Teresinha
20 de agosto de 2017 às 21:08
Negra e defensora do empoderamento da mulher, Monalysa Alcântara repetiu várias vezes: “eu não acredito... isso não está acontecendo”. Acredite. Você é poderosa! É a mais bela mulher do Brasil.
Mona, como é chamada carinhosamente pelos amigos, tomou café da manhã no hotel e sobrevoou de helicóptero o litoral de Ilhabela, na manhã deste domingo (20), acompanhada de Raissa Santana, agora ex-Miss Brasil (2016).
“Depois de tanto trabalho, acabei de saber que ganhei um carro. Agora preciso saber dirigir! E uma viagem! Gente, é tudo o que eu preciso agora. Eu vou conhecer Dubai!”, comemorou.
Carrão na garagem, mas sem CNH ainda
Um a um, os seis jurados foram se rendendo, unissonos e [quase] unânimes: a brasilidade, a desenvoltura, o “borogodó” daquela negra de cabelos crespos contaram mais pontos. E Monalysa, a menina pobre de Teresina, virou rainha, foi coroada e fez história, na noite em que o Piauí venceu de goleada a 62ª edição do concurso Miss Brasil, realizada no Teatro de Vermelhos, em Ilhabela, litoral de São Paulo.
Foram cinco votos para Monalysa Alcântara e apenas um para a segunda colocada. “Realizei um sonho, e sonhei pelo meu Piauí.”
E alguém ainda se lembrava que a modelo e estudante de Gestão Financeira Juliana Mueller, 25 anos, representante do Rio Grande do Sul, tinha ficado em segundo? Ou que a modelo e estudante de Engenharia de Produção Stephany Pim, 23 anos, do Espírito Santo, completou o pódio? O Brasil só tinha olhos para Mona. Arrazou, menina!
Raissa e Monalysa sobrevoam Ilhabela (SP)
A terceira
Depois da Miss Rio Grande do Sul, Deise Nunes, em 1986 [a pioneira], e da Miss Paraná, Raissa Oliveira Santana, em 2016, Monalysa é a terceira negra a vencer o concurso, enfrentando todo tipo de preconceito, além das outras 26 concorrentes.
Monalysa Alcântara vai representar, e bem, o Brasil no Miss Universo, marcado para novembro próximo. "Minha estratégia será ser eu mesma: uma mulher nordestina, que passou por diversas coisas, muitas dores, que fizeram ser quem eu sou hoje. Vou ser eu mesma. Não tem segredo", disse ao ser perguntada sobre como pretendia representar a beleza da mulher brasileira internacionalmente.
Empoderamento
Negra assumida, Monalysa também promete lutar pela valorização da beleza negra. "Através da minha história, vou ajudar as mulheres negras a se acharem mais bonitas e mostrar que elas são capazes de seguirem seus próprios sonhos, assim como eu segui o meu", avisou.
Algumas opiniões de Monalysa sobre vários assuntos:
Cabelos
"Começou assim, dentro da escola. Disse, 'vou soltar o meu cabelo', deixar ele"
Preconceito
"Passei por uma situação que nunca acreditava que ia passar, no meu mundo, no lugar que eu trabalho, que mais amo. Foi um ato de preconceito, injúria racial, no qual fui negada a vestir uma roupa por ser negra. A pessoa em questão acreditava que a minha cor não ia valorizar as peças dela. E foi um susto. Claro que foi um susto",
Reação
“Achei que só eu passava por isso. Comecei a imaginar, já que eu sempre quis ser diferente, que sempre ouvi que faça o que for, faça algo para mudar a vida de alguém. Já que eu gostava do mundo da moda, entendi que poderia transmitir força e empoderamento, levar autoestima para crianças e adolescentes"
Não calar
"Gosto de transmitir isso, mas para dizer que você não pode deixar isso passar. Infelizmente isso é muito normal [comum], acontece. O que não pode é a gente se calar. Espero que ela [a dona da roupa do desfile onde Mona foi barrada por ser negra] pague por isso. As vezes as pessoas nem percebem que são pequenas coisas, palavrinhas, que podem ferir a outra... Nada de 'deixa pra lá', a justiça está aí pra isso".
