Ex-militares do Piauí que combateram guerrilheiros no Araguaia agora lutam na Justiça por reintegração ao Exército e direito a uma aposentadoria, quase 36 anos após terem deixado a região e as Forças Armadas. Além do benefício, eles também querem uma indenização por danos morais, por considerar que foram tão vítimas quanto os guerrilheiros.A guerrilha do Araguaia foi um dos episódios mais sombrios da história brasileira. Militantes do PC do B foram ao Norte do país para formar um grupo armado que combatesse o regime militar. Os combates se deram entre 1972 e 1974.Até hoje, corpos dos guerrilheiros mortos continuam desaparecidos. Calcula-se que foram à mata cerca de cem guerrilheiros, que enfrentaram algumas centenas de militares.Agora os ex-militares alegam que não eram oficiais, apenas recrutas do serviço obrigatório, e que não estavam no Araguaia porque queriam."Logo que chegamos lá, fomos avisados de que ou matávamos ou morríamos. Não tivemos escolha", diz o presidente da Associação Brasileira dos Ex-Combatentes do Araguaia no Piauí, João Batista de Oliveira, 59. "Fomos vítimas, até mais do que os guerrilheiros, porque fomos enganados", afirma. "Que reconheçam que não somos carrascos. Os carrascos eram os generais."São cerca de cem ex-militares do Piauí que entraram com uma ação, em fevereiro, na Justiça do Distrito Federal. Ex-combatentes de outros Estados (Pará, Goiás e Espírito Santo) também se mobilizam pelos mesmos benefícios pela via judicial, já que não tiveram êxito na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça.À Folha, nove desses ex-militares do Piauí contaram histórias semelhantes.Disseram que prestaram o serviço militar obrigatório e que, já perto do encerramento, pensavam que iriam fazer apenas mais uma manobra regular. Só no meio da viagem até Xambioá (TO), quando passavam por Grajaú (MA), é que ficaram sabendo que se tratava de um combate real."Só soube quando entregaram munição real para a gente. Se fosse só uma manobra, aquilo não era necessário", diz Raimundo Pereira dos Santos, 56.O advogado que representa os ex-militares piauienses, Elmo Santos Sampaio, 63, defende ainda moradores da região onde aconteceram os combates, que também sofreram com torturas e mortes, e ex-guerrilheiros que ainda não conseguiram ser indenizados.A diferença, porém, é que tanto os moradores como os guerrilheiros estão pleiteando as reparações no Ministério da Justiça, que tem uma comissão especificamente para estudar isso. No caso dos militares, o papel desempenhado por eles não se enquadra entre os contemplados pela lei 10.559, a chamada Lei da Anistia.Ordem de matarPróximos ao rio Araguaia, em uma área de mata fechada, os ex-militares dizem ter ficado em grupos separados, de 13 a 15 homens cada um, interconectados por um sistema de rádio, de onde vinham as ordens."Ainda hoje lembro os dizeres da transmissão: "É para calcinar o cipó". Calcinar era matar, cipó eram os guerrilheiros", afirma Guilherme Xavier Neto, 60, que hoje é deputado estadual pelo PR do Piauí.Apesar dos relatos de que havia ordens para matar, os ex-combatentes entrevistados negam ter feito isso ou torturado qualquer guerrilheiro. Eles dizem que a violência era produzida pelos oficiais de carreira do Exército."Vi muitos que ficavam sem as unhas, sem parte da orelha, fracos de tanto perder sangue nos interrogatórios", diz Oliveira. "Quando um era morto, o corpo era pendurado no helicóptero num saco de estopa e exibido na cidade, para fazer medo. Depois, enterrado numa cova rasa ou jogado no rio. Com certeza, a maioria dos que ainda buscam corpos de parentes não vai encontrar nada."
Fonte: Folha