"Não sei se vale a pena comemorar esse dia, porque a gente é tão perseguido", diz líder indígena

Neste domingo (19) é celebrado o Dia dos Povos Indígenas, é uma data oficial, que no texto, é para reconhecer a importância, diversidade cultural e história dos povos originários

"Não sei se vale a pena comemorar esse dia, porque a gente é tão perseguido, mesmo tendo a data de comemorações em homenagem ao povos indígenas, há tanta perseguição em cima da gente, se valesse a pena, a gente teria conquistado mais espaço no país", diz Henrique Manoel, cacique do povo Tabajara.

Henrique Manoel, cacique do povo Tabajara | Foto: Arquivo Pessoal

Neste domingo (19) é celebrado o Dia dos Povos Indígenas, é uma data oficial, que no texto, é para reconhecer a importância, diversidade cultural e história dos povos originários. É o que define a Lei 14.402, de 2022.

Mas, na prática, para as lideranças indígenas do Piauí essa data não representa celebração, mas luta principalmente pela conquista de suas terras.

"Foi dessa data que veio o surgimento dessa comunidade Cariri. Então, por isso, não representa celebração, representa luta. É nessa data que a gente se soma, estamos juntos, elaborando propostas, elaborando documentos e cobrando dos governantes os nossos direitos, para que de fato a gente tem eles de volta. É um dia da luta, da retomada dos direitos dos povos indígenas", afirma Francisca Ferreira, cacica da tribo Cariri.

Francisca Ferreira, cacica da tribo Cariri | Foto: Arquivo Pessoal

A coordenadora do Museu dos Povos Indígenas do Piauí (MUPI), Elayne Tabajara, afirma que não se trata apenas de um dia ou uma data marcada no calendário, mas de um marco de memória que simboliza a identidade e a reafirmação da existência indígena. E também um momento de lembrar os ancestrais, valorizar os saberes, as línguas, os territórios e as formas de viver que constituem a cultura indígena. Para ela é mais que uma data ou uma celebração folclórica, esse período representa um momento de visibilidade, em que os povos indígenas mostram que seguem vivos, organizados e em constante luta.

Coordenadora do Museu dos Povos Indígenas do Piauí (MUPI), Elayne Tabajara | Foto: Instagram

Luta é ainda é por terra

A principal luta dos povos indígenas continua sendo por terras, considerada central na luta por direitos. Muitas comunidades ainda não conquistaram esse direito básico. 

Segundo a cacica da tribo Cariri,  Francisca Ferreira, sem a garantia territorial é difícil assegurar condições dignas de existência, acesso a políticas públicas e a preservação cultural.

"A gente pode destacar o reconhecimento e a demarcação dos territórios indígenas, especialmente no Piauí, onde muitos povos ainda lutam por esse direito básico. Mas também outras pautas como educação, escola indígena, com direito às nossas realidades e línguas de saberes, o acesso à saúde diferenciado que já temos, a saúde indígena dentro do Estado Piauí, mas reforçar também é necessário, a valorização da juventude indígena, garantindo a oportunidade sem precisar abrir mãos da nossa identidade", avalia Elayne Tabajara.

O preconceito ainda é um dos principais desafios enfrentados pelos povos indígenas. O preconceito contribui para o apagamento da identidade indígena, fazendo com que muitas pessoas deixem de se reconhecer por medo ou vergonha.

"Muitos indígenas não se reconhece, porque eles têm vergonha de dizer que é indígena, isso acontece muito aqui. Essa dificuldade que a gente está enfrentando, é porque não tem educação diferenciada dentro das escolas", defende Henrique Manoel, cacique do povo Tabajara.

Mais da metade da população indígena no Piauí mora em áreas urbanas

Em 12 anos houve um crescimento de 144,63% no número de pessoas que passaram a se reconhecer como indígena no Piauí. Em 2010 eram 2.944, já em 2022, o número de piauienses que informaram ser indígenas saltou para 7.202. Esses dados são do Censo Demográfico realizado em 2022 pelo Intituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

Desse total, 3.721 indígenas residem em áreas urbanas, 51,67% do total, e 3.481 pessoas residem em áreas rurais, 48,33% do total.  No Censo Demográfico realizado em 2010, 2.357 pessoas indígenas residiam em áreas urbanas, o equivalente a 80,06% do total, enquanto 587 pessoas residiam em áreas rurais, cerca de 19,94%.

Veja na tabela os municípios do estado com maior quantidade de pessoas indígenas:

Mito de que não havia indígenas no Piauí

Durante muito tempo acreditou-se que não existia povos indígenas no Piauí, o reconhecimento ocorreu apenas na década de 2010, durante o governo do atual ministro do desenvolvimento social, Wellington Dias. 

Estudos acadêmicos contribuíram para desconstruir a ideia de inexistência de povos indígenas no estado. Pesquisas desenvolvidas por estudiosos como Ana Estela de Negreiros Oliveira, Claudete Maria Miranda Dias e Brisana Macedo Silva, entre outros, mostraram a presença histórica e a trajetória desses povos no Piauí. Outro marco importante foi o projeto “O Piauí tem índio, sim”, desenvolvido pela Secretaria de Saúde, que atuou em 36 municípios. 

No Censo do IBGE de 2022, que identificou 7.198 pessoas autodeclaradas indígenas em 157 municípios piauienses, esclareceu de vez a presença indígena do estado.