O presidente do Tribunal de Contas do Estado do Piauí (TCE-PI), conselheiro Kennedy Barros, classificou o ano eleitoral como "difícil para o Tribunal" e fez um alerta contundente sobre os riscos da desinformação e do uso indevido da máquina pública nas eleições de 2026. Em entrevista, Barros, que é mestre em Ciência Política e ex-deputado estadual, defendeu que o processo eleitoral deve ser "a festa da democracia", mas demonstrou preocupação com práticas que viciam a disputa e fragilizam a vontade popular.
"Eu vejo com muita tristeza", afirmou o conselheiro, criticando o uso de "púlpito de igreja" para fins eleitorais e a disseminação de fake news. "A mentira tem perna curta, mas anda que é uma beleza. E, às vezes, quando a verdade chega, o prejuízo já está formado", alertou.
Kennedy Barros enumerou as principais práticas consideradas irregulares no período eleitoral, que serão alvo de fiscalização do TCE-PI em todos os 224 municípios piauienses. Entre as condutas vedadas estão a contratação em período proibido, o uso de bens públicos como tratores, carros e gasolina, e qualquer tipo de favorecimento com recurso público que possa influenciar o resultado eleitoral.
"Se você usa uma estrutura que seu adversário não tem, você se favorece na concorrência. A máquina pública fica lesada e o processo eleitoral fica viciado", explicou o presidente. Ele ressaltou que o Tribunal tem atuado de forma preventiva, com palestras e orientações sobre o que é permitido e o que é vedado, mas que as consequências para quem insistir no erro incluem cassação de registro, cassação de diploma e até crime eleitoral com privação de liberdade.
O avanço das tecnologias digitais e o uso criminoso da inteligência artificial para manipular a opinião pública também foram destaque na fala de Kennedy Barros. Ele classificou como crime a prática de "picotar trechos" de falas ou criar montagens com IA para imitar a voz de alguém e causar desgaste a adversários.
"Isso é crime. Além de favorecer aquele denunciante com um fato que não existe, ele ainda possibilita o desgaste da imagem do outro para poder favorecê-lo na concorrência", afirmou. As penalidades incluem cassação do registro ou diploma e responsabilização por calúnia, difamação ou injúria.
As novas regras aprovadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para 2026 reforçam esse combate. Segundo resolução do TSE, todo conteúdo de propaganda eleitoral criado ou alterado por Inteligência Artificial deve exibir um aviso claro e visível . Fica proibido o uso de deepfakes, e conteúdos sintéticos não podem ser postados nas 72 horas que antecedem a eleição e nas 24 horas seguintes . O TSE também lançou a campanha "V de Verdade" para ensinar eleitores a identificar desinformação usando os "5 Vs": volume, variedade, velocidade, viralidade e verossimilhança .
Parcerias e fiscalização no Piauí
Kennedy Barros explicou que o TCE-PI atua em parceria com a Justiça Eleitoral e o Ministério Público Eleitoral. O Tribunal orienta, esclarece e, quando identifica irregularidades, representa aos órgãos competentes. "A medida que ele diz que não pode acontecer, o que é que ele está dizendo? Se acontecer, vai representar à Justiça Eleitoral e ao Ministério Público. Consequentemente, vai denunciar e vai ter problema", detalhou.
A Procuradoria-Geral do Estado do Piauí (PGE-PI) também já apresentou, em março de 2026, o Manual de Condutas Vedadas para as Eleições Gerais, em evento realizado no auditório do TCE-PI . O manual orienta gestores estaduais sobre publicidade institucional, uso da internet e redes sociais, além das inovações legislativas para o pleito . O TCE-PI, por sua vez, já declarou que realizará fiscalizações sobre o uso da máquina pública e que qualquer conduta vedada identificada será comunicada automaticamente à Justiça Eleitoral .
O papel do eleitor e os riscos à democracia
Para o presidente do TCE-PI, o debate eleitoral deveria se concentrar na prestação de contas e nos projetos de cada candidato. "O que é que você fez? Comprove. Você está aqui prestando conta do seu mandato, da sua gestão. O que é que ela tem de positivo? A população quer saber", afirmou. No entanto, quando o processo é viciado por fake news ou uso da máquina, "ela não é democracia", concluiu.
O TSE também tem estimulado a participação popular no combate à desinformação por meio do Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral (SIADE), canal pelo qual qualquer pessoa pode denunciar conteúdos falsos que possam prejudicar a integridade do pleito.
A entrevista
Veja a entrevista completa do presidente do TCE ao jornalista Luiz Brandão no canal do portal Piauí Hoje no YouTube.