ENTREVISTA
Dulce Luz
24 de fevereiro de 2026 às 18:50 ▪ Atualizado há 1 mês
O escritor Lucas Villa, mais conhecido por sua trajetória na poesia, acaba de estrear em um novo gênero: o romance. Com Bestiário, publicado pela editora paulista Patuá, ele se aventura pela primeira vez na prosa longa e veio contar essa experiência no programa Simboracast, podcast gravado no estúdio do Portal Piauí Hoje e apresentado pelo professor Wellington Soares.
Durante a conversa, Villa revelou que a estreia no gênero era um desejo antigo, mas que enfrentou dificuldades para concretizá-lo. "Eu já tinha, no passado, duas vezes iniciado a escritura de romances e acabei abandonando pelo meio do caminho. Dessa vez eu coloquei na minha cabeça que eu ia até o final", confessou.
O escritor explicou que o desafio foi ainda maior por vir da poesia, um gênero no qual ele está acostumado a trabalhar cada palavra com precisão cirúrgica. "A gente fica querendo trabalhar cada frase, cada palavra, cada sílaba tônica caindo no lugar que a gente gostaria que ela caísse. Quando a gente vai fazer isso num trabalho de maior fôlego, mais longo, acaba sendo bastante trabalhoso", disse.

Bestiário conta a história de dois personagens principais com visões de mundo opostas. De um lado, Adeodato, um cirurgião que perde a família em um acidente de carro e abandona a medicina para se dedicar à taxidermia, fazendo um pacto com a morte. De outro, Ariadne, uma artista plástica hedonista que vive em busca do prazer e acredita na eternização por meio da arte.
"Adeodato chega à conclusão de que a medicina é uma ciência cujo objeto ele não acredita mais, porque a medicina seria a tentativa de prolongar indefinidamente a morte. Ele resolve abandonar essa ciência para abraçar a taxidermia, para não mais tentar lutar contra a morte, mas para fazer um acordo com ela", detalhou Villa.
O elo entre os dois personagens é Diógenes, irmão de Adeodato, descrito pelo autor como "o canalha carismático do romance". A trama se passa em Teresina e tem como cenário um casarão abandonado localizado na Avenida Presidente Kennedy, que realmente existe e está vazio.
Para conseguir concluir o livro, Villa precisou se impor uma rotina rigorosa de escrita, mesmo conciliando com a carreira de advogado, professor e as demandas da OAB e da família. "Eu me policiei para escrever um capítulo por dia, religiosamente. O livro tem 40 capítulos, divididos em quatro partes. Quando eu concluía dez, passava dois dias planejando os dez seguintes e depois voltava a escrever um por dia", contou.
A presença da filosofia, área em que Villa também atua como pesquisador, é marcante na obra, mas ele fez questão de dosar para não afastar o leitor. "Isso aproxima certos tipos de leitor e talvez afaste o que eu gosto de chamar de leitor preguiçoso. É justo, eu também às vezes gosto de um bom romance de entretenimento. Mas para o tipo de leitura que eu costumo escrever, tentei encontrar a justa medida", explicou.

Ao longo da entrevista, Villa também apresentou suas obras anteriores, como os livros de poesia Ática, Visceral e Considerações de um Próton, publicados em 2004, e Anamorfose, lançado pela Editora Nova Aliança. No ano passado, ele foi convidado para integrar a coleção Literatura Piauiense da Academia Piauiense de Letras com a antologia Miríades. Atualmente, finaliza um novo livro de poemas, provisoriamente intitulado Meus Mortos, Meus Iguais.
Questionado por Wellington Soares sobre a possibilidade de concorrer a uma vaga na Academia Piauiense de Letras, aberta com o falecimento do poeta Alvino Pacheco, Villa não escondeu o interesse. "Tenho uma admiração enorme pela casa. Tenho sim, muito desejo de um dia estar lá. Gostaria de concorrer a uma vaga, pelo respeito que tenho pela casa e pela vontade de colaborar com a cultura e com a história dessa instituição", declarou. "Meu nome está à disposição. Minha obra está aí para avaliação."
Além da produção literária, Villa possui livros nas áreas do direito e da filosofia, como Estratégia de Ser Ministro, publicado pela Lumen Juris, e O Demônio de Etnia: Helenismo, Eterno Retorno e a Ética do Cuidado de Si, de 2012. Ele também é pós-doutor pela Universidade de Hamburgo, na Alemanha.
Bestiário pode ser adquirido pelo site da Editora Patuá e na Amazon. O programa Simboracast vai ao ar semanalmente com debates sobre literatura, arte e cultura, sempre recebendo escritores e artistas para conversas aprofundadas sobre o cenário cultural piauiense e nacional.
Veja a entrevista completa no canal do Portal Piauí Hoje no Youtube, clincando abaixo:
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