ONG ligada à produtora de filme sobre Bolsonaro usou R$ 16,5 milhões em notas canceladas

Entidade é investigada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil por suspeitas de fraudes em contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo

Investigada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil, a ONG Instituto Conhecer Brasil apresentou ao menos R$ 16,5 milhões em notas fiscais canceladas ou sem valor fiscal para justificar despesas de um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo voltado à instalação de pontos de wi-fi gratuito em áreas periféricas da capital.

Levantamento divulgado pelo g1 aponta ainda que a entidade emitiu notas fiscais para ela própria, como se tivesse prestado serviços para si mesma. Apenas nesses casos, os documentos somam mais de R$ 1,4 milhão.

A ONG é presidida pela jornalista e empresária Karina Ferreira da Gama, dona da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme biográfico do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Um parecer técnico da Secretaria Municipal de Tecnologia, assinado em fevereiro de 2026 pelos diretores Márcia Soares de Sousa e João Paulo Santana de Jesus, apontou que o instituto “não poderia emitir nota para si próprio” e destacou ainda a existência de cerca de R$ 925 mil em pagamentos em duplicidade declarados pela entidade.

Apesar das irregularidades identificadas, os responsáveis pela pasta e o secretário de Tecnologia, Humberto de Alencar, aprovaram a prestação de contas com ressalvas, condicionando a manutenção do contrato à devolução de R$ 930.256,87 considerados irregulares.

Segundo a gestão do prefeito Ricardo Nunes, a ONG devolveu integralmente os valores apontados no parecer. Com isso, o contrato foi renovado para continuidade da instalação dos 1.800 pontos de wi-fi restantes. Até agora, cerca de 3.200 pontos foram implantados na cidade.

A investigação também envolve fornecedores contratados pela ONG. Um dos casos é o da empresa Complexsys Soluções Integradas Ltda., do empresário André Feldman, que teve uma nota fiscal de R$ 2 milhões cancelada no sistema da Prefeitura de São Paulo no mesmo dia da emissão. Mesmo assim, o documento foi apresentado pela ONG na prestação de contas.

Em nota, a Complexsys afirmou que acompanha “com serenidade” as investigações e declarou ser apenas prestadora de serviços da organização social. A empresa disse ainda que não há conclusões definitivas que justifiquem responsabilização e ressaltou os princípios do devido processo legal, ampla defesa e presunção de inocência.

A Prefeitura de São Paulo afirma que o contrato segue sendo monitorado e nega a existência de irregularidades estruturais ou desvios comprovados. Já as investigações do Ministério Público e da Polícia Civil continuam em andamento.