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LUTA PELA TERRA

Povos indígenas Akroá-Gamella lutam por terra e visibilidade no Piauí, diz cacica Dan

Em meio à maior feira de agricultura familiar do Piauí, a cacique cacica Dan denuncia conflitos agrários, contaminação por agrotóxicos e pede a demarcação de seus territórios

Da Redação

02 de julho de 2026 às 13:39 ▪ Atualizado há 1 hora

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  • Cacique Dan, líder dos Akroá-Gamella, destaca a resistência dos povos indígenas no sul do Piauí.
  • Principais desafios incluem conflitos de terra e contaminação por agrotóxicos.
  • Processo de demarcação de terras iniciado em 2018 ainda está travado, intensificando a grilagem e a violência.
  • Cacique Dan também atua como pajé e denuncia o impacto do agronegócio na saúde dos povos originários.
  • Análises da Fiocruz detectam altos níveis de agrotóxicos em fontes de água locais.
  • Retomada das feiras de agricultura familiar ajuda a promover a autonomia e a identidade indígena.
  • Reivindica-se o reconhecimento oficial dos povos indígenas no Piauí, enfrentando um histórico de apagamento.
  • Cacique Dan apela ao governador para agir em prol das comunidades indígenas.

O jornalista Roberto John entrevista a cacica Dan
O jornalista Roberto John entrevista a cacica Dan

No coração do Cerrado piauiense, a voz da cacique Maria da Conceição de Souza, conhecida como Cacique Dan, ecoa como um grito de resistência. Em entrevista durante a feira da agricultura familiar, a líder da etnia Akroá-Gamella trouxe à tona a dura realidade enfrentada pelos povos originários no sul do Piauí: um cenário de conflitos de terra, contaminação por agrotóxicos e a luta secular pelo reconhecimento de seus direitos.

“A nossa imagem foi apagada no Piauí”, desabafa a cacique, que também é presidente da Associação do Povo Indígena Akroá-Gamella de Uruçuí e Adjacências (Apiagu) e conselheira de saúde indígena.

A luta pela terra 

Cacique Dan representa uma das vozes mais atuantes do movimento indígena no estado. Ela preside o conselho da Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI) e integra a diretoria de mulheres da POEM do Piauí. Sua principal bandeira, contudo, é a demarcação das terras tradicionalmente ocupadas por seu povo, uma luta que se arrasta há anos.

“Sem a terra nós não temos produção e nem vida”, afirma. A região de Uruçuí, Baixa Grande do Ribeiro, Santa Filomena, Currais e Bom Jesus é palco de um conflito crônico . Apesar de um procedimento de demarcação iniciado em 2018, o processo segue travado, o que tem intensificado a grilagem e a violência contra os indígenas.

Segundo a cacique, a situação é de extrema urgência. “A gente tá com quatro eliminar na retomada Toco Preto. A gente tava com eliminar para sair no dia 5, mas o eliminar foi impugnado e aí continua os conflitos de terra.” A ameaça é constante: “Agora mesmo eu vi o nosso parceiro ali teve que fugir porque senão morre”, relatou, referindo-se à iminência de novos confrontos.

O veneno que adoece e mata

A expansão do agronegócio, impulsionada pela fronteira agrícola do Matopiba, é apontada como a principal vilã da história. O avanço das monoculturas não só pressiona os territórios indígenas, como também contamina o meio ambiente e a saúde das comunidades.

“Continua direto. Esse aqui tá pesado, porque em quantidade de pessoas doentes com câncer é muito grande”, denuncia a cacique, que também exerce a função de pajé. A contaminação por agrotóxicos, aplicados em larga escala nas lavouras vizinhas, é uma realidade que afeta diretamente a qualidade de vida dos Akroá-Gamella e de outros povos, como os Guegué do Sangue.

Dados recentes revelam a gravidade do problema. Em uma comunidade da região, um dossiê da Fiocruz encontrou sete tipos diferentes de agrotóxicos no poço que abastece as famílias, com o glifosato 14 vezes acima do limite permitido na União Europeia . “A água tem gosto ruim, o cheiro é forte e as pessoas estão adoecendo”, relatou uma liderança local ao Ministério Público do Trabalho.

Feira, produção e autonomia

Apesar das dificuldades, os indígenas buscam sua autonomia. Na feira da agricultura familiar, eles ocupam um espaço de igualdade e apresentam sua produção, que inclui tangerina, banana, rapadura de piqui, xaropes medicinais, artesanato e doces.

“Do jeito que é tratado os agricultores, é tratado os povos indígenas. Por isso que tá de parabéns”, elogia Cacique Dan, destacando o trabalho da Secretária Rejane Tavares. Para ela, esses espaços são fundamentais para gerar renda e fortalecer a identidade. “Esse dinheiro os indígenas aplica para multiplicar, para trazer os produtos para a feira orgânico.”

Apelo por reconhecimento

O reconhecimento é a palavra-chave. Por décadas, o Piauí foi tratado como um estado “sem índios”, um apagamento histórico que até hoje dificulta o acesso a políticas públicas . Para mudar esse cenário, Cacique Dan faz um apelo direto ao governador do estado.

“Eu espero que esse vídeo saia para todo lugar, que o nosso governador olha com bons olhos e dê a terra aos povos indígenas”, clama. “500 anos de luta, muito sangue derramado, muitas vidas. É isso que nós queremos também ser uma pessoa reconhecido como os brancos.”

A luta dos Akroá-Gamella é um retrato do que acontece com os povos originários em todo o Brasil: a disputa por um território que é seu por direito, mas que continua sendo negado. Enquanto isso, as lideranças seguem resistindo, produzindo, e reivindicando seu lugar na história e na sociedade piauiense.

Veja entrevista da cacica Dan



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