A juíza de plantão no Tribunal de Justiça do Rio decretou nesta madrugada a prisão temporária, por 30 dias, de 11 militares do Exército. O pedido foi feito pelo delegado Ricardo Dominguez, da 4ª DP (Central do Brasil), que apura o envolvimento desses militares com o homicídio de três jovens detidos no sábado no Morro da Providência. Os 11 militares são acusados de terem entregue três moradores do Morro da Providência a traficantes do Morro da Mineira, no Catumbi, controlado por uma facção rival do tráfico de drogas. Os corpos dos três moradores foram encontrados neste domingo no Aterro Sanitário de Gramacho, em Duque de Caxias, com diversas marcas de tiros. De acordo com o delegado, todos os 11 militares - entre eles um oficial, três sargentos e sete soldados - serão indiciados por triplo homicídio. Em depoimento, alguns dos militares teriam confessado o crime. Ainda segundo o delegado, os 11 militares estão presos administrativamente no Comando Militar do Leste (CML). Funcionários do Instituto Médico-Legal (IML) de Duque de Caxias informaram que os corpos dos três jovens foram examinados e liberados. Eles serão transferidos na manhã de segunda-feira para o Cemitério São João Batista, em Botafogo, onde serão enterrados. Ainda não há horário marcado para os sepultamentos e não se sabe se os corpos serão velados. Morador confirma participação de militaresUm morador da área da Mineira, localizado pelo GLOBO, mas que pediu anonimato, contou em detalhes a ação em que militares do Exército teriam entregado, anteontem, três jovens do Morro da Providência a traficantes da favela do Catumbi. Segundo a testemunha, cerca de dez soldados fardados e armados com fuzis, como se estivessem em serviço, chegaram com os rapazes a um dos acessos da Mineira, num caminhão do Exército. Logo em seguida, os soldados teriam dado ordens para os três descerem do veículo. Pelo menos seis militares acompanharam calmamente os jovens até um grupo de traficantes, que já aguardava numa das entradas da favela onde haveria uma boca-de-fumo. De acordo com o morador, foram 15 minutos de terror, que começou às 11h: O morador afirma ainda que um dos rapazes tentou fazer uma ligação por celular, mas foi impedido por um dos traficantes, que exigiu o aparelho e outros pertences, como um cordão. Um outro jovem também tentou fugir, mas foi rapidamente dominada e levado com os outros para o alto da favela, aos gritos de que iam matá-lo. Por volta das 11h, a denúncia chegou à polícia, mas só às 17h um blindado foi visto circulando na comunidade. Moradores fizeram protesto contra militaresParentes de Wellington Gonzaga Costa, de 19 anos, Marcos Paulo da Silva, de 17, e David Wilson Florêncio da Silva, de 24, acusaram os militares de terem seqüestrado os três e os entregado aos traficantes. Em protesto contra a morte dos jovens, cerca de 150 moradores da Providência resolveram ir a pé da Praça do Santo Cristo até o Comando Militar do Leste (CML). (Veja fotos do protesto dos moradores da Providência) No sábado, após a notícia do sumiço dos rapazes, moradores atearam fogo em um ônibus e depredaram outros nove, na Zona Portuária do Rio. O Comando Militar do Leste informou que três suspeitos foram detidos por desacato e levados ao comandante da tropa. Segundo o Exército, eles foram liberados depois de ouvidos. A partir daí os soldados não teriam tido mais contato com os três. Os rapazes foram vistos por moradores na madrugada de sábado voltando de uma festa. Testemunhas dizem que eles foram abordados por soldados e um dos jovens teria reagido. Os três, então, teriam sido agredidos pelos militares. Ao chegarem ao morro pela manhã de sábado, a polícia e o Exército entraram na comunidade e começou um tiroteio por cerca de 20 minutos. Os manifestantes queimaram o coletivo na altura do viaduto que dá acesso à comunidade de Santo Cristo. Alguns moradores ficaram feridos por estilhaços de bombas. Há marcas de tiros nas paredes, nos carros e em muros de casas. A Polícia Militar foi chamada para reforçar a segurança. No fim da tarde, houve mais tumulto e uma pessoa foi presa. Uma moradora disse que conversou com o capitão do Exército responsável pelo patrulhamento no morro. Ele teria explicado o que aconteceu com um dos meninos. - Me garantiu que ele ficou lá uma hora só para tomar uma dura, um corretivo porque ele estava exaltado. Depois de uma hora, botaram ele no jipe e deixaram ele na Presidente Vargas - disse a mulher que preferiu não se identificar. Desde dezembro do ano passado, cerca de 200 homens do Exército ocupam o Morro da Providência. Eles são responsáveis pela segurança de um projeto do Governo Federal para a revitalização de casas do morro. Parentes dos três rapazes desaparecidos foram ouvidos na delegacia do Centro.
Fonte: Globo