Ex-comandante do Exército ameaçou prender Bolsonaro por causa de minuta do golpe

Segundo Freire Gomes, aconteceram duas reuniões no Palácio da Alvorada

Marco Antônio Freire Gomes, ex comandante do Exército, confirmou à Polícia Federal que o ex-presidente Jair Bolsonaro apresentou para ele e outros comandantes das Forças Armadas uma minuta de decreto para instaurar um estado de defesa no TSE E ‘“apurar a conformidade e legalidade do processo eleitoral’” de 2022.

Freire Gomes depôs à Polícia Federal no dia 1 de março, sob condição de testemunha, por mais de 7 horas. O teor do documento foi publicado no jornal O Globo nesta sexta-feira (15). De acordo com o depoimento do general, o documento havia sido apresentado no Palácio da Alvorada em dezembro de 2022. 

Freire Gomes também revelou que o conteúdo do documento era semelhante ao da minuta que foi encontrada pela PF em janeiro de 2023 na casa do ex-ministro da Justiça, Anderson Torres. O documento encontrado na residência do ex-ministro da justiça previa a decretação de um "Estado de Defesa na sede do Tribunal Superior Eleitoral" e a criação de uma "Comissão de Regularidade Eleitoral", comandada pelos militares e com o objetivo de "garantir a preservação ou o pronto restabelecimento da lisura e correção do processo eleitoral."

Primeira Reunião

O general informou à PF que uma versão da minuta foi apresentada em uma primeira reunião entre o ex-presidente Bolsonaro e os comandantes no Palácio da Alvorada em 7 de dezembro de 2022.

Segundo Freire Gomes, "na referida reunião possivelmente Filipe Martins leu o referido conteúdo aos presentes e depois se retirou do local, ficando apenas os militares, o então ministro da Defesa e o então Presidente da República Jair Bolsonaro."

Filipe Martins, ex-assessor da Presidência da República, é um dos alvos da Operação Tempus Veritatis, que investiga a organização de uma tentativa de golpe de Estado. A operação também tem entre os alvos o ex-presidente Bolsonaro, o ex-comandante da Marinha, Almir Garnier, e o ex- ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira -- todos mencionados por Freire como participantes da reunião.

O ex-comandante disse à PF que Bolsonaro descreveu o documento como "em estudo" e disse que depois "reportaria a evolução aos comandantes."

Segunda reunião

Em depoimento Freire Gomes afirmou que uma segunda reunião foi realizada uma semana após a primeira, no dia 14 de dezembro, também no Palácio do Alvorada. Uma nova versão do texto foi apresentada. 

Freire Gomes disse à PF que Torres servia de "suporte jurídico para as medidas que poderiam ser adotadas".Aos investigadores, o ex-comandante disse que "em outra reunião, no mesmo local, em data que não recorda, Bolsonaro apresentou uma versão do documento  com a declaração do estado de defesa e a criação de regularidade eleitoral, para apurar a conformidade e legalidade do processo eleitoral. 

Nesta reunião, segundo o ex-comandante, estavam presentes ele, o ex-presidente Bolsonaro, o ex-comandante da Marinha, almirante Garnier, o ex-comandante da Aeronáutica, brigadeiro Carlos Baptista Junior e o ex-ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira.

Recusou a apoiar

O ex-comandante reitera que se nessa reunião ele e o brigadeiro Baptista Junior recusaram a apoiar, afirmaram“de forma contundente suas posições contrárias ao conteúdo exposto" e disseram que "não teria suporte jurídico para tomar qualquer atitude."

Entretanto, o almirante Garnier, de acordo com Freire Gomes, "teria se colocado à disposição do Presidente da República."

O general também disse à PF que alertou o ex-presidente Bolsonaro de que o Exército “não aceitaria qualquer ato de ruptura institucional” e que a proposta discutida sobre o tema "poderia resultar na responsabilização penal do então presidente da República".

Mensagem de Cid

O ex-comandante confirmou ainda à PF ter recebido mensagens do tenente-coronel e ex-ajudante de ordens da Presidência, Mauro Cid, sobre o tema. Cid fez um acordo de delação com a PF e já prestou depoimentos sobre o tema, incluindo relatos quanto às reuniões agora descritas pelo ex-comandante do Exército.

À PF, Freire Gomes disse reconhecer que recebeu os áudios identificados na investigação. Que os áudios procuravam retratar as visitas recebidas pelo então presidente e seu estado de ânimo em relação às medidas que estavam sendo discutidas.