Por unanimidade, a Corte Especial do STJ aceitou queixa-crime apresentada pela família da vereadora Marielle Franco , assassinada em março do ano passado, contra a desembargadora Marília de Castro Neves Vieira , do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ). Assim, a magistrada passa à condição de ré pelo crime de calúnia , por ter atribuído a Marielle a participação em uma organização criminosa. Poucos dias depois da morte da vereadora do PSOL do Rio de Janeiro, Marília escreveu no Facebook que Marielle "estava engajada com bandidos" e "foi eleita pelo Comando Vermelho".
A relatora, ministra Laurita Vaz, destacou que não era o caso de absolvição sumária, dando continuidade à ação, o que não significa que a desembargadora já tenha sido considerada culpada. Esse julgamento ainda será feito.
A relatora rejeitou a parte da queixa-crime em que a família argumentava ter ocorrido calúnia quando a desembargadora escreveu que Marielle "sabe como são cobradas as dívidas pelos grupos entre os quais ela transacionava". Segundo ela, essa parte do texto de Marília é genérico.
— A primeira insinuação da mensagem da querelada (Marília), a meu sentir, encontra a adequação típica no artigo 2º da Lei 12.850 de 2013, que é: "promover, constituir, financiar ou integrar, pessoalmente ou por interposta pessoa, organização criminosa". A segunda, no entanto, possui caráter genérico — disse a relatora, sendo seguida pelos demais ministros da Corte Especial do STJ.
Evelyn Melo Silva, advogada da família de Marielle, diz que trabalhou com a vereadora por seis anos e depois afirmou:
— O recebimento da queixa crime é uma forma de reparação, de fazer justiça à memória de Marielle.
Em nome do Ministério Público, o vice-procurador-geral da República, Luciano Mariz Maia, defendeu a aceitação da queixa-crime. Ele até citou a expressão que virou marca entre os apoiadores da vereadora depois de sua morte: "Marielle presente". Também lembrou que, em maio, a Corte Especial já tinha transformado a desembargadora em ré por injúria ao ex-deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ).
— Marília de Castro Neves Vieira, desembargadora, é conhecida desta Corte Especial. Não por ter sido convocada a auxiliar para fazer justiça, mas por ser ré em processo de calúnia, como já foi no caso de Jean Wyllys. E agora novamente frequenta esta Corte Especial para sentar-se no banco de réus. E por quê? Porque sequer uma pessoa morta foi poupada da sua língua, que mata mais do que uma metralhadora — disse o vice-procurador-geral, acrescentando:
— Marielle vive nos que a amam, a respeitam, nos que reconhecem a seriedade de sua luta. É sempre possível dizer "Marielle presente!"
Ele também chamou a desembargadora de racista e preconceituosa:
— Ela faz isso com uma desenvoltura e agressividade que expressa todo o seu preconceito, o seu racismo quando menciona sua origem pobre, de mulher que veio da favela.
Já o advogado Leonardo Monteiro Villarinho, que defende a desembargadora, afirmou que não cabe a acusação de calúnia contra Marielle. Ele reconheceu que a fala foi ofensiva e poderia dar origem a um processo por injúria ou difamação, mas não calúnia.
O Código Penal define calúnia como imputar falsamente um crime a alguém, estipulando pena de seis meses a dois anos, além de multa. Também diz que é punível a calúnia contra os mortos. A difamação é descrita no Código Penal como a imputação de fato ofensivo à reputação de alguém, com pena de três meses a um ano, e multa. Já injúria é quando se ofende a dignidade ou decoro de alguém, com pena igual à de difamação. Em nenhum dos dois casos, há menção à possibilidade de crime de injúria ou difamação contra alguém morto.
— Ninguém tem dúvida de que é ofensivo. É extremamente ofensivo, mal colocado, num momento em que a família estava de luto. A desembargadora teve a hombridade de pedir desculpas públicas. Mas aqui, como bem colocado pelo procurador, é uma corte de justiça — disse o advogado, concluindo: — Dizer que com isso integrou uma organização criminosa é demais.
O Globo procurou a desembargadora por meio da assessoria de imprensa do TJRJ, mas ainda não obteve retorno.
Desembargadora vira ré por calúnia contra Marielle Franco no Rio de Janeiro
Marília de Castro Neves disse que Marielle "estava engajada com bandidos" e "foi eleita pelo Comando Vermelho"
A desembagadora acusada