Num artigo que escreveu para a plataforma The Conversation, Alberto Dolci – líder do curso de nutrição para o esporte e exercício, conferencista sobre exercício e fisiologia ambiental e exercício imunológico, na Universidade de Westminster – revela que nos anos 70 os corredores de maratona eram desencorajados a consumir líquidos, pois isso poderia deixá-los mais lentos.
Hoje em dia “estamos obcecados em estar hidratados quando nos exercitamos, não só com água mas como bebidas que alegam fazer um melhor trabalho na prevenção da desidratação e até melhorar o desempenho atlético.”
No entanto, o especialista destaca, “as provas dos benefícios destas bebidas são muito limitados”. E mais, “podem até ser ruins para a sua saúde em alguns casos.”
Alberto Dolci afirma que “a chave por trás do enorme sucesso das bebidas esportivas reside na união da ciência com o marketing criativo”. Ele explica que um estudo publicado no British Medical Journal aponta que as empresas de isotônicos começou a patrocinar cientistas para desenvolverem estudos sobre a hidratação, o que deu origem a uma nova área da ciência. Estes mesmos cientistas “espalharam o medo da desidratação” em órgãos ligados à saúde e ao esporte.
“Um dos grandes sucessos desta indústria foi ainda passar a ideia de que o sistema de sede natural do corpo não é perfeito para detectar e responder no caso de desidratação”, o que resultou em dicas de autoridades internacionais para que se bebesse líquidos mesmo sem sede.
Depois, as empresas produtoras destas bebidas começaram a dizer que o sódio presente nos isotônicos faz com que se melhore mais cedo, encorajando-o a consumir um maior volume de líquidos comparativamente ao que acontece quando bebe água, além de alegar que estas bebidas impedem a retenção de líquidos. Contudo, uma revisão de estudos concluiu que confiar na sensação natural de sede não só é mais confiável, como maximiza o seu desempenho em exercícios de resistência.
Uma revisão realizada pelo British Medical Journal analisou 1035 sites de marcas de bebidas esportivas e concluiu que, dos alegados 431 benefícios de 104 produtos, mais da metade é dado sem qualquer referência que o sustente. Na outra metade, 84% referiam estudos com alto risco de desvio, apenas três foram julgados de alta qualidade e nenhum se referiu a revisões sistemáticas, que conseguem provas mais fortes.
Além disso, muitos estudos são feitos com participantes que são atletas ou pessoas que praticam exercício físico intenso durante muitas horas, dando portanto dados que não são tão corretos quando a bebida é indicada às pessoas comuns que passam poucas horas treinando.
Para crianças ou diabéticos, estas bebidas podem inclusive ser perigosas pois muitas contêm cerca de 20gr de açúcar por 500ml.