\"Todos os clubes no Brasil estão quebrados. Todos\", diz empresário

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 Poucas pessoas ganharam tanto dinheiro no futebol brasileiro quanto Wagner Ribeiro. Agente desde 2000, ele já movimentou mais de R$ 1 bilhão em transações — só com Neymar, Lucas, Kaká e Robinho, foram R$ 741 milhões. Até por isso, dinheiro foi o assunto principal da entrevista exclusiva com o empresário mais famoso do Brasil. Em quase 1h30 de entrevista, Wagner admitiu quase ter quebrado por causa do divórcio, assegurou que todos os clubes brasileiros estão quebrados, revelou ter R$ 3 milhões a receber do mercado, contou que há esquema de grana para convocar jogadores para a seleção… Ele também confirmou que é são-paulino, garantiu que vende Gabigol por R$ 90 milhões se o santista for titular, encheu a bola de Gabriel Jesus, criticou o pai de Kaká, fez revelações sobre a renúncia de Sandro Rosell da presidência do Barcelona, após a compra de Neymar.

BLOG_ As vendas de Neymar, Lucas e Robinho (para Real Madrid e Manchester City) movimentaram R$ 741 milhões. Qual seu segredo para cifras tão altas?
WAGNER RIBEIRO_ A primeira coisa é ter grandes jogadores. Depois, ter bom relacionamento na Europa. Sou amigo pessoal do Florentino Pérez (presidente do Real Madrid), falo com o dono do PSG (Nasser Al-Khelaifi), estou no WhatsApp sempre com o Arsene Wenger (técnico do Arsenal), com o Josep Maria Bartomeu (presidente do Barcelona), com o pessoal de Bayer Leverkusen, Liverpool, Manchester United…

Não se queimou com o United após acertar a ida do Lucas para lá e vendê-lo para o PSG?
Eles disseram que eu fui muito comerciante, mas vejo o melhor para os meus clientes. O Manchester pagaria R$ 106 milhões. O Gustavo Vieira (gerente do São Paulo) já estava em Manchester para concretizar a operação. Aí, liguei para o Leonardo (então diretor esportivo do PSG), que se interessou. Falei para o Gustavo dar um chapéu no Manchester e ir me encontrar em Paris. Fechamos por R$ 159 milhões.

Você descobriu o Kaká, investiu nele, o levou para o Milan… por que deixou de ser seu empresário?
Porque o pai dele resolveu tomar conta da carreira. Foi uma decepção tão grande que pensei em largar o futebol. Eu, de fato, tinha investido muito no Kaká. Graças a mim que ele se tornou alvo do Milan. A frustração foi tão grande que nunca mais falei com o pai do Kaká.

E como perdeu o Robinho?
O Robinho é meu amigo até hoje. O que aconteceu foi um problema pessoal. A esposa dele, que tinha uma amizade com a minha, acabou descobrindo uma traição minha e contou para a minha mulher.

É verdade que você ficou quebrado devido ao divórcio?
Cheguei a ficar sem dinheiro para nada. Zerado mesmo. Perdi vários negócios por falta de R$ 200 mil para comprar jogador, mas já me recuperei.

Quanto calcula que perdeu por causa da separação?
Com certeza, mais de R$ 25 milhões entre dinheiro e imóveis. Só a casa onde eu morava, na frente do Parque Ibirapuera, vale R$ 14 milhões. Teve mais uma casa no litoral de R$ 5 milhões, contas bancárias… E o litígio, que começou em 2009, ainda não acabou.

Você já tomou muito calote dos clubes brasileiros?
Muito. Aqui no Brasil, todos os times estão quebrados. Todos! Alguns chegam a dever cinco meses de imagem e dois de salário. Eu tenho pelo menos uns R$ 3 milhões a receber.

De quem?
Tem um time de São Paulo, três do Rio, um de Minas, um do Sul… O pior é que só dá para receber esse dinheiro entrando na Justiça e penhorando a renda de jogos. O problema é que tem centenas de pessoas na fila, também esperando para receber.

Qual clube deve mais?
Só o Vasco deve R$ 2 milhões para o Nilton em salário e outras coisas. Eu tenho uma parte desse dinheiro.

Por que o Nilton não ficou na Inter de Milão no fim do ano passado?
Por causa do exame médico. Ele já tem três cirurgias no joelho, né?

Há algum país que é pior pagador do que o Brasil?
A Turquia. Tenho R$ 700 mil para receber do Konyaspor desde 2007 e mais uns R$ 160 mil do Ancara. Está em contrato, mas eles não pagam. Agora, só faço negócio com a Turquia com dinheiro na frente. Aprendi essa com o Roberto Carlos, que jogou e virou técnico lá.

O Enderson Moreira deixou o Santos reclamando da pressão que você e o pai do Gabigol teriam feito nos bastidores para ele jogar.
Isso é mentira. Eu nunca vi nem falei pessoalmente com o Enderson, assim como o pai do Gabigol. Tanto é que o Enderson caiu e o menino continuou no banco. A única coisa que eu disse para o presidente (Modesto Roma) é que o Gabigol é patrimônio do clube e está se desvalorizando no banco.

Pensa em vendê-lo?
Ele tem 18 anos, biotipo bom, chuta forte. Eu já tive proposta de R$ 35 milhões do Wolfsburg em janeiro. Se o Gabigol jogar como titular e fizer uns golzinhos, vendo no meio do ano por R$ 90 milhões.

Existe esquema de dinheiro para convocador jogador para a seleção?
Claro que existe. Já teve até um presidente do Sport (Luciano Bivar) que admitiu ter pago para o Leomir ser chamado pelo Emerson Leão. Só não tenho como provar outros casos, mas rola sim. Também existe muito negócio na base, com gerente e treinador levando dinheiro para aprovar jogador.

O que tem de mais sujo no futebol brasileiro?
Os gastos com os estádios feitos para a Copa do Mundo do ano passado. Alguns custaram R$ 1,5 bilhão e todo mundo sabe que foi superfaturado. Teve o Lava Jato (esquema de lavagem e desvio de dinheiro na Petrobras) e agora esse é o Arquibancada Jato.

Você está sendo processado pelo Felipão?
Dizem que sim, mas não fui notificado. Fiquei furioso ao ver meu filho chorando naquele 7 a 1 (na semifinal da Copa). Aí, peguei o celular e comecei a escrever umas coisas (chamou entre outras coisas Felipão de asqueroso, velho babaca e arrogante). Não me arrependo

A partir de 1º de abril, empresários e investidores não podem mais ter participação nos direitos econômicos dos jogadores. Isso vai afetá-lo?
Não, porque registrarei meus atletas no Uberlândia, clube que administro com uns amigos (pai de Neymar e o cantor Alexandre Pires). O time, inclusive, é líder da Segunda Divisão do Campeonato Mineiro.

Você fica com 10% dos salários dos jogadores?
Nunca. Ganho na transferência e na imagem. Tipo: se eu apresento uma empresa e ela contrata o jogador, levo 10%.

O fato de ser são-paulino já fez você dar alguma colher de chá para o Tricolor?
O primeiro negócio que eu fiz foi com o São Paulo, quando tirei o França do XV de Jaú. Anos mais tarde, achei que o Francisco Alex e o Caiubi iriam arrebentar e coloquei eles no São Paulo. Mas eles não viraram.

E os netos do Pelé, que também estavam no São Paulo?
O raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Os meninos são só normais, tanto que o São Paulo os dispensou. Eles tinham contrato de três anos e ganhavam R$ 8 mil, cada. Ao menos, receberam tudo direitinho e voltaram para Curitiba com uma situação mais tranquila financeiramente.

