Maria Inês Mendes Fortes, sobrinha do primeiro-secretário do Senado, senador Heráclito Fortes (DEM-PI), foi uma das indicadas para trabalhar no I Censo do Legislativo realizado pelo Interlegis em 2005. A turismóloga é filha de Jayme Fortes, irmão do senador do DEM e que comanda o gabinete do senador do Piauí em Teresina. Jayme confirmou a contratação da filha pelo Interlegis, mas informa que ocupa a função mesmo sem ser contratado como funcionário comissionado pela Casa.O curioso perfil exigido pelo Interlegis para a contratação de recenseadores levava em conta se o candidato tinha boas relações políticas. Nisso, a parenta de Heráclito Fortes se encaixava, assim como os parentes do ex-diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, e do então primeiro secretário e colega de partido de seu tio, o senador Efraim Morais (DEM-PB). Foi o que revelou com exclusividade o Congresso em Foco nas duas primeiras reportagens sobre o Censo do Legislativo.Mas a então estudante do ensino médio não tinha um dos requisitos considerados importantes pelo programa do Senado, que era possuir curso superior. A sobrinha de Heráclito também disse ao site que não se recorda quanto recebeu para fazer as pesquisas em 25 câmaras municipais em cidades do Piauí, principalmente no sul do estado e mais 15 municípios no Oeste da Bahia.Maria Inês garante que fez uma inscrição para participar do censo. "Fiz uma inscrição, mas agora não me lembro onde era", diz."Amargas lembranças"Por meio de sua assessoria, Heráclito Fortes também confirma a indicação da sobrinha para o trabalho e a versão de que ela soube sozinha da oportunidade de trabalho temporário. "Foi a própria Maria Inês quem descobriu, por um colega, que o recrutamento estava sendo feito e se inscreveu. Somente depois disso, ela comunicou o fato ao senador Heráclito, que endossou a indicação junto ao senador Efraim", diz a nota de sua assessoria.O primeiro secretário também lembrou que tem "amargas lembranças" da participação de sua sobrinha no censo, pois, segundo o senador, "nas andanças da Maria Inês pelo interior, ela bateu o carro e ele acabou ajudando-a a pagar o conserto."O senador do Piauí defende na mesma nota a escolha de Maria Inês pelo Interlegis apesar de não possuir na época cursos superior, como informa o Interlegis em documento em que detalha como foi feito o recrutamento."Maria Inês preenchia todos os requisitos, inclusive por ter trabalhado no cerimonial do Governo do Estado, ocasião em que teve contato com políticos de todos os partidos e municípios. Era, portanto, capacitada para o trabalho, que foi feito com todo o rigor.""Não respondeu"O primeiro secretário do Senado também acredita na qualidade do censo dizendo que "o trabalho foi auditado e aprovado". Mas apesar das declarações do senador do DEM, que também é o atual presidente do Interlegis, o Congresso em Foco encontrou várias evidências que contradizem as informações prestadas pelo Senado na última quarta-feira (10).Nos dados do censo aos quais o site teve acesso aparecem 129 cidades onde no lugar do pesquisador o campo do arquivo contém a expressão "não respondeu". Outras 32 cidades tiveram questionários aplicados em novembro de 2006, sete meses após o anúncio feito oficialmente pelo Senado de que o censo fora concluído. Dessas cidades, 21 delas tiveram os próprios funcionários das câmaras figurando como pesquisadores e responsáveis pelas informações contidas nos questionários."De certeza eu não recebi ninguém aqui. Recebi o questionário por e-mail e devolvi respondido no mesmo dia", disse ao site funcionária da Secretaria Legislativa da Câmara Municipal de Piranguçu (MG). A informação da funcionária pode ser confirmada com os dados aos quais a reportagem teve acesso e que mostram que o questionário foi enviado e respondido no mesmo dia: 27 de novembro de 2007. O Senado informou que todas as mais de 5 mil câmaras municipais foram visitados pessoalmente pelos recenseadores."Fiquei no prejuízo"O ex-vereador do município gaúcho de Jóia, Peri da Silva Escobar, informou ao site que recebeu R$ 21 mil para fazer o censo em 18 cidades da região das Missões no Rio Grande do Sul. Esse valor, segundo ele, seria apenas metade do prometido pelo Interlegis. Peri disse que foi obrigado a refazer o levantamento em todas as cidades, pois o Interlegis considerou que ele tinha induzido respostas nos questionários."Fiquei no prejuízo e, além de não pagar a segunda parte do pagamento, eles me ameaçaram dizendo que teria que devolver dinheiro e que, se não fizesse, entraria na dívida da União. Tive que arrumar advogado e fazer um recurso. Depois que mandei o documento em 2007, nunca mais fui procurado pelo Interlegis", reclama o ex-vereador.O valor total prometido ao pesquisador do Rio Grande do Sul, de R$ 42 mil, contradiz a informação do Senado de que as 231 pessoas recrutadas receberam em média R$ 2,3 mil durante o treinamento em Brasília e mais cerca de R$ 9 mil para o trabalho de campo.Além disso, os pagamentos às pessoas físicas não fazem parte do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi) já que o parceiro do Senado no Interlegis, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), disse que não colocou recursos no censo.Explicação do SenadoProcurada pelo Congresso em Foco, a assessoria de comunicação do Senado não deu maiores explicações sobre a contratação de parentes de políticos e diretores da Casa para fazer o censo. De acordo com a assessoria, o valor total do levantamento teria sido de R$ 2,7 milhões. Teriam sido treinadas cinco turmas, responsáveis por cada macrorregião brasileira. O custo médio per capita teria sido de R$ 2,3 mil, num total, para o treinamento, de R$ 492,2 mil. Para a digitação dos formulários, informa a assessoria do Senado, houve um gasto de R$ 44,9 mil, custeado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Finalmente, a coleta propriamente dita dos dados, com pagamento de hospedagem, alimentação e deslocamento de 231 recenseadores teria custado R$ 2,1 milhões.O Senado garante que o censo passou por 5.562 municípios, 26 Assembleias Legislativas e pela Câmara Legislativa do Distrito Federal. Sobre a contratação de parentes, limita-se a dizer a assessoria: "A equipe de campo foi montada a partir de convocação feita aos legislativos locais com base nos seguintes critérios: escolaridade igual ou superior ao ensino médio, experiência em trabalhos de campo no legislativo local e disponibilidade para viagens".A assessora de Relações Externas do BID, Janaina Goulart, informa que o Censo do Poder Legislativo teria sido pago inteiramente pelo Senado. Diz ela, em mensagem enviada ao site: "Cumpre-nos informar que o primeiro Censo do Poder Legislativo foi realizado pelo Interlegis com recursos próprios do Senado Federal, originários da contrapartida da União". A informação, no entanto,é contraditória com o que afirmou o então presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), em reportagem da Agência Senado do dia 5 de abril de 2006. Na ocasião,Renan disse que as despesas do censo foram divididas de forma parelha entre o Senado e o BID, 50% para cada um.O Interlegis prepara-se para fazer um segundo Censo do Legislativo. Apesar de ressaltar que as despesas e os atos relativos ao censo sofreram auditoria da Controladoria Geral da União, que tudo teria aprovado, a assessoria de comunicação informa que, para a realização do segundo Censo do Legislativo, "as equipes de campo serão montadas pela empresa ou empresas vencedoras do certame licitatório".
Fonte: Congressoemfoco