A crise do sistema de segurança pública do País tem provocado situações inusitadas. Para garantir melhorias estruturais e melhores condições de trabalho, um grupo de delegados de Goiás decidiu driblar a burocracia e agir por conta própria. Em Aparecida de Goiânia, na região metropolitana da capital, os delegados pretendem resolver o problema em ritmo de forró e promoverão na próxima quarta-feira, dia 27, uma noite festiva em uma boate local. O objetivo será arrecadar fundos para garantir o término construção de uma sede que abrigará a 2ª Regional de Polícia e a Depai (Delegacia de Polícia de Apuração de Atos Infracionais). Entre as atrações estão Ivis e Carraro, Raffa do Forró, Banda Atlanta e DJ Eduardo Porto.Precariedade "As duas unidades funcionam em prédios alugados pela prefeitura de Aparecida de Goiânia. Com a nova sede, além de melhorar a estrutura de funcionamento da polícia, também haverá redução de despesas para o município", ressaltou o delegado Álvaro Cássio, titular da Segunda Regional e responsável pelas delegacias de todas as cidades do entorno de Goiânia.A iniciativa dos delegados foi uma alternativa à burocracia para a construção da obra pelas vias normais. "Tudo começou em 2004, quando um delegado foi nomeado para a Delegacia de Proteção à Infância e Juventude, que até então não existia. Tínhamos o delegado, mas não tinha a delegacia. Esperamos até setembro de 2007. Daí, diante da burocracia, decidimos assumir a construção por conta própria."Com a festa, o delegado espera arrecadar pelo menos R$ 50 mil. O valor, segundo ele, deve ser suficiente para a conclusão da obra, que já está bem adiantada. O detalhe é que até agora toda a construção contou apenas com doações, da prefeitura e de empresários. "Primeiro ganhamos o terreno, o projeto e a mão de obra da prefeitura. Com um jantar que realizamos no ano passado, conseguimos comprar materiais. Agora, a obra já está bem adiantada", resume Álvaro.Os ingressos já estão à venda e custam R$ 30 reais para pista e R$ 200,00 a mesa com quatro lugares. Também foram disponibilizados camarotes, vendidos a até R$ 2 mil cada. "Para garantir segurança é preciso de dinheiro. Por isso idealizamos esse evento. E até o final de maio queremos estar com o prédio pronto", disse o delegado.Entre as duas delegacias, a situação mais grave é a DEPAI, que funciona numa casa sem qualquer estrutura. Não tem celas e nem mesmo um espaço adequado para o atendimento de menores enquanto é feita a ocorrência. Com isso, a maioria dos casos são encaminhados para 1º Distrito Policial. "A falta de vagas é um problema já conhecido de todos. E com a demanda da Depai, muitas vezes menores ficam detidos com adultos", admite a delegada Emília Glock, titular do 1º DP.A situação de precariedade não é problema exclusivo de Aparecida de Goiânia. Outras delegacias goianas passam por problemas sérios de estrutura. Chegou ao ponto de integrantes da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Sistema Carcerário propor a desativação de algumas delas, como as cadeias de Formosa e Planaltina. Ambas estão localizadas no entorno do Distrito Federal, uma das regiões mais violentas do País.Uma situação semelhante foi verificada na cadeia de Planaltina de Goiás, onde a CPI encontrou mulheres nos mesmos pavilhões de homens, celas com número maior de presos do que sua capacidade, condições de higiene precárias e banho de sol prejudicado pela superlotação da cadeia.Além disso, o deputado Neucimar Fraga (PR-ES), afirmou que a CPI vai procurar autoridades do governo goiano e sugerir que seja feito um mutirão, com a participação da Defensoria Pública, para analisar a situação dos presos no Estado.A situação no Estado é definida como grave pela presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de Goiás (Sindipol), Darlene Araújo. "Muitas delegacias precisam de estrutura mínima de funcionamento. São problemas estruturais, infiltrações e também falta absoluta de espaço para policiais, delegados e presos", ressaltou. Ela exemplifica a delegacia de Formosa, onde a delegacia funciona em meio a mato numa rua que nem asfalto tem.A Secretaria de Segurança Pública de Goiás informou, através de nota que realmente não tem participação na construção das delegacias em Aparecida de Goiânia e que até agora o Estado não fez qualquer investimento na obra. Entre delegacias e postos de atendimento da polícia civil, Goiás conta com 417 unidades.Com relação à situação das demais delegacias do Estado, a secretaria informou que fez reforma em várias delas em 2007 e que o trabalho terá continuidade esse ano. Mas, apesar das insistentes solicitações da reportagem do UOL, a assessoria de imprensa não quis repassar informações a respeito do orçamento da secretaria e nem o total de investimentos na melhoria estrutural das delegacias em 2007. A solicitação de entrevista ou nota de retorno foi feita no final da manhã e até o fim do expediente da Secretaria, às 18h, não houve resposta.
Fonte: UOL