Uma história que chocou muita gente: na segunda-feira passada (06/07), a técnica de enfermagem Auricélia Souza Rocha, de 42 anos, tentou raptar um recém-nascido da Nova Maternidade Dona Evangelina Rosa, em Teresina. Ela foi presa na manhã desta quarta-feira (8), ao deixar o Hospital Psiquiátrico Areolino de Abreu, onde havia sido internada para observação.
Uma das hipóteses de investigação da Polícia Civil aponta que Auricélia pode ter desenvolvido uma gravidez psicológica, condição que a fez acreditar, com todas as forças, que estava grávida. Segundo as investigações, ela chegou a realizar um "chá de bebê" para familiares e amigos. Ao perceber que não havia bebê algum, a suspeita precisaria de um recém-nascido para justificar a festa, o que teria motivado a tentativa de rapto do bebê.
Mas, afinal, o que é a gravidez psicológica e como uma mulher chega a sentir os sintomas de uma gestão sem estar grávida? O portal Piauí Hoje buscou a resposta. A psicóloga clínica Sileli Santiago, que explicou os mecanismos por trás desse fenômeno.
O que é a gravidez psicológica?
De acordo com Sileli Santiago, a gravidez psicológica é uma condição em que a mulher acredita estar grávida e pode apresentar sinais físicos e emocionais típicos de uma gestação, mesmo sem existir um bebê em desenvolvimento.
Cientificamente conhecida como pseudociese, essa condição é classificada como um transtorno somatoforme, ou seja, uma condição física que ocorre sem uma razão biológica aparente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a pseudociese afeta de 1 a 6 casos a cada 22 mil gestações, o que representa aproximadamente 0,03% do total.
"A gravidez psicológica acontece a partir de uma interação entre fatores emocionais e biológicos. O cérebro, influenciado por emoções intensas, pode estimular o corpo a produzir alterações hormonais que levam ao surgimento de sintomas físicos semelhantes aos da gravidez", explicou Sileli Santiago.
Sintomas da gravidez psicológica
Os sintomas da pseudociese podem ser tão intensos que a mulher e as pessoas ao seu redor têm plena convicção de que há uma gestação em curso. Segundo Sileli Santiago, entre os sinais físicos que podem aparecer estão:
· Ausência de menstruação
· Aumento abdominal (cerca de 60% a 90% das mulheres apresentam distensão da barriga)
· Sensibilidade e aumento dos seios
· Náuseas e enjoos matinais
· Aumento do apetite e desejos alimentares
· Sonolência e cansaço excessivo
· Sensação de movimentos fetais — a mulher sente o "bebê" mexer na barriga
· Em casos mais severos, pode haver produção de leite (devido ao aumento da prolactina) e até contrações simuladas de parto
Mudança emocionais
Além dos sinais físicos, a mulher também apresenta mudanças emocionais intensas. Segundo a psicóloga, ela pode vivenciar sentimentos como alegria, ansiedade e sofrimento, dependendo do contexto em que está inserida. Muitas mulheres organizam a rotina em função da "gestação" e compartilham a notícia com familiares. Quando confrontadas com a ausência de gravidez, podem reagir com negação, tristeza ou confusão.
Causas e fatores de risco
A psicóloga destaca que a gravidez psicológica não é uma condição muito comum, mas também não é considerada rara. Ela pode ocorrer em diferentes contextos e fases da vida da mulher, principalmente quando existem fatores emocionais importantes envolvidos .
As principais causas e fatores de risco incluem:
· Desejo intenso de engravidar
· Infertilidade ou dificuldade para engravidar
· Perdas gestacionais anteriores (aborto espontâneo)
· Pressão social para se tornar mãe
· Medo excessivo de engravidar
· Histórico de abuso sexual
· Transtornos psicológicos ou psiquiátricos preexistentes
· Conflitos emocionais e dificuldades nos relacionamentos
Diagnóstico e tratamento
Diante de sinais de uma possível gravidez sem confirmação médica, a especialista reforça que é fundamental procurar atendimento com um ginecologista para avaliação. O diagnóstico requer exames como:
· Beta HCG com resultado negativo
· Ultrassonografia pélvica ou transvaginal sem imagem de embrião ou saco gestacional
Mesmo com resultados negativos, muitas mulheres têm dificuldade em aceitar que não estão grávidas. Por isso, o acolhimento da família é essencial.
Caso seja identificada a gravidez psicológica, o acompanhamento com psicólogo e psiquiatra é considerado essencial. "A ajuda profissional é importante para que a mulher possa compreender o que aconteceu, receber acolhimento e iniciar um acompanhamento que considere tanto os aspectos emocionais quanto físicos", destacou Sileli Santiago.
O tratamento envolve três frentes principais:
1. Psicoterapia — para identificar a origem das reações emocionais
2. Acompanhamento psiquiátrico — quando necessário, com uso de medicamentos para tratar distúrbios associados
3. Tratamento ginecológico — para regularização hormonal e do ciclo menstrual
O caso que chocou o Piauí
A tentativa de sequestro aconteceu na tarde da última segunda-feira (6). De acordo com a direção da maternidade, Auricélia não estava escalada para trabalhar no dia do crime. Ela teria utilizado suas credenciais de funcionária para acessar a maternidade, vestiu roupas profissionais e circulou pelos leitos.
A tia da recém-nascida, Daniela Beatriz, relatou que a suspeita se ofereceu para ajudar na realização dos testes da orelhinha e do pezinho para agilizar a alta da bebê. Daniela foi orientada a esperar do lado de fora de uma sala e entregou a criança à técnica. Minutos depois, ao ver a mulher saindo em direção ao banheiro com uma bolsa grande, desconfiou e abordou a suspeita, encontrando a bebê dentro da bolsa, com o zíper semiaberto.
O Conselho Regional de Enfermagem do Piauí (Coren-PI) acompanha o caso e afirmou que adotará as medidas cabíveis para apurar possíveis condutas incompatíveis com o exercício da profissão. A maternidade informou que registrou Boletim de Ocorrência e está colaborando com as investigações.
Gravidez psicológica não é fingimento
A especialista Sileli Santiago e outros profissionais da área reforçam que a gravidez psicológica não é uma simulação consciente. As mulheres que vivenciam essa condição realmente acreditam estar grávidas e sofrem com isso.
"É importante ressaltar que para ser considerado um transtorno somatoforme, este não pode ser resultado de uma simulação consciente por parte do paciente", explica outra especialista, a psicóloga Isabel Belaguarda.
O apoio de familiares e amigos é fundamental para que a paciente procure e receba ajuda médica, bem como suporte emocional para superar a pseudociese.
A profissional consultada pelo portal é Sileli Santiago da Rocha, psicóloga clínica com mais de 10 anos de experiência e registrada no Conselho Regional de Psicologia -CRP, sob o número 21/01846. Ela é graduada em Psicologia pela Faculdade Santo Agostinho e em Jornalismo pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
Sileli possui pós-graduação em Psicopedagogia Clínica, Institucional e Hospitalar pela Faculdade Maurício de Nassau. Ela atua como psicóloga clínica e terapeuta de casal em consultório particular no Bairro Ininga, zona Leste de Teresina, e integra o corpo clínico do Grupo Otorrinos.