VÍDEO: Trabalhador da Águas de Teresina arrisca a vida mergulhando em lama

Cena flagrada no Cristo Rei expõe trabalhador a riscos graves de leptospirose, hepatite e infecções; empresa pode ser responsabilizada criminalmente

Um vídeo enviado ao portal Piauí Hoje, feito por moradores da rua Tibiriçá, no bairro Cristo Rei, zona sul de Teresina, mostra uma cena que choca pela negligência com a vida de um trabalhador. O flagrante foi feito na tarde desta terça-feira (14/07), quando um homem a serviço da Águas de Teresina foi filmado mergulhando repetidas vezes em um buraco cheio de lama e água para estancar um vazamento na rede.

A cena gravada no sol a pino é estarrecedora: o trabalhador, sem qualquer equipamento de proteção individual (EPI), literalmente submergia no esgoto, enquanto um colega observava. Ele repetiu o mergulho na lama barrenta por várias vezes.

A imagem é um retrato brutal do descaso com a segurança do trabalhador. A lama urbana, especialmente em áreas residenciais, não é apenas sujeira: é um coquetel tóxico de vírus, bactérias, parasitas e produtos químicos. Especialistas comparam a lama a uma "esponja" que retém tudo o que é descartado incorretamente. Mergulhar nela é um ato de extrema imprudência.

O perigo invisível na lama

A exposição direta e sem proteção a esse ambiente coloca o trabalhador em risco imediato de contrair doenças graves e potencialmente fatais. O contato com a pele, mucosas ou, em caso de ingestão acidental, pode ser o gatilho para uma série de infecções.

Riscos imediatos à saúde

· Leptospirose: A principal ameaça em cenários de alagamento e lama. A transmissão ocorre pelo contato com água ou lama contaminada pela urina de ratos infectados. A bactéria penetra na pele, mesmo sem ferimentos aparentes, e pode evoluir para quadros graves de insuficiência renal e hepática, podendo levar à morte.

· Gastroenterite Aguda: Causada pela ingestão acidental de água com coliformes fecais, presentes em abundância no esgoto, provocando diarreia severa, vômitos, desidratação e fortes cólicas.

· Hepatite A: Vírus altamente contagioso presente em dejetos humanos que ataca o fígado. Os sintomas incluem fadiga extrema, icterícia (pele e olhos amarelados) e urina escura.

· Infecções de Pele: Bactérias como Staphylococcus e Streptococcus entram por pequenos cortes ou arranhões, comuns em serviços manuais. Isso pode causar micoses, dermatites, abscessos graves e até celulite infecciosa, que pode se espalhar pelo corpo.

· Verminoses e Parasitas: Ovos de lombriga (Ascaris) e Giardia sobrevivem na lama por meses e podem colonizar o intestino humano após o contato, causando problemas nutricionais e intestinais.

Os infectologistas alertam que a doença também pode ser contraída "pela mucosa e pele íntegra quando imersa por muito tempo em água ou lama contaminada". Ou seja, o simples fato de o trabalhador permanecer submerso naquele ambiente já configura um cenário de alto risco.

A responsabilidade da empresa

A situação levanta uma questão crucial: será que o trabalhador foi orientado a realizar uma tarefa tão perigosa sem os equipamentos de proteção adequados? Se a Águas de Teresina ou a empresa terceirizada responsável "orienta" ou “aconselha” um funcionário a agir dessa forma, ela está cometendo uma infração trabalhista gravíssima.

A legislação brasileira é clara quanto à obrigação do empregador de fornecer EPIs e treinamento adequado para atividades de risco. A exposição a agentes biológicos (como vírus e bactérias) e a situações insalubres sem a devida proteção configura negligência. As penalidades para a empresa podem ser severas e incluem:

· Multas pesadas do Ministério do Trabalho e Emprego.

· Ações judiciais trabalhistas: com pagamento de adicionais de insalubridade e periculosidade retroativos.

· Indenizações por danos morais: ao trabalhador exposto a situação vexatória e de risco.

· Processos criminais: Em caso de acidentes graves ou desenvolvimento de doenças ocupacionais, os responsáveis podem responder criminalmente.

Alerta 

O episódio no bairro Cristo Rei é um alerta para a necessidade de fiscalização rigorosa e respeito à vida do trabalhador. Colocar um funcionário para "mergulhar" na lama, sem nenhuma proteção, não é apenas um erro operacional; é um atentado contra a saúde e a dignidade humana. 

As autoridades competentes, como o Ministério Público do Trabalho e a Vigilância Sanitária, devem investigar o caso para apurar responsabilidades e garantir que situações como essa não se repitam.

Versão da empresa

Como o vídeo chegou ao portal depois das 21 horas, o Piauí Hoje não conseguiu falar com a assessoria da Águas de Teresina porque o expediente na empresa é até às 18 horas. Mas o mesmo espaço para a versão da Águas de Teresina está garantido.

Veja o vídeo