Por que o Palmeiras tem dificuldade para revelar atletas?
A cobrança por título é enorme, então, o clube prefere contratar jogador feito, como o Dudu. Só que igual ao Dudu está cheio na base. Alguns até melhores. Não entendo como podem ter pago R$ 10,5 milhões por 50% dos direitos econômicos dele.

Tem alguém que você gostaria de agenciar?
O Gabriel Jesus. Esse menino tem tudo parar virar se conseguir encarar a pressão do Palmeiras. Se estivesse no Santos ou no São Paulo, eu garantiria que vai virar craque. Eu também queria ter trabalhado com o Dener. Com certeza, ele não teria morrido, porque eu nunca o deixaria viajar de carro para o Rio de Janeiro no meio da madrugada.

Você já teve centenas de clientesjogadores. Por que quase não trabalhou com técnicos?
Verdade. Acabei de colocar o Claudinei noAtlético-PR e havia levado o Zetti do Paraná para o Atlético-MG em 2007. Não éminha praia, sem contar que ainda tem conflito de interesse. Pode pegar mal um técnico indicar um jogador que trabalha para o mesmo empresário.

Como acontece com o Carlos Leite e o Mano Menezes?
É um exemplo. Fala-se muito disso e atrapalha o trabalho do Mano. E são duas pessoas corretas, sem nada que os desabone. Não existe sacanagem nesse caso.

Você esteve em algumas das maiores vendas do futebol brasileiro, como as de Neymar, Robinho e Lucas. Dá para dizer que você é o maior empresário do Brasil?
Eu não acho. Existem muitos empresários de ponta, mas tenho o Juan Figger como meu mestre desde que comecei a trabalhar. Aprendi muito com ele e seu filho.

Mas ele não faz um grande negócio há anos.
Ele realmente tirou o pé hoje em dia, mas tem know-how. Foi o Figger quem trouxe Pedro Rocha, Forlán… sem contar que ele levava a seleção brasileira para excursionar na Europa.

Você chegou a fazer testes para jogar no Corinthians e na Portuguesa. Era bom jogador?
Eu era, mas faltou ter um empresário bom (risos). Mas comecei a me destacar mesmo depois dos 25 anos, nas peladas de fim de semana com os amigos. Eles todos estavam barrigudos e eu, magrinho, comecei a fazer um monte de gol.

Qual o tamanho do seu escritório hoje?
Somos eu e mais sete pessoas no escritório, além de cinco scouts, que correm o Brasil. Um deles, inclusive, é irmão do ex-jogador Muller. Também terceirizo a parte jurídica e deixo o marketing com a 9ine.

Quantos clientes?
São uns 60, mas eu só cuido de dez, entre eles Neymar, Lucas, Gabigol, Lucas Evangelista, Nilton e Guilherme.

Você anunciou a parceria com a empresa do Ronaldo com pompa, mas a 9ine fechou pouca coisa e ainda está perdendo o Neymar. Não foi um fracasso?
O Neymar não saiu de lá.

Todos os últimos contratos dele estão sendo fechados pela NN, empresa de publicidade do pai dele.
Isso é mesmo, mas os primeiros acertos, com Unilever, Ambev e Claro continuam. São contratos longos. E se associar a alguém com a grife do Ronaldo sempre acrescenta.

O Neymar é o maior craque entre todos os clientes que você já teve?
É difícil comparar, mas o Neymar era um fenômeno desde os 13 anos. Com esta idade, ele já ganhava R$ 25 mil por mês. Passou a R$ 80 mil com 16 e saiu ganhando R$ 400 mil do Santos. Se bem que, nos últimos tempos, ele era o jogador mais barato do Santos.

Como assim?
A gente acertou um contrato de imagem com o Santos, que tinha direito a 10% do faturamento do Neymar. Acontece que, no último ano dele no Brasil, o Neymar ganhava R$ 5 milhões de imagem por mês. O Santos ficava com R$ 500 mil, então, na verdade, era como se não pagasse salário e ainda embolsasse R$ 100 mil.

Arrependeu-se de ter vendido seus 40% sobre os direitos do Neymar por R$ 6 milhões quando ele tinha 16 anos?
Os 40% não eram só meus. Para falar a verdade, eu tinha 10% e os outros 30% eram do pai do Neymar. E não me arrependo, porque o dinheiro rendeu demais para eles. Compraram uma cobertura tríplex de 800 metros quadrados em Santos por R$ 2 milhões e hoje ela vale R$ 6 milhões.

Qual a sua opinião sobre a briga da DIS e do Santos por um valor maior na venda do Neymar para o Barcelona?
O Santos só está lamentando porque se encontra numa penúria total. A reclamação é porque o pai do Neymar pegou R$ 176,6 milhões e Santos e DIS tiveram de dividir R$ 133,5 milhões. Só que, se o Santos espera mais um ano para vendê-lo, não pega nada. E tem mais: o Neymar valeu 30% a mais do que o Robinho, então foi um ótimo negócio.

E por que negociá-lo com o Barcelona se a proposta do Real Madrid era R$ 113 milhões maior?
O coração do Neymar era Barcelona e ele queria ir para lá. Eu, por exemplo, deixei de ganhar bastante dinheiro por essa opção. Mas tem que respeitar a vontade dele.

A Justiça espanhola pediu a prisão preventiva do atual presidente do Barça, Josep Maria Bartomeu, e de seu antecessor, Sandro Rosell, por crimes fiscais na contratação do Neymar. Como explicar?
Isso é fruto da Guerra Fria que existe do resto da Espanha contra a Catalunha. Não há hipótese alguma de eles serem presos.

Então por que o Rosell renunciou à presidência do Barcelona?
Ninguém aqui no Brasil sabe, mas ele renunciou porque estava sendo ameaçado por torcedores e conselheiros que o condenam de ter levado parte dos R$ 176,6 milhões que o pai do Neymar ganhou, o que não aconteceu. Foram até Londres e tiraram fotos da filha do Rosell. Mandaram para ele com ameaças. Depois, um motoqueiro passou na porta da sua casa dando tiros. Ele se apavorou.

Por que o Lulinha não vingou?
Ele foi o maior fenômeno da base, com 297 gols no Corinthians. Nem Neymar nem ninguém fez tanto. Mas acho que o Lulinha nunca esteve na hora certa e no lugar certo. Ele subiu para o time principal em 2007 e acabou marcado pelo rebaixamento. Depois, rodou, rodou… mas ainda é novo, tem 24 anos e vai ganhar bastante dinheiro.

Você chegou a arranjar confusão no Palmeiras por causa do centroavante Miguel Bianconi e ele nunca virou. Acabou supervalorizando o garoto?
Realmente, eu achava que ele viraria um dos grandes atacantes do país. É forte, cabeceia bem, faz o pivô… mas futebol é complicado. Apenas 11 jogam.

E o Thiago Luís, que chegou a ser chamado pelo jornal Marca de Messi?
Aquela capa atrapalhou demais a carreira do Thiago. Ele tinha marcado oito gols em cinco jogos na Copa e um scout do Barcelona estava assistindo aos jogos do Santos comigo. Pronto. Foi o suficiente para falarem que ele seria o novo Messi. Hoje, nem trabalho mais para o Thiago, apesar de gostar muito de toda a sua família.

Para fechar: qual foi o jogador que fez você perder mais dinheiro?
Difícil calcular. Mas o Abuda (atacante revelado no Corinthians) me deu um prejuízo de pelo menos R$ 250 mil. Ele morava em um apartamento meu, comia de graça, tinha tudo pago… sem contar que ainda comprei uma parte dos direitos econômicos dele. Aí, o cara esperou acabar o contrato com o Corinthians e saiu de graça. Ou seja, perdi tudo. Dois anos depois, ele me ligou pedindo para voltar a empresariá-lo. É claro que eu recusei.