o advogado de Daniel Dantas, Nélio Machado, ameaçou divulgar supostos documentos contra o PT e atribuiu a prisão do banqueiro à guerra entre o Opportunity, fundos de pensão ligados a estatais, e a Telecom Itália pelo controle da empresa de telefonia Brasil Telecom.Em entrevista à Folha, Machado afirmou que o empresário teria sofrido pressão do governo e de pessoas do PT sobre a disputa pelo controle da companhia telefônica. Segundo o advogado, Dantas entregou vários documentos à Justiça de Nova York como parte de sua defesa em ação judicial movida contra ele pelo Citigroup, nos EUA.A ação foi extinta em abril, quando Citi e Opportunity fizeram acordo judicial para viabilizar a compra da Brasil Telecom pela Oi. "Não medirei esforços em trazer à baila tudo o que eu reputar relevante para preservar direitos básicos do meu cliente".A ameaça de divulgação de documentos contra o PT foi recebida com ceticismo por executivos ligados à Brasil Telecom. A documentação que Dantas entregou à Justiça norte-americana, segundo eles, conteria acusações, sem provas, de tentativa de extorsão, e recortes de textos de jornais.O grupo Opportunity foi fundado por Dantas em 1993. O banqueiro ganhou notoriedade ao se associar ao Citigroup para criar o consórcio que venceu a concessão de telefonia que criou a Brasil Telecom. Depois iniciaram uma disputa societária que só terminou com a venda da empresa para a Oi (ex-Telemar) no início deste ano. Durante essa disputa foi acusado, entre outras coisas, de espionagem.PrisõesOntem, Dantas, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o investidor Naji Nahas foram presos pela Polícia Federal durante a Operação Satiagraha. A ação investiga suposta prática dos crimes de lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, evasão de divisas, formação de quadrilha e tráfico de influência para a obtenção de informações privilegiadas em operações financeiras.Os policiais cumpriram 24 mandados de prisão e 56 de busca e apreensão nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e em Brasília. Os mandados foram expedidos pela 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo."Essa organização criminosa tinha como seu líder o Daniel Dantas", disse Protógenes Queiroz, delegado da Polícia Federal responsável pelas investigações. "Nós nos deparamos, primeiramente com um grupo de pessoas e depois com uma organização criminosa muito bem estruturada", reiterou.O Ministério Público Federal acusa o grupo do banqueiro Daniel Dantas de ter movimentado, entre 1992 e 2004, quase US$ 2 bilhões por meio do Opportunity Fund, uma offshore no paraíso fiscal das Ilhas Cayman, no Caribe.Segundo a Procuradoria, além de evasão de divisas e formação de quadrilha, as investigações apontam que o grupo de Dantas teria cometido também gestão fraudulenta, concessão de empréstimos vedados (empréstimos entre empresas do mesmo grupo) e corrupção ativa.Nahas chegou por volta das 22h desta terça-feira (8) à carceragem da PF na zona oeste de São Paulo. Para o mesmo local foram levados Dantas e Pitta. Os três ficarão em celas separadas.DefesaO advogado de Dantas entrou ainda contem com habeas corpus no STF para libertar o banqueiro e negou ligação direta de Dantas com Nahas e Pitta.Machado admitiu que Nahas prestou serviços à Telecom Itália na disputa judicial entre a empresa e a Brasil Telecom. O advogado disse ainda que não há motivos para que Dantas seja preso por supostas ligações com o esquema do mensalão."Se houvesse alguma ligação do meu cliente com o mensalão, ele teria sido denunciado pelo STF", observou. Machado, no entanto, admitiu que Marcos Valério intermediou contratos de publicidade com a Telemig e a Brasil Telecom.Nem o advogado de Celso Pitta nem o do investidor Naji Nahas se pronunciaram até a publicação desta reportagem.InvestigaçõesSegundo a PF, as investigações começaram há quatro anos, com o desdobramento das apurações feitas a partir de documentos relacionados com o caso mensalão. A partir de documentos enviados pelo STF (Supremo Tribunal Federal) para a Procuradoria da República no Estado de São Paulo, foi aberto um processo na 6ª Vara Criminal Federal.Na apuração foram identificadas pessoas e empresas supostamente beneficiadas no esquema montado pelo empresário Marcos Valério para intermediar e desviar recursos públicos. Com base nas informações e em documentos colhidos em outras investigações da Polícia Federal, os policiais apuraram a existência de uma organização criminosa, supostamente comandada por Daniel Dantas, envolvida com a prática de diversos crimes.Para a prática dos delitos, o grupo teria possuído empresas de fachada. As investigações ainda descobriram que havia uma segunda organização, formada por empresários e doleiros que supostamente atuavam no mercado financeiro para lavagem de dinheiro. O segundo grupo seria comandado pelo investidor Naji Nahas.Além de fraudes no mercado de capitais, baseadas principalmente no recebimento de informações privilegiadas, a organização teria atuado no mercado paralelo de moedas estrangeiras. Há indícios inclusive do recebimento de informações privilegiadas sobre a taxa de juros do Federal Reserve (Fed, o BC americano).Os presos na operação devem ser indiciados sob as acusações de lavagem de dinheiro, corrupção, evasão de divisas, sonegação fiscal e formação de quadrilha. Eles serão transferidos para São Paulo, onde permanecerão na carceragem da Superintendência Regional da PF.A operação conta com a participação de 300 policiais.
Fonte: Folha Online