O governo dos Estados Unidos teria condicionado uma possível redução da tarifa de 25% (tarifaço) sobre produtos brasileiros à abertura de setores estratégicos do mercado nacional para empresas norte-americanas. Entre as reivindicações apresentadas estariam a eliminação de tarifas para bens industriais e produtos dos setores químico, aeroespacial e automotivo.
Setores cobiçados pelos Estados Unidos
As principais concessões atribuídas ao governo norte-americano são:
- tarifa zero para determinados bens industriais;
- redução ou eliminação de tarifas sobre produtos químicos;
- abertura do setor aeroespacial;
- benefícios para produtos e empresas do setor automotivo;
- tarifa zero para o etanol norte-americano;
- menor regulação sobre plataformas digitais;
- inclusão do Pix nas negociações comerciais.
A retirada das tarifas desses setores facilitaria a entrada de produtos norte-americanos no Brasil e ampliaria o acesso das empresas dos Estados Unidos ao mercado nacional.
O setor aeroespacial é considerado especialmente sensível por causa da disputa entre grandes fabricantes internacionais e da importância estratégica da Embraer. No segmento automotivo, uma redução tarifária poderia ampliar a participação de veículos, peças e componentes produzidos nos Estados Unidos. Já a discussão sobre o etanol envolve diretamente o agronegócio e a política energética. Os norte-americanos buscam ampliar o acesso do etanol produzido nos Estados Unidos ao mercado brasileiro.
Pix e plataformas digitais
As plataformas digitais e o Pix também aparecem entre os pontos de interesse do governo Trump. Os Estados Unidos alegam que determinadas políticas brasileiras poderiam afetar empresas norte-americanas de tecnologia, pagamentos e serviços digitais. A investigação comercial conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) citou temas como Pix, comércio digital, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate à corrupção e desmatamento ilegal.
No caso do Pix, o governo norte-americano sustenta que o sistema público brasileiro de pagamentos coloca empresas privadas dos Estados Unidos em situação de desvantagem. O Banco Central brasileiro, entretanto, apresenta o Pix como uma infraestrutura pública, gratuita para pessoas físicas na maior parte das operações e aberta à participação de instituições financeiras.
Governo brasileiro considera exigências excessivas
Uma ala do Palácio do Planalto teria classificado as condições apresentadas pelos Estados Unidos como “inaceitáveis”. A avaliação é que o impacto das concessões para a economia brasileira poderia ser maior do que o prejuízo provocado pelo próprio tarifaço.
De acordo com o cálculo inicial atribuído ao governo federal, a nova cobrança alcançará aproximadamente 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos. Outra estimativa, divulgada após a publicação da relação final de exceções, aponta que mais de 2.100 produtos ficaram fora da sobretaxa.
A tarifa adicional de 25% foi anunciada pelo governo Trump em 15 de julho de 2026 e está prevista para entrar em vigor na quarta-feira, 22 de julho. Produtos como carne, café e outros itens estratégicos foram excluídos da nova cobrança.
Mais de 30 contatos diplomáticos
Segundo levantamento da diplomacia brasileira citado pela imprensa, representantes dos dois países realizaram mais de 30 contatos desde o anúncio inicial das medidas tarifárias.
As conversas ocorreram por telefone, videoconferências e reuniões presenciais, envolvendo autoridades nos níveis presidencial, ministerial e técnico. Apesar das tratativas, não houve, até agora, acordo para suspender integralmente a tarifa.
O governo brasileiro pretende manter os canais de diálogo abertos e buscar soluções específicas para os setores mais afetados. Paralelamente, avalia medidas de apoio às empresas exportadoras e uma eventual resposta baseada na Lei da Reciprocidade Econômica.
Tarifa foi precedida por investigação
A sobretaxa foi proposta inicialmente em 1º de junho de 2026, depois de o USTR concluir uma investigação baseada na Seção 301 da legislação comercial norte-americana. O governo Trump acusa o Brasil de adotar práticas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses das empresas dos Estados Unidos. Brasília contesta essa interpretação e sustenta que algumas exigências norte-americanas interferem em políticas públicas e decisões regulatórias nacionais.
O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou anteriormente que Washington continua aberto ao diálogo, mas exige mudanças nos pontos identificados pela investigação. As negociações permanecem em andamento, e as condições atribuídas aos Estados Unidos ainda não foram confirmadas integralmente em comunicado oficial conjunto dos dois governos.