Democracia e contrapesos

A eleição de Donald Trump deixou o mundo em suspense, mais porque se desconhece o homem que vai comandar a maior potência econômica e militar do Planeta e menos porque as pessoas em geral desconhecem que no regime americano um presidente pode muito, mas não pode tudo.

Trump é um republicano que não fazia parte do chamado establishment do partido pelo qual se elegeu. É o que os americanos mais facilmente classificariam como “outsider”. Então, estando do lado de fora, ele poderia causar danos a todo um sistema político, econômico e legal. Na teoria isso até pode assustar. Na prática, não.

O sistema democrático americano se baseia em contrapesos. Cada um dos poderes que o forma tem um peso que contrabalança ao outro. Além disso, a Câmara de Representantes (Câmara dos Deputados), escolhida por voto distrital, é renovada a cada dois anos – o que significa que o eleitor poderá tirar, daqui a dois anos, a maioria parlamentar que deu a Trump.

Além do fato de o sistema de contrapesos favorecer um equilíbrio para evitar que um poder tenha mais força que outro, o Estado americano está assentado sobre normas que não podem simplesmente ser ignoradas – nem mesmo pelo presidente da República. Isso torna tanto improvável como quase impossível, por exemplo, uma aventura autoritária de um presidente.

Tudo isso posto, é claramente difícil que Trump consiga fazer coisas como expulsar 11 milhões de imigrantes ilegais ou obrigar o México a pagar por sua versão de um muro da vergonha, separando os EUA da parte Sul da América.

Motivos para preocupações existem e eles estão concentrados muito mais na economia. Trump é um demagogo que vendeu a ideia de que os Estados Unidos podem adotar medidas protecionistas à sua economia, ignorando regras de trocas internacionais mais livres e que geram riqueza em escala global.

Eis, portanto, uma razão para a preocupação de todos: a economia, que, se imobilizada na camisa-de-força do protecionismo – que pode ser feito à revelia de certas normas constitucionais e legais – terminará por gerar mais desgraça que bonança. Neste sentido, Donald Trump parece a tempestade. Se cumprir seu projeto econômico protecionista, o mundo só enxergará a bonança depois de sua passagem pela Casa Branca.

Donald TrumpFoto: Divulgação