Cinema negro: mulheres do Piauí e Maranhão reescrevem histórias em núcleo criativo

Fincadas nas raízes ancestrais de mulheres negras da diáspora transatlântica, série “Entidade” tece ficção baseada em histórias reais

No Brasil, mais de 80% dos filmes de cineastas negros vieram apenas depois de 2010. É o que revela o levantamento do estudo “Cinemateca Negra”, de 2023. O mapeamento, que analisou mais de mil filmes nacionais dirigidos por pessoas negras, aponta que a grande maioria dos filmes (84%) são curtas-metragem, revelando a dificuldade encontrada por cineatras negros e negras para acessar postos de maior prestígio, como a direção de um longa-metragem

É bem verdade que realizadores audiovisuais negros e negras estão produzindo há décadas, mesmo com baixíssimos ou nenhum recurso, muitas vezes sem conseguir chegar com suas produções nas salas de cinema comerciais, ou mesmo enfrentando a resistência da indústria cinematográfica em reconhecer que o que estava sendo feito era cinema, e por isso, sem entrar nas estatísticas. Muitos nomes receberam a invisibilidade, e outros tantos tiveram suas obras caídas no esquecimento ou apagamento, no caso de muitas obras que vieram antes da era digital e não conseguiram preservar suas películas.  

Para as mulheres negras, a situação é ainda mais desafiadora. Um estudo realizado pela Ancine revelou que, entre 2016 e 2019, apenas 2% dos roteiros de filmes comerciais lançados no Brasil tiveram autoria de mulheres negras. 

É na contramão desse cenário que mulheres negras do Piauí e do Maranhão estão se envolvendo na escrita de  uma série de ficção, inspiradas na vida e na trajetória de mulheres pretas em diáspora no Brasil, como Esperança Garcia, Kehinde, Maria Jesuína, Beatriz Nascimento, Francisca Trindade e Sueli Rodrigues

Reunidas no Núcleo Criativo desde setembro de 2024, cerca de 10 mulheres experienciaram a criação audiovisual com foco na mulher negra e sua ancestralidade. É dessa encruzilhada criativa que surge o roteiro de “Entidade”, uma série ficcional autoral de sete episódios. 

“Foi muito emocionante. A gente estudou, a princípio essas mulheres, a trajetória de vida delas, e como, de uma forma ou de outra, essas histórias têm pontos parecidos. A gente tentou, além de estudar essas mulheres, também entender um pouco da vida delas, para fazer essas conexões entre uma personagem e outra. Porque não são meramente ficcionais, foram mulheres que realmente existiram, que são nossas referências”, explicou Milena dos Anjos, a DJ Milis, integrante do núcleo criativo. 

A oralidade, a literatura, os registros escritos e as narrativas audiovisuais foram utilizadas como elementos na pesquisa do núcleo. Carmen Kemoly, do Cineclube Tela Preta Piauí, realizadora da iniciativa, conta como fluiu a dinâmica do núcleo criativo. 

"O Núcleo Criativo funcionou da seguinte forma: Primeiro um grupo de quatro pesquisadores realizaram uma pesquisa inicial sobre as personagens. Essa pesquisa prévia era levada ao Núcleo Criativo, e aprofundada a partir de Consultorias Especializadas de cada uma das  personagens.  O fim desse processo resultou na produção de escaletas, um esboço estruturado da história total, organizando as cenas e eventos principais, antes da escrita detalhada do roteiro para os sete episódios da série". 

A partir de suas vivências, envolvidas de forma colaborativa e introjetando afrovisualidades para cada personagem, as integrantes do núcleo criativo deixaram suas impressões na escrita coletiva do roteiro.

Carol Henrique, produtora do projeto e membra do núcleo criativo comentou sobre a importância da escrita para o audiovisual como elemento de memória. 

“Fazer parte do núcleo enquanto equipe foi muito enriquecedor porque traz a história de várias mulheres. Construir esse roteiro, fazer o começo da costura dele, falar sobre nossas histórias também, que são as histórias dessas mulheres, é muito importante, para não cair no esquecimento. Se a gente não falar das nossas histórias, elas vão ser esquecidas. A gente não pode deixar que isso pare por aqui”, afirmou. 

Núcleo criativo: escrevendo o roteiro de forma coletiva

A metodologia do núcleo criativo foi a escolhida para a escrita do roteiro da série Entidade. Nela, um grupo de criadores - neste caso criadoras - trabalharam colaborativamente no desenvolvimento do roteiro. 

A abordagem colaborativa impulsiona ideias inovadoras e fortalece a diversidade de narrativas na construção da trama. Foi o que ocorreu com o filme "Ainda Estou Aqui", drama biográfico brasileiro dirigido por Walter Salles e lançado em 2024, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional. 

Inicialmente, o roteiro do filme foi levado a um núcleo criativo, espaço em que outros roteiristas compartilhavam e discutiam seus projetos. Foi nesse núcleo em que o roteiro foi tomando novas formas até sua versão final. Essa experiência revela a importância da boa construção de um roteiro e de como investir nessa etapa do processo audiovisual traz relevância para o cinema brasileiro. 

No Núcleo Criativo do projeto Entidade, além de suas integrantes, foram convidadas consultoras, pessoas de referência para cada uma das personagens estudadas. As especialistas convidadas compartilhavam sobre a história e trajetória da personagem em questão e opinaram na proposta de escaleta. 

“O Piauí é um território com muitas iniciativas criativas de produção audiovisual, mesmo não existindo no Piauí nenhuma Escola de Formação de Cinema, por exemplo. O Núcleo Criativo surgiu para  impulsionar essas ideias,  e contribuir para que elas se tornem realidade. O roteiro que estamos desenvolvendo fala de cinco mulheres negras que construíram a história desse país, sendo escrito a partir de um núcleo com mais de dez mulheres na criação. ”, explicou Carmen Kemoly.

Mulheres reais inspiraram personagens


Incentivo público

O projeto “Entidade” é uma realização do Cineclube Negro Tela Preta, fomentado com recursos da Lei Paulo Gustavo 2023, via edital Torquato Neto, com apoio da Plataforma de Comunicação Popular Ocorre Diário e do Memorial Casa Maria Sueli Rodrigues.