PODCAST MULHER MAIS
Natalia Costa
28 de abril de 2026 às 10:39 ▪ Atualizado há 2 horas
A psicóloga Elizandra Pires, ex-coordenadora por nove anos do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), desenvolveu um manual de intervenção em grupo voltado especificamente para mulheres usuárias de substâncias psicoativas.
A psicóloga concedeu entrevista ao podcast Mulher Mais na quinta-feira (16). O material, que serve para profissionais de saúde, assistência social e educação, foca na identificação de traumas e no acolhimento em grupos de mulheres.

A psicóloga destacou que, durante a aplicação do manual, muitas mulheres só conseguiram identificar que viviam situações de violência patrimonial ou sexual após as dinâmicas de grupo. O acolhimento entre permite que a dor seja validada sem o peso do julgamento machista.
A gente não pode falar só de tratamento... a gente tem que buscar prevenção: prevenir a misoginia, a violência sexual e o feminicídio.
O vínculo entre trauma e consumo
O uso de substâncias por mulheres raramente é um ato isolado de busca por prazer, na maioria das vezes, é uma tentativa de anestesia.
A psicóloga destaca que traumas de infância, abusos sexuais e violência doméstica são os principais preditores do uso abusivo de drogas. "Nós, mulheres, estamos buscando meios de ficar anestesiadas para fugir da dor", afirmou.
O consumo de álcool tem crescido exponencialmente, especialmente entre jovens de 15 a 32 anos e houve um aumento de 17% no uso de benzodiazepínicos (calmantes) entre mulheres nos últimos dez anos. A profissional também alertou para o uso de opioides e anfetaminas, muitas vezes prescritos por médicos, que criam uma dependência silenciosa e devastadora.
Por que as mulheres não chegam ao tratamento?
Segundo a psicóloga Elizandra Pires, enquanto o CAPS atende cerca de 11 mil pacientes, apenas 150 são mulheres.
A especialista explica que o modelo de tratamento atual é estruturalmente masculinizado. "Como uma mulher que sofreu abuso sexual vai se sentir segura para falar de sua dor em um grupo com 20 homens?", questionou.
A barreira do julgamento moral e a culpabilização social, especialmente sobre o papel da mãe, impedem que essas mulheres busquem ajuda.
Diferente do que muitos acreditam, a dependência em mulheres não é igual à dos homens. A psicóloga explicou que, devido a questões metabólicas e hormonais, as mulheres desenvolvem dependência de forma mais rápida, as complicações de saúde (problemas cardíacos e gastrointestinais) surgem mais cedo e com maior gravidade. O mesmo volume de álcool consumido por um homem causa um dano proporcionalmente maior no organismo feminino.
Assista o episódio completo: