Decisão de Mendonça expõem mordomias de Ciro Nogueira às custas de Vorcaro; Veja a íntegra da decisão

A decisão de André Mendonça detalha repasses de R$ 500 mil, viagem a Nova York e "Emenda Master" redigida pelo banco; entenda o tamanho do rombo bilionário deixado aos brasileiros

Brasília – O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou nesta quinta-feira (7) a quinta fase da Operação Compliance Zero, mas foi o conteúdo de uma decisão de 36 páginas que escancarou os bastidores do que a Polícia Federal chama de "arranjo funcional" entre o poder público e o crime financeiro. O alvo central é o senador Ciro Nogueira (PP-PI) , apontado como o "destinatário central" de um esquema de vantagens indevidas pago pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, atualmente preso.

Enquanto a defesa do parlamentar classificou as investigações como baseadas em "mera troca de mensagens" , os documentos obtidos pela Corte revelam um nível de intimidade raro entre o líder do Centrão e o banqueiro, detalhando um fluxo de "mordomias" e "mesadas" que ultrapassam a casa dos milhões.

A "mesada" de R$ 300 mil a R$ 500 mil

A investigação conduzida pela PF e chancelada por Mendonça destrincha a engenharia financeira usada para bancar o alto padrão de vida do senador. O esquema girava em torno de uma suposta "parceria" entre a BRGD S.A. , empresa da família Vorcaro, e a CNLF Empreendimentos, ligada a Ciro Nogueira.

Conforme diálogos extraídos do celular de Daniel Vorcaro e citados na decisão, a propina começou como uma "mesada" mensal. Em julho de 2024, Felipe Vorcaro (primo de Daniel e operador do esquema) perguntou ao banqueiro: "Oi, é para continuar pagando a parceria brgd/cnlf? 300k mes?" . A resposta foi imediata: "Sim" .

No entanto, o valor não demorou a subir. Com o agravamento da crise do Banco Master, o preço do suposto "apoio político" inflacionou. Em junho de 2025, Daniel Vorcaro cobrou o primo: "Cara eu no meio dessa guerra atrasou dois meses Ciro?" . A resposta de Felipe sugere um reajuste, elevando o valor de R$ 300 mil para R$ 500 mil mensais.

Detalhe da Mordomia: A PF também identificou que Vorcaro bancava um estilo de vida de luxo para o senador. Entre os gastos listados estão estadias no hotel Park Hyatt, em Nova York, despesas em restaurantes de alto padrão e até a disponibilização de um imóvel de luxo e um cartão de crédito para gastos pessoais, sem custos para o parlamentar .

A "Emenda Master" e o pacote bilionário

A contrapartida do senador, segundo a PF, veio na forma de uma emenda legislativa que poderia ter salvo o Banco Master da falência. Em agosto de 2024, Ciro Nogueira apresentou a Emenda nº 11 à PEC 65/2023, propondo elevar o limite de garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.

O problema é que o texto não saiu da cabeça do parlamentar. A decisão de 36 páginas detalha que a proposta foi redigida pela própria assessoria do Banco Master, impressa e entregue em um envelope na casa de Ciro Nogueira. A versão protocolada no Senado foi uma cópia fiel.

A prova do conluio veio na comemoração do banqueiro. Em mensagens, Daniel Vorcaro comemorou: "Saiu exatamente como mandei" , enquanto interlocutores projetavam que a medida "sextuplicaria" os negócios da instituição.

Daniel Vorcaro está propondo uma delação premiada para obter benefícios na Justiça Os prejuízos no sistema e o rombo no BRB

Se as "mordomias" de Ciro Nogueira custaram caro aos cofres do Banco Master, o prejuízo final aos brasileiros é de escala bilionária. A Operação Compliance Zero não investiga apenas a propina, mas o maior esquema de fraudes financeiras da história recente. Ao todo, o rombo ao sistema financeiro do Brasil chega a R$ 56 bilhões.

De acordo com as investigações, o maior escândalo financeiro da história do Brasil envolve políticos, empresários e autoridades de todos os poderes da República (Executivo, Legislativo e Judiciário). Ministros do STF e pelo menos seis senadores, dois governadores, deputados federais e outra dezena de políticos estão envolvidos no esquema liderado por Daniel Vorcaro.

Dados apurados mostram que o Banco Master estava à beira do colapso, mas isso não impediu que o Banco de Brasília (BRB) realizasse negociações suspeitas. Investigações apontam que o BRB injetou bilhões em "títulos podres" do Master, resultando em um rombo que pode comprometer o erário. Parlamentares chegam a classificar o caso como o "maior escândalo de corrupção da história do Distrito Federal", com prejuízos estimados em R$ 16,7 bilhões apenas nessa ponta da operação.

Além disso, a proposta de Vorcaro de elevar o FGC para R$ 1 milhão visava exatamente atrair grandes investidores para bancos líquidos, socializando o risco e o prejuízo entre os demais bancos e correntistas do país, caso o Master quebrasse.

O histórico de blindagem e a delação 

A defesa de Ciro Nogueira, comandada pelo renomado advogado Kakay, tentou minimizar as provas, alegando que as medidas são "invasivas" e baseadas em "mera troca de mensagens" . O senador também já havia negado proximidade com Vorcaro.

Entretanto, o contexto atual pode ser fatal para a blindagem histórica que livrou Ciro Nogueira de punições em operações passadas (como a Lava Jato). Diferente das delações da Odebrecht e J&F, que foram questionadas, Daniel Vorcaro está em negociações avançadas para fechar um acordo de delação premiada com a PGR.

Se homologada pelo ministro André Mendonça, a delação de Vorcaro pode fornecer documentos, extratos e conversas que detalhem "cada centavo" das mesadas pagas, abrindo caminho para a primeira responsabilização penal efetiva do senador, que até agora viu os inquéritos serem arquivados pelo STF.

Com a apreensão de celulares e computadores realizada na quinta-feira, a expectativa é que os próximos capítulos desse escândalo revelem se a "engrenagem" do crime financeiro no Congresso será, finalmente, desmontada.

A decisão do ministro

A seguir a íntegra da decisão do ministro André Mendonça:

]Decisão.pdf