas estruturais e não é um incidente isolado.
  • A demora no socorro, apesar de haver um hospital próximo, destaca a negligência e as desigualdades no tratamento de casos na periferia.
  • O evento simboliza como a vida de mulheres negras é desvalorizada, ligando-se a questões de gênero, racismo e desumanização.
  • Feministas brasileiras como Heleieth Saffioti e Lélia Gonzalez ajudam a entender como racismo e sexismo estão entrelaçados e estruturam a violência de gênero.
  • Dados mostram que 62,6% das vítimas de feminicídio entre 2021 e 2024 eram mulheres negras.
  • O estudo revela que a violência policial é desproporcionalmente maior contra pessoas negras.
  • As câmeras corporais reduziram a letalidade policial, mas não resolvem a cultura de violência enraizada.
  • A presença de uma policial no caso não garante justiça de gênero, pois as lógicas institucionais podem ser reproduzidas por qualquer agente.
  • São necessárias mudanças estruturais como protocolos de contenção, investigações independentes e auditoria de imagens.
  • O caso alerta para reconhecer a violência policial também como violência de gênero, insistindo em uma solução para a letalidade institucional combinada com racismo e patriarcado.

Caso de Thawanna Salmázio expõe desigualdades estruturais na atuação do Estado em áreas periféricas
Caso de Thawanna Salmázio expõe desigualdades estruturais na atuação do Estado em áreas periféricas

O caso de Thawanna da Silva Salmázio não pode ser lido como um “desfecho trágico” isolado, nem como uma ocorrência policial comum que deu errado. Segundo as reportagens, Thawanna, de 31 anos, foi baleada durante uma abordagem na Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo, na madrugada de 3 de abril, em um episódio registrado por imagens de câmera corporal; Após o disparo, ela apareceu no chão por cerca de 30 minutos até receber socorro, embora houvesse hospital e base do Samu a poucos minutos do local. O autor do disparo foi identificado nas reportagens como o soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, e os dois policiais envolvidos foram afastados das atividades operacionais enquanto a investigação prossegue.

É precisamente por isso que este caso exige uma leitura política e não apenas pericial. Quando uma mulher é morta pela polícia e, depois disso, o socorro demora como se o território já tivesse sido abandonado, o que parece não é apenas uma falha operacional: aparece uma forma de organização da vida pública em que alguns corpos recebem urgência e outros recebem espera. Na periferia, esperar também pode ser uma forma de violência. E, quando o corpo atingido é de uma mulher, essa espera não se soma apenas à desigualdade territorial; ela entra no campo do gênero, do racismo e da desumanização cotidiana.

O feminismo brasileiro já nos deu ferramentas para entender isso com mais soluções. Heleieth Saffioti demonstrou que a violência de gênero não é um acidente de intimidação, mas faz parte das relações de dominação que estruturam a sociedade; em outras palavras, a agressão contra mulheres não é um desvio, é um mecanismo de poder. Lélia Gonzalez, por sua vez, insistiu que racismo e sexismo não caminham separados no Brasil: eles se articulam, se reforçam e produzem a forma específica de violência que atinge as mulheres negras. Sueli Carneiro também mencionou que a violência contra mulheres negras não é igual para todas: ela se agrava quando raça e gênero se cruzam. E Carla Akotirene nos lembra que a interseccionalidade não é roteiro teórico; é uma ferramenta para enxergar, ao mesmo tempo, racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado como estruturas inseparáveis.

Esse recorte é importante porque os números confirmam o que esses autores vêm falando há décadas. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou 1.568 feminicídios no Brasil em 2025, um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior, e informou que, entre 2021 e 2024, 62,6% das vítimas de feminicídio eram mulheres negras, contra 36,8% brancas. O mesmo relatório mostra que metade das vítimas tinha entre 30 e 49 anos, ou seja, eram mulheres em plena vida produtiva, afetiva e de cuidado. Não estamos falando de estatística: estamos falando de um padrão nacional que escolhe, com frequência excessiva, mulheres negras adultas como alvo de violência letal.

Quando se olha para esse dado ao lado da morte de Thawanna, a ideia de “caso isolado” desmorona. A literatura recente em saúde coletiva e violência de gênero descreve esse tipo de cenário como expressão de racismo e misoginia estrutural, chegando a falar em necropolítica, isto é, um “fazer morrer” que se organiza pela negligência, pelo descaso e pela distribuição desigual de proteção. Isso ajuda a nomear algo incômodo: não basta dizer que houve um disparo; é preciso perguntar por que a vida de Thawanna não acionou resposta rápida, por que o socorro foi tardio e por que a periferia continua funcionando como território onde o Estado parece armado, mas falha quando precisa salvar.

O debate sobre violência policial, por sua vez, completa o quadro. Um estudo sobre São Paulo e Minas Gerais encontrou taxas de letalidade policial entre pessoas negras duas vezes maiores do que entre não negras em São Paulo. Outro material do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que, no estado, as mortes provocadas por pesquisas listadas por recorte racial forte: a taxa de mortalidade de pessoas negras cresceu mais do que a de pessoas brancas nos últimos anos. Ou seja, a polícia não atua em um terreno neutro; ela opera dentro de desigualdades raciais que já definem quem é visto como suspeito, quem é parado e quem é submetido à força com mais facilidade.

As câmeras corporais, por sua vez, provam duas coisas ao mesmo tempo. A primeira é que a tecnologia pode reduzir a violência e aumentar a transparência: o relatório do FBSP sobre a PM de São Paulo registrou queda de 76,2% na letalidade dos batalhões que adotaram câmeras corporais entre 2019 e 2022, enquanto o Ministério da Justiça informou que a presença desses equipamentos elevou as notificações de violência doméstica em 69% em Santa Catarina e 101% em São Paulo. A segunda é que a câmera não resolve, sozinha, uma cultura institucional que ainda naturaliza a força antes do diálogo, a escalada antes da contenção e a demora antes do socorro. A própria pesquisa do FBSP diz que a tecnologia é um instrumento importante, mas não uma panacéia.

É justamente aí que o caso de Thawanna se torna simbólico. As imagens corporais não serviram apenas para expor a ocorrência; elas também escancararam a brutalidade de uma cadeia que parece funcionar sempre em duas velocidades: uma muito rápida para empunhar arma, outra muito lenta para chamar ambulância. A reportagem do Metrópoles mostrou que, mesmo com hospital a cerca de 3,2 quilômetros e tempo de deslocamento estimado em nove a 11 minutos, a vítima esperava cerca de 30 minutos por atendimento. Essa diferença entre distância real e demora concreta é o retrato de uma cidade que, para certas mulheres, administra a urgência como se fosse particular.

Há, aqui, uma dimensão de gênero que às vezes passa despercebida quando o assunto é polícia. Mulheres não morrem apenas no interior da casa ou da relação íntima; morrem também quando o Estado falha em observar-las na rua, quando a abordagem policial vira constrangimento, quando as suspeitas recai sobre seus corpos, quando a resposta institucional demora e o cuidado alguns. A violência contra a mulher, nesse sentido, não é só doméstica. Ela é social, territorial e estatal. Isso fica ainda mais claro quando se lembra que as mães, companheiras e familiares de vítimas da ação policial transformadas têm luto em luta, organizando-se para exigir justiça em contextos onde a morte de homens e mulheres negras costuma ser rapidamente convertida em “ocorrência”.

Sueli Carneiro ajuda a dar nome ao que muitos preferem tratar como excesso de sensibilidade. Quando ela afirma que a violência doméstica atinge mulheres de todas as raças, mas se agrava para as mulheres negras, ela está dizendo algo maior: existe uma situação de vulnerabilidade que o Brasil insiste em não encarar. Lélia Gonzalez, por sua vez, mostrou que o racismo brasileiro não se apresenta apenas como insulto ou exclusão explícita; ele organiza linguagem, instituições, afetos e suspeitas. Quando a polícia aborda, pergunta, ameaça, dispara e depois demora, ela não envelhece fora dessa cultura. Ela envelheceu dentro dela.

Também por isso é perigoso transformar a presença de uma mulher policial no episódio em garantia moral automática. A violência de gênero não se anula por identidade individual de quem aperta o gatilho. Mulheres também podem reproduzir lógicas institucionais violentas quando estão inseridas em estruturas que primam pela obediência à cega, à virilidade armada e à desumanização do outro. A análise precisa ser estrutural, não identitária. O problema não é uma exceção do agente; é uma instituição que permite que uma mulher negra ou pobre seja tratada como ameaça em vez de cidade, e que uma ocorrência termine sem cuidado, sem escuta e sem resposta rápida.

Se o Estado realmente quisesse aprender com os casos assim, as respostas seriam conhecidas: protocolos rígidos de contenção e socorro, investigação independente, preservação e auditoria integral das imagens, responsabilização funcional dos envolvidos, prioridade absoluta para atendimento de feridos, transparência pública dos dados e expansão de políticas de proteção em territórios periféricos. As câmeras corporais devem ser mantidas e ampliadas, mas com regras que garantem o uso real para controle do abuso, e não apenas para serem produzidas após a morte. O que não se pode mais aceitar é uma polícia que entra armada na vida das pessoas e sai delegando o socorro ao acaso.

No fundo, o caso Thawanna nos obriga a fazer uma pergunta simples e dura: quantas mulheres negras, periféricas e pobres precisam morrer para que o Brasil reconheça que violência policial também é violência de gênero? A resposta passa por abandonar a ideia de que a vida social se divide entre “crimes comuns” e “desvios pontuais”. O que há, cada vez mais nítido, é uma estrutura que combina racismo, patriarcado e letalidade institucional. Enquanto o país não faz isso, a periferia continua sendo o lugar onde o Estado chega tarde, observa de longe e, muitas vezes, só aparece de verdade para registrar a morte.

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