Enquanto o país comemora desde 2003 uma redução no número de homicídios, o Nordeste brasileiro segue na contramão e, desde a primeira década do século, bate recorde de assassinatos. Em 2010, os Estados da Bahia e de Alagoas, respectivamente, lideraram o número absoluto e a taxa de homicídios entre todas as unidades de federação. De 2004 a 2009, a taxa de homicídios no Nordeste cresceu 57,6% (veja tabela abaixo) na região, apenas Pernambuco registrou redução de mortes violentas no período.
Segundo dados obtidos pelo UOL Notícias nas secretarias estaduais de segurança pública, a Bahia passou a ser o Estado com maior número absoluto de assassinatos do Brasil: no último ano foram 4.856, superando pela primeira vez São Paulo e Rio de Janeiro que historicamente sempre se revezaram na liderança do ranking de mortes de violentas. Também é a primeira vez que um Estado fora do Sudeste lidera o ranking. Em 2010, o Rio de Janeiro (que em 2007 tinha tomado a dianteira da lista) registrou 4.768 homicídios, enquanto São Paulo (líder absoluto até 2006) contabilizou 4.320 assassinatos. Ao contrário do Nordeste, os dois Estados seguem apresentando tendência de queda no número de homicídios.
Com pouco mais de três milhões de habitantes, Alagoas registrou 2.226 assassinatos em 2010 e alcançou a maior taxa de homicídio já registrada por um Estado brasileiro em todos os tempos (71,3 para cada 100 mil habitantes), segundo afirmou o pesquisador Julio Jacobo, autor do levantamento Mapa da Violência 2011.
Nordeste passa o Sudeste
Embora o assunto venha ganhando destaque nos últimos meses, o crescimento no número de assassinatos no Nordeste não é um fenômeno tão recente. Desde meados da década de 1990, a região apresenta índices altos. Em cinco anos, o número de homicídios cresceu 57,6% na região, segundo dados do anuário 2010 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
De acordo com o levantamento, em 2004 os nove Estados da região registraram 9.288 assassinatos. Cinco anos depois, em 2009, esse número saltou para 14.647 e fez com que a região alcançasse, pela primeira vez, a liderança nacional absoluta. A taxa de homicídios da região supera em 40% a média nacional 36,5 para cada 100 mil habitantes, contra 25 do país.
Nesse período, a curva de homicídios do Nordeste fez o sentido inverso da maior região do país. Em 2004, o Sudeste registrou 24.971 homicídios (168% a mais que o Nordeste). Em 2009, esse número caiu quase pela metade e alcançou 13.327, abaixo do registrado pelo Nordeste naquele ano. Apesar de ficar abaixo, o Sudeste tem população 51% maior que o Nordeste (80,3 milhões contra 53 milhões, segundo o Censo 2010).
"A violência homicida cresce de forma linear no Nordeste desde o início da década de noventa. Entre 2005 e 2008, os dados apontam para um processo de inversão entre as taxas de homicídios das regiões Sudeste em relação ao Nordeste. Dois terços dos homicídios dessa região encontram-se concentrados em três estados: Bahia, Alagoas e Pernambuco", explicou o professor da Universidade Federal de Pernambuco, José Maria Nóbrega Júnior, em estudo em que analisa o perfil das mortes violentas no Nordeste.
Segundo o estudo, a região passou o Sudeste em taxa de homicídio em 2006. Para ele, o crescimento no número de assassinatos na região tem várias explicações. "Apesar da melhoria da condição socioeconômica no Nordeste, a maioria dos Estados nordestinos mostra crescimento da criminalidade violenta, o que sugere a atuação das políticas públicas em segurança como fator fundamental no controle da violência homicida", disse.
O professor afirma que nos últimos cinco anos, apenas o Estado de Pernambuco que chegou a liderar a taxa de homicídios nos anos 1990 conseguiu reduzir o número de mortes. Apesar disso, o Estado ainda é o segundo proporcionalmente mais violento da região e o terceiro do país.
Violência rumo ao interior
O professor Julio Jacobo, responsável pelo estudo Mapa da Violência, acredita que o Nordeste se tornou vítima de um fenômeno classificado como "interiorização da violência". “Na medida em que a repressão se acentua em Estados grandes, inicia um espalhamento da violência. Desde a década de 2000 vivemos a chamada interiorização da violência. O crime ocorria em maior escala na grande capital, regiões metropolitanas, mas a partir dessa data houve uma descentralização. Esse fenômeno parece se espalhar em nível nacional, pelos Estados que eram ‘médios’ no ranking de crimes. E esse esquema de vaso comunicante migra para os locais com baixo esquema de seguridade pública”, analisou.
No Mapa da Violência 2011, divulgado na última quinta-feira (24), o pesquisador aponta que o problema não é só de Alagoas, Bahia e Pernambuco. Os demais Estados também seguem linha de crescimento preocupante. "Merece destaque Maranhão, que a partir de números bem modestos, em 1998, evidencia um crescimento de 367% no lapso de 10 anos. Também outros estados, como Piauí, Ceará e Paraíba, sem chegar ao extremo dos anteriores, ostentam índices de crescimento elevados, mais que duplicando os números de 1998", diz Júlio Jacobo, apontando que, entre 1998 e 2008, o número de homicídios saltou 101,5% na região.Investimentos abaixo da média
Apesar de viverem dias difíceis, os investimentos em segurança pública ainda são pequenos na região, em comparação aos demais Estados, segundo constatou o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2009, os Estados da região investiram menos que a média per capita do Estados, fixada em R$ 238,29. Sergipe teve o maior investimento médio entre as nove unidades da federação, com R$ 235,39. Já o Piauí fez o menor investimento: R$ 84,25. Apesar de figurarem como os três Estados mais violentos da região, Alagoas (R$ R$ 227,68), Bahia (R$ 133,43) e Pernambuco (R$ 155,11) também investem menos que a média do país.
VIOLÊNCIA NO NORDESTE
2004 2009 Aumento Taxa
Alagoas 983 1.998 103,2% 63,3
Bahia 2.844 4.375 53,8% 29,9
Ceará 1.344 2.212 64,5% 25,9
Maranhão 560 714 27,5% 11,2
Paraíba 679 1.176 73,1% 31,2
Pernambuco 3.989 3.750 -6% 42,6
Piauí 213 269 26,2% 8,6
Rio Grande do Norte 393 646 64,3% 20,6
Sergipe 453 582 28,4% 28,8
Nordeste 9.288 14.647 57,6% 36,5
Fonte: Anuário 2010 do Fórum de Segurança Pública
Taxa de homicídio para 100 mil pessoas, referente a 2009
Fonte: bol