DESRESPEITO E AGRESSÕES
Isabel Fonseca
20 de março de 2026 às 10:24
Estudantes do curso de Serviço Social e uma trabalhadora terceirizada da Universidade Federal do Piauí (UFPI), em Teresina, denunciam terem sido vítimas de desrespeito, assédio e violência durante um evento realizado no Centro de Ciências Humanas e Letras (CCHL), na última terça-feira (17), no mês da mulher.
Uma das vítimas registrou Boletim de Ocorrência na Polícia Civil, que investiga o caso. O suspeito foi identificado apenas pelas iniciais R.F.M.
Segundo relatos, o homem se apresentou como assistente social e músico e esteve presente no auditório Noé Mendes, onde ocorria a organização de um evento acadêmico dos 50 anos do CCHL.
De acordo com uma estudante, que preferiu não se identificar, ela e duas colegas de curso participariam do evento com uma apresentação musical. O suspeito também havia sido convidado para realizar uma homenagem às professoras por ser egresso da instituição, mas o conflito começou quando ele se recusou a dividir o espaço no palco.
Segundo a estudante, o homem passou a discutir com as alunas durante a organização da programação.
A gente tentou explicar lá para ele com calma. Só que ele já estava muito exaltado, estava gritando.
A situação se agravou quando a estudante chegou ao local e percebeu que o homem discutia de forma agressiva com suas colegas. Ao tentar intervir e entender o que estava acontecendo, ela acabou sendo alvo da abordagem.
Quando eu cheguei, perguntei o que estava acontecendo, porque ele estava gritando com a minha colega. Nesse momento, ele colocou a mão por trás do meu pescoço e foi descendo pelo meu braço. Eu travei e disse: por favor, você não toque em mim, eu não te conheço, não permito que você me toque.
Ao impor limites diante do contato físico não consentido, o suspeito reagiu de maneira agressiva, elevando o tom de voz e passando a proferir ofensas. Ela relata que foi alvo de ataques verbais, sendo desqualificada e insultada, com afirmações de que deveria ser 'internada em um hospital psiquiátrico' e de que seria uma 'péssima profissional'.
Após o episódio, o suspeito deixou o local gritando pelos corredores da universidade.
Funcionária terceirizada também foi alvo
Além das estudantes, uma funcionária terceirizada da UFPI, descrita como uma trabalhadora antiga e bastante querida pela comunidade acadêmica, também teria sido vítima de agressões verbais.
Segundo o relato, o suspeito foi agressivo com a funcionária, adotando uma postura desrespeitosa e ofensiva. A situação chamou a atenção da vice-diretora do CCHL, que se aproximou ao perceber a confusão. Nesse momento, de acordo com a estudante, o homem mudou de comportamento, baixando o tom de voz e passando a se dirigir de forma diferente.
Ainda conforme o depoimento, foi a própria trabalhadora quem questionou a mudança de postura ao notar a discrepância no tratamento. Ela teria indagado por que ele se dirigia de uma forma à diretora e de outra a ela. A partir desse momento, segundo o relato, ficou evidente a mudança de conduta do suspeito, que alternava o comportamento conforme a pessoa com quem falava, tratando a funcionária de maneira desrespeitosa, com falas que a diminuíam.
Ele tratava ela de forma totalmente diferente. Chegou a dizer que ela não era gente, que não era ser humano.
Suspeito se apresentou no evento
Um dos pontos que mais gerou revolta entre as vítimas foi o fato de que, mesmo após os episódios de agressão, R.F.M. teria sido autorizado a se apresentar no evento.
Mesmo depois de tudo, deixaram ele cantar. Ele saiu de cabeça erguida, recebeu aplausos. Foi horrível.
Medo e medidas legais
As vítimas informaram que buscaram atendimento ainda no mesmo dia na Sala Lilás da universidade, mas, devido ao horário — próximo das 17h — não foi possível formalizar os procedimentos naquele momento.
Segundo o relato, todas as mulheres que teriam sido agredidas — incluindo a funcionária terceirizada — decidiram procurar, de forma conjunta, a Casa da Mulher Brasileira no dia seguinte, quarta-feira (18), onde registraram o boletim de ocorrência. A universitária também confirmou a intenção de solicitar medidas protetivas.
De acordo com ela, a decisão foi motivada pelo receio diante de informações encontradas sobre o suspeito.
A gente colocou o nome dele no Google e a primeira notícia que aparece é que ele já foi indiciado por sequestro e assassinato de uma pessoa. Então, como ele já esteve preso por uma situação de violência, a gente tá assustada, tá com medo.

O caso foi registrado pela delegada Lucivania Carvalho Vidal e será apurado pela 6 Delegacia Seccional - Divisão 1. A natureza do b.o foi classificada no âmbito do § 1º do Art. 121-A (art. 140 c/c art. 141, § 3º do Código Penal Brasileiro, que trata do crime de injuriar mulher por razões da condição do sexo feminino, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro.
UFPI diz que adotou medidas e reforça ‘tolerância zero’
Em nota, a Universidade Federal do Piauí manifestou solidariedade às vítimas.
Confira a nota da UFPI na íntegra.
"A Universidade Federal do Piauí (UFPI) manifesta solidariedade às estudantes e à trabalhadora terceirizada vítimas de assédio por indivíduo estranho ao seu quadro institucional, em ocorrência registrada no dia 17 de março de 2026, no Centro de Ciências Humanas e Letras (CCHL). A UFPI declara, de forma expressa e inegociável, política de tolerância zero a qualquer forma de violência, assédio ou intimidação em seus espaços. Não há relativização possível. Não há condescendência. Qualquer conduta que viole a dignidade da pessoa humana será enfrentada com rigor institucional, responsabilização e medidas concretas de proteção.
Desde a ciência dos fatos, a Universidade adotou providências imediatas e articuladas, envolvendo a Direção do CCHL, o Departamento de Serviço Social, a Coordenação do Curso de Serviço Social e mediados pela Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis e Comunitários – PRAEC/Administração Superior, assegurando acolhimento às vítimas, encaminhamento às instâncias competentes e ativação dos mecanismos institucionais de resposta. Foram acionados os protocolos de acolhimento especializado por meio da Sala Lilás, realizado o encaminhamento à Casa da Mulher Brasileira para registro formal e suporte legal, comunicada a empresa terceirizada para garantir acompanhamento à trabalhadora envolvida, além do reforço das medidas de segurança no âmbito do CCHL.
Paralelamente, a Universidade promoveu diálogo com a comunidade acadêmica, no dia 18 de março, com foco direto no enfrentamento das violências de gênero e na consolidação de uma cultura institucional de prevenção e vigilância ativa.
A UFPI acompanha o caso de forma permanente e adotará todas as providências cabíveis."
O outro lado
Procurado, o homem negou as acusações e apresentou uma versão diferente.
Ele afirmou que sua participação no evento estava previamente agendada como parte da programação em comemoração aos 50 anos do curso de Serviço Social da UFPI e que atua há cerca de 40 anos em eventos acadêmicos e culturais, realizando apresentações em fóruns, conferências e seminários.
Segundo o entrevistado, ao chegar ao auditório, dirigiu-se ao palco para montar seus equipamentos, momento em que teria sido abordado por estudantes que questionaram sua presença no local.
Também fiquei surpreso com essa situação. Fui surpreendido pela abordagem de duas alunas questionando o motivo de estar ali.
De acordo com ele, uma das estudantes teria solicitado um instrumento musical emprestado, o que, segundo o relato, foi aceito sem objeções.
Ainda conforme sua versão, o conflito começou durante uma tentativa de cumprimento.
Quando fui cumprimentá-la então ela exclamou em voz alta e desrespeitosa que não ia me cumprimentar, pois ela não autorizara. Fiquei perplexo e pedi a ela então que não mais dirigisse a palavra para mim. Pedi licença e continuei.
Ele nega qualquer tipo de agressão e sustenta que realizou sua apresentação normalmente, sendo aplaudido ao final, e que deixou o local sem novos incidentes.
O homem também declarou que, ao chegar em casa, tomou conhecimento de publicações nas redes sociais que o acusavam de agressão, o que o levou a procurar medidas legais.
Já fiz a denúncia e estou aguardando a Justiça, por meio do Ministério Público.
Ao final, ele questionou as acusações e afirmou que, em sua versão, foram as estudantes que o abordaram de forma agressiva no local onde realizaria sua apresentação, o palco, que, segundo ele, já estava destinado à sua participação. Ele considerou a situação “estranha”, negou qualquer prática de assédio ou agressão e demonstrou preocupação com possíveis impactos à sua imagem pública, destacando sua atuação como músico, assistente social e pai de família.
Por fim, ele reforçou que sua intenção no evento era apenas realizar uma homenagem.
O Caso segue sob investigação.
(*) Isabel Fonseca é estagiária de Jornalismo sob supervisão do jornalista Gilson Rocha.
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