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Feita pra apanhar, boa de cuspir: a travesti, o suicídio e o prédio público

Teresinha

19 de janeiro de 2017 às 14:01


Geni era travesti. A de Chico Buarque e aquela que, nessa semana, igualmente travesti, também feita pra apanhar e pra cuspir, tentou se atirar do sétimo andar da nova sede do Ministério Público do Estado do Piauí (MPE/PI). Foi resgatada por dois servidores. Em seguida, encaminhada para tratamento psicológico. A nova sede está localizada num prédio novo e muito bonito. Contaram-me que se trata de um "prédio inteligente". Há vidraças na fachada. Nem parece coisa do Piauí, o lanterninha da modernidade no país. Vidros por todos os lugares. Há elevadores modernos e espaçosos, inclusive alguns exclusivos (para procuradores). Coisa chique, coisa de casta. Não por acaso, mudou-se do centro da cidade para a área nobre, com difícil acesso às classes populares. 

Geni, após ser atendida na promotoria que a acompanhava, apesar de ser bem acolhida nesse setor, decidiu atirar-se. Foi contida, mas não salva. Num suspiro aliviado, tentou até sorrir. Mas não foi salva das risadas e olhares inquisitórios enquanto transitava pelo prédio. Alegou que não aguentava mais. Os murmúrios não foram contidos pelo prédio pomposo. Um comentário aqui, outro acolá: se tivesse conseguido finalizar a sua intenção, teria manchado a imagem do prédio novo, diziam. Uma pena. O prédio branco e inteligente ocuparia as manchetes, não mais pela pompa, mas por uma travesti. Maldita, Geni! Mas, ora, não se fala em suicídio no estado cujos índices superam a média nacional. Fora isso, quem choraria pela travesti? Quem se importaria? Logo ela, a boa de cuspir. O prédio é inteligente, mas não chora. E não chorou, como não chora a maior parte dos serviços públicos, os quais ainda são tão reativos à gente preta, pobre, viado, trans, etc. E Geni é preta, puta, pobre, moradora de rua, cheia de sangue carregado. E sempre anda com fome. Fome de quê, Geni?

Em que pesem haver pessoas sensíveis dentro desses espaços, como me certifiquei com a equipe que a acompanhou, é preciso ser dito: a discriminação é regra. Nessa semana, recebi um convite de formatura de um amigo que está se formando em medicina numa universidade pública. Ele me contou que não teve, nos seis anos de curso, qualquer menção à temática trans e disse que, se recebesse alguém como Geni, não saberia como atendê-la. E bradou, quase em protesto, que nenhuma pessoa trans procurou atendimento durante os estágios que realizou em hospitais públicos. Culpa delas, óbvio. Apertei o convite sobre a mesa do restaurante e perguntei-lhe se aquela turma da foto, a mais nova turma de medicina do estado, em 2017, sairia para as ruas sem poder auxiliar efetivamente uma pessoa trans, alguém como Geni. Não era rentável para a medicina, respondeu-me. Concluí a conversa agradecido pelo convite, feliz pela formatura, mas com um gosto acre de estranhamento dessa realidade tão abjeta. Os comentários que chegaram até a mim no MPE/PI reiteram a questão. Não há rentabilidade. Isso nos ajuda a entender a expectativa de vida de miseráveis 35 anos dessa população.

O silêncio que mata. A cidade que dorme e acorda em cantoria, nos murmúrios, nas minúcias dos comentários, que não vão deixar Geni dormir. Nem viver. Mas vale a pena ficar, Geni. Vamos desafinar essa cantoria do prefeito, do bispo de olhos vermelhos, do banqueiro com um milhão, como diz a letra de Chico. Vamos apavorar a cidade! E devolver a bosta que nos jogam cotidianamente, que tira a esperança na vida. Há vida nas dobras desse campo minado. Nós vamos pintar um quadro histórico com o grito: nenhuma LGBT a menos. Nem de morte matada, nem de morte morrida, nem de vida ceifada com as próprias mãos. Não cabemos em caixões, nem em parcelas de cartão algum. Continuaremos indigestos. Nenhuma LGBT a menos. Nenhuma. Fica, Geni. Fiquem. Fiquemos. 

* Lourival de Carvalho, piauiense, militante LGBT, advogado OAB/DF e mestrando em direitos humanos pela Universidade de Brasília (lourivaldecarvalho@gmail.com

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