SUS amplia acessos a remédio contra câncer que não provoca queda de cabelo

Medicamento pembrolizumabe será produzido pelo instituto Butantan; especialista alerta que efeito colateral depende se há ou não quimioterapia combinada

O Sistema Único de Saúde (SUS) vai ampliar o acesso a um medicamento de ponta contra o câncer que, ao contrário da quimioterapia tradicional, não causa queda de cabelo. O pembrolizumabe, uma imunoterapia que estimula o sistema imunológico a combater as células tumorais, será produzido no Brasil a partir de uma parceria entre o Ministério da Saúde, o Instituto Butantan e a farmacêutica MSD.

 A informação foi confirmada por email à redação do Portal Piauí Hoje por Thales Brendon Castano Silva, da Coordenação-Geral de Prevenção e Controle do Câncer do Ministério da Saúde. “Em geral, o pembrolizumabe não provoca a queda de cabelo da mesma forma que a quimioterapia tradicional”, explicou.

 Segundo os especialistas, o impacto emocional da queda do cabelo merece atenção tanto quanto o tratamento médico. Para muitas mulheres, a perda dos fios atinge diretamente a autoestima, a feminilidade e a identidade social, podendo gerar isolamento e sofrimento psicológico intenso.

Em mulheres, a perda do cabelo pode gerar isolamento e sofrimento psicológico intenso (Foto: Ivan S)

 

Para os homens, embora a calvície seja socialmente mais naturalizada, a perda abrupta e total do cabelo também abala a autoconfiança e escancara a doença para o mundo, trazendo sentimentos de vulnerabilidade e perda de controle sobre o próprio corpo.

 A diferença está no mecanismo de ação. Diferente da quimioterapia, que ataca células de rápida multiplicação incluindo os folículos capilares, o pembrolizumabe atua estimulando o sistema imunológico a combater o câncer, o que geralmente não causa a perda de fios, detalhou Thales Brendon.

 Há, porém, uma ressalva importante. Se o pembrolizumabe for administrado junto com a quimioterapia o que é comum em alguns protocolos, a queda de cabelo pode ocorrer devido aos outros medicamentos, explicou o especialista. “É essencial conversar com o oncologista sobre o plano de tratamento específico, pois a queda de cabelo depende da associação de medicamentos”, orientou Thales Brendon.

Medicamento será produzido em São Paulo e distribuído exclusivamente pelo SUS (Foto: Instituto Butantan)


 Embora não cause queda de cabelo, os efeitos colaterais mais comuns do pembrolizumabe, quando usado isoladamente incluem fadiga, coceiras na pele, diarreia e alterações na tireoide. Em casos mais raros, podem ocorrer inflamações como pneumonite inflamação nos pulmões e hepatite inflamação no fígado.

 O anúncio da parceria foi feito no dia 26 de março pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha. A iniciativa prevê a transferência de tecnologia da MSD para o Instituto Butantan ao longo de dez anos. O medicamento será produzido em São Paulo e distribuído exclusivamente pelo SUS.

 Atualmente, o pembrolizumabe já é ofertado na rede pública para o tratamento de melanoma avançado não cirúrgico e metastático, um tipo agressivo de câncer de pele. Cerca de 1,7 mil pessoas são atendidas por ano com o remédio, a um custo de R$ 400 milhões para o governo. 

Ministro da Saúde, Alexandre Padilha(Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)


 Agora, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) analisa a ampliação do uso para outros quatro tipos de câncer: mama triplo-negativo, pulmão, esôfago e colo do útero. Se aprovada, a demanda pode saltar para aproximadamente 13 mil pacientes por ano.

O modelo de Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) usa o poder de compra do SUS para estimular a produção nacional de medicamentos de alto custo, reduzindo a dependência de fornecedores estrangeiros. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou o significado da iniciativa. A inovação que nos interessa é aquela que chega às pessoas, principalmente as mais vulneráveis. Aquela que reduz desigualdades, amplia o acesso, melhora o cuidado e salva vidas. Porque, no fim, não estamos falando apenas de tecnologia. Estamos falando de direito à saúde, afirmou.

 A secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Saúde, Fernanda De Negri, também comentou a importância da parceria. A gente produzir aqui deixa o paciente brasileiro com mais garantias de que esse medicamento não vai faltar por conta de eventos externos que causem a interrupção de cadeias logísticas, disse.

 A expectativa é que o Butantan comece a oferecer o medicamento ao Ministério da Saúde em alguns meses, inicialmente com etapas como rotulagem e envase, até que toda a cadeia produtiva seja nacionalizada.