No dia 1º de fevereiro, uma cabeça decepada de um bode com uma faca de açougueiro atravessada foi colocada na porta da casa da juíza Francesca Mariano, na Itália. A juíza tem recebido ameaças frequentes — inclusive notas escritas com sangue — após ordenar a prisão de 22 membros da máfia que opera na região de Puglia, no sul do país.
Nesta semana, líderes dos países do G7, incluindo o presidente Lula, participam de uma cúpula em Puglia. A região é o reduto do grupo mafioso Sacra Corona Unita (SCU), menos conhecido que a Camorra, a Cosa Nostra ou a 'ndrangheta, mas também infiltrado em empresas e órgãos de governo.
A promotora Carmen Ruggiero em 22 de maio de 2024 — Foto: Alessandra Tarantino/A
Além da juíza Mariano, outras mulheres combatem a Sacra Corona Unita em Puglia, como a chefe da força-tarefa antimáfia, uma promotora de Justiça e uma política local.
A história da Sacra Corona Unita
A Sacra Corona Unita (SCU) surgiu em uma prisão na cidade de Lecce, em 1981, para evitar que grupos criminosos de outras regiões controlassem os negócios ilícitos locais. O nome e alguns rituais do grupo têm origem no catolicismo. Hoje, a SCU mistura negócios legítimos com crimes e conta com cerca de 5.000 membros divididos em 30 clãs.
Carla Durante, chefe da força antimáfia de Lecce, diz que o principal negócio da SCU é o tráfico de drogas, além de extorsão e agiotagem. “Agora há infiltrados na administração pública”, afirma Durante. A SCU lava dinheiro de crimes em negócios legítimos, como empresas de turismo em Puglia.
Confiscar negócios de mafiosos tem sido uma forma eficiente de combater o crime. A força-tarefa de Durante já embargou fazendas e vinícolas, transformando-os em projetos de organizações locais. “Aprendemos que essa é a ferramenta mais objetiva (para combater a máfia), porque tirar ativos dos mafiosos implica tirar poder deles”, diz Durante.
A SCU tem evitado ações violentas nos últimos anos, adotando formas mais sutis de intimidação e se inserindo na sociedade local, onde é aceita por muitos.
Mafioso tentou cortar o pescoço de promotora
Sabrina Matrangola, uma política da região, é filha de uma mulher assassinada em 1984 durante uma campanha contra um empreendimento imobiliário em um parque. Ela afirma que a comunidade precisa se unir e escolher “o lado certo”. Matrangola é ativista do grupo Libera, que converte propriedades embargadas da máfia em projetos comunitários.
Duas semanas após uma operação em que membros da SCU foram presos, um suspeito tentou cortar o pescoço da promotora Carmen Ruggiero com uma faca improvisada. Pancrazio Carrino, um dos 22 presos, sinalizou querer colaborar com a investigação, mas atacou Ruggiero ao chegar ao presídio.
As mulheres que enfrentam a SCU também tentam conscientizar a população sobre os danos da máfia. Mariano, a juíza, escreve peças para mudar a percepção das pessoas sobre os criminosos. “Temos que começar com a comunicação, que é fundamental para transmitir valores de dignidade, coragem e responsabilidade, a capacidade de dizer não, a capacidade de se indignar diante das coisas erradas”, afirma ela